S.F. não quis obedecer e por isso logo se perdeu no labirinto do jardim. Achava lindas aquelas sebes que se erguiam aos céus e clamavam por uma coisa qualquer. S.F. não obedeceu e entrou no labirinto. Aviso logo que não era um labirinto bem labirístico daqueles de perder de vista e se perder a vista. Era pequeno e por isso mesmo era claustrofóbico. Parecia que as plantas roubavam o oxigênio do visitante para se manterem vivas. S.F entrou em um labirinto vivo. S.F entrou em um labirinto vivo para morrer. As curvas se curvavam para formar retas bem retilíneas que eram um nó e davam um nó na cabeça do visitante. Labirintos não são bons anfitriões. A pior parte de tudo é a monotonia. Tudo se parece igual em um labirinto. A partir de dado momento se torna uma tarefa bem chata essa de tentar achar a saída. Pausa. Pra quê se entra em um labirinto, se a única coisa a se fazer assim que entra é tentar sair? S.F não sabe a resposta. S.F. não sabe aonde está a saída. Despausa. Aqui vai um fato curioso sobre labirintos: Eles não têm saída. Só existem duas entradas; e acreditem em mim quando digo. Entradas não são feitas para algo sair. Labirintos não são feitos com saída. S.F está dentro. S.F. não sai. Talvez ele não queira, talvez não saiba. Mas quando começar a nevar ela mudará de ideia. Pausa. Não, nada de pausa. O labirinto não permite paradas. Quando o desespero bate, se corre, se corre se corre se acelera. Não se para para dizer alô a fome, ao frio, a sede. S.F foi mal-educado, não falou com seus companheiros de cela. A fome, o frio, a sede são gente de bem, que vive em qualquer gente. Não custa se fazer presente pra quem nos acompanha. Era uma vez S.F. Era uma vez um labirinto. O labirinto continua pra sempre porque S.F. que é efêmero, que é ínfimo. S.F. desobedeceu ao entrar no labirinto. S.F se perdeu ao não sabe o que queria. S.F se fudeu e ainda assim a vida corre. E eu sei disso porque eu sou o labirinto.
Die Verwandlung
Ao som de: los hermanos
Algo me acometeu, me acorrentou contra maré. E eu tenho a leve impressão que o culpado, o réu, o autor desse ato grotesco, foi eu mesmo. Mas me escondi tão bem de mim que já não me acho. “Ei, covarde, apareça aqui seu farsante”. E se sou corajoso o bastante para me enfrentar de peito aberto, como sou tão covarde a ponto de me esconder de mim? Só posso concluir que sou dois. Isso na verdade é só uma desculpa, daquelas bem esfarrapadas. Porque colocando a culpa em um eu obscuro e fora de controle, me livro de toda a vergonha de uma culpa tão tosca.
Sim, tosca. É uma culpa tão vergonhosa que nem ouso pronunciar em voz alta. Nem em um sussurro baixo ao pé do ouvido. Ouso escrever? Não, não é questão de ousar, nem de ter coragem, se assim soar melhor. É que não sei se devo. Já é difícil me ouvir dizer. Além disso, nem tenho certeza da admissão. É uma verdade tão nova que nem é verdade ainda. E é medonha, horrorosamente medonha. Mas foi o que percebi, não pelos sentidos nem pela razão. Foi instinto, e conhecimento prévio – não seriam a mesma coisa?
A feia verdade que descobri é que estou me impedindo de ser feliz.
Eu, logo eu, o maior interessado na minha felicidade! É tudo sobre mim, sempre é tudo sobre mim. Porque sou a única coisa que conheço na face dessa vida nublada. Só sei ser eu, só sei sentir o que sinto. Não há a menor possibilidade de um dia fugir de mim. E não é por falta de tentativa, é fator biológico mesmo.
Mas eu me impeço de ser feliz! Acordo de sonhos inquietos e não me encontro em mim. Logo eu, meu único porto seguro na ilusão da realidade. não me reconheço. Eu morri, ou melhor, sequer existir alguma vez. Ou pior, sequer existir. E é tão aterrador, é tanto desespero, tanta dor inexistente, que não me resta nada a fazer a não ser relatar minha desumanização.
Me tornei um fantasma de uma possibilidade que nunca ocorreu. Sou a formiga que você esmaga, sou o carbono que você expira, sou seu eu secreto, o caos e a salvação. Não me queira por perto e não viva sem mim.
Sabedoria Popular
Ouvi-los dizer que quem não tem cão, caça com gato. Por isso, o jeito foi me virar com meu bichano. Mas ele, esperto como é, sabe que, como dizem por aí, um dia é da caça e outro do caçador. Então ele me largou, mas tudo bem; antes só do que mal acompanhado. Fiquei mesmo perdido, num mato sem cachorro, sem gato e sem bússola.
Só não perdi a esperança porque ela é a última que morre e eu ainda tô vivo. Meu medo mesmo é que a luz no fim do túnel seja a do farol de um trem. Vai ver que se manter nos trilhos nem sempre dá certo.
Vi fumaça e era fogo, brinquei porque achei que não ia me queimar. Quis chamar meu pai, que é bombeiro, mas lembrei que em casa de ferreiro o espeto é de pau.
Então sentei e chorei, esperando que minha lágrima mole furasse essa pedra dura que tanta reluz e duvido que seja ouro. Quem sabe, seja só ouro de tolo.
Desperdício
Por favor, vê se apaga a luz ao sair. É que da última vez você a deixou ligada e eu acorde de madrugada com aquela claridade que me ardia os olhos.
E um pouco mais de atenção. Quando eu me levantei, a porta da geladeira estava aberta. E é só você que a ataca durante a noite. Eu nem consigo acreditar que você comeu todo o brigadeiro.
Ainda na cozinha, percebi que a torneira pingava. A torneira pingava e você sequer tinha lavada a louça. É um combinado, lembra? Eu cozinho, e você lava. Não faz cara feia. Somos só nós dois. Dois pratos, quatro talheres, dois copos, dois pesos e uma medida.
É claro que ninguém ligou. Você deixou o telefone fora do gancho. Ninguém deixou recado, mas eu te dou um agora: Quanta displicência! Vou mesmo ter que buscar tua cabeça na lua? Por favor, retorna de onde estiver e retorna minha ligação.
Fui tomar banho e olhe bem. O chuveiro também estava pingando. Só o ralo sabe o quanto de água se perdeu. Parando para pensar, recordo agora que tomamos banho juntos. Ok, cada um tem sua parcela de culpa. De qualquer forma, nada trás de volta a água desperdiçada.
Porque não têm desperdício maior do que nós dois. Moramos juntos, mas de que adianta se só temos presença e nunca estamos presentes? Pois estamos cômodos, no cômodo da sala. Nos acostumamos com essa inércia que nos preenche.
Acorda, meu bem. Me dê água quando eu tiver sede. Me dê carinho quando eu estiver carente. Não desperdice o meu amor. E acima de tudo: me ajude a pagar as contas de água, luz e telefone. Não cabe mais nenhum tipo de dívida na nossa relação.
intrinseca
Houve um tempo em que ele soube por aonde ir. Houve bastante tempo para decisões e erros calculados. O tempo todo se contentou em ser contente, ao invés de ser feliz. Afinal, o importante não era a felicidade, era a espera do que vinha com o vento. Estranho que realmente tenha ventado muito aquele dia. Diariamente era um frio que vinha de dentro, não de fora. Fora que isso tudo começou de forma tortuosa. “Tortura mesmo é bater o dedo mindinho do pé na quina do armário”. Você armaria uma armadilha para me amar algum dia? Diariamente. A diarista sempre percebe a confusão no seu apartamento. Apertado, foi assim que ele ficou quando se perdeu no passado. “Dá pra me passar aquele pote de manteiga?”. Chorava assim, como manteiga derretida. É possível derreter um coração de ouro? Parece-me um tesouro essa história de amar. Amor, por que tanta busca por definição? Ele só foi definhando na bagunça do apartamento deixado por outro alguém. “Bem aquém dos nossos olhos deve haver algo maior que isso tudo”. Todo mundo procura um significado, pois todos têm medo do escuro. Agora escuta os que os olhos tristes querem falar. Faz tempo que houve tempo hábil para o sonho. Mesmo que o sono lhe tire tempo de viver. Viverá o tempo necessário para recuperar o caminho que um dia já soube por onde andar. Mas vê se anda logo, que nem a ele nem a mim resta paciência. Já passei dessa fase de biscoito passatempo. Mas ainda tenho medo desse tempo que me passa.
Sem-pre,ssa.
- Eu estava pensando sobre a Fragilidade dos vidros.
- Me conte.
(…)
- Eu sempre tenho um sorriso bobo no rosto.
- Sempre?
- Sempre que você sopra suas palavras no meus ouvidos.
- Sempre é tempo demais. Além do mais, já usamos muito essa palavra. Não seja repetitivo, meu bem.
Lamentável
Um francês toma café em um bairro suburbano. Olha com ódio para a Paris dos turistas que não sabem dos problemas do outro lado da cidade. Até na cidade-luz nem tudo é flores. Alguém é jogado no porta-malas de um carro em uma cidade qualquer. Como é possível caber seu corpo e tanta tensão e tanto terror e tanto medo em um lugar tão pequeno? E pra onde vai sua vida depois do tiro a queima roupa que para seus órgãos? Talvez um cientista em Estolcomo saiba, mas ele está muito preocupado agora. Tenta achar a cura da Aids. E olhem só, ele acaba de conseguir! “Prêmio Nobel, aqui vou eu”. Não importa quantas vidas serão salvas. O que mata não é a Aids. O que mata é estar vivo. Há tantas formas de morrer, e tantas formas de adiar o fatídico fim. No meio das guerras, que ocorre em baixo do nosso nariz, não há fuga e o desespero vira enxofre. Entra pelos pulmões e queima os neurônios. As mãos tremem. As mãos tremem em vários lugares do mundo. O orgasmo faz o resto do mundo explodir. As bombas fazem o resto do mundo explodir. A bala faz o coração explodir. O ódio faz o francês explodir a xícara. E tudo isso acontece ao mesmo tempo.
Nessa pequena bola flutuante do espaço, há tanta vida e tanto conflito entre a vida de seus habitantes, enquanto você lê isso, sabe-se lá o que acontece fora da sua mente. Você ficaria surpreso se alguém começasse a voar por aí? Pois fico surpreso todo dia com a gravidade. Pense, tem uma força no meio desse planeta que puxa tudo para o centro. De alguma forma, essa bola rochosa se move a uma velocidade assustadora no meio do nada.
Feche os olhos. Faça silêncio. Percebe? Tudo se move. Esqueça ET’s. Isso tudo aqui é uma explosão de vida. E de morte. Mas sempre há vida.
E toda vez que você me diz que está com tédio, é uma situação lamentável. A realidade é tão sufocante. Toda vez que você acha que qualquer besteira é o fim do mundo, eu me lamento. Todo dia a morte bate a porta, é natural. Lamentável mesmo é saber que alguém se foi sem nem saber que um dia esteve.
Encaixe
Que tal pararmos de perder tempo e nos encaixar afinal? Que tal tu largar tua marra e se amarrar em mim?
E se por um acaso confusão surgir, deixe estar, isso passa. Eu posso te olhar bobo, te segurar pela cintura, pedir por carinho e fazer falsas promessas de eternidade. Mas nem por um momento pense que quero teus sentimentos. Somos muito maior que isso. Somos a cama, o sofá, todo lugar. Somos as roupas espalhadas no quarto. Somos o encaixe dos corpos.
Um cheiro sujo infecta o ar. O suor evapora, os pés se contorcem. Não adianta a campainha tocar, não adianta os celulares tocarem. Eu não vou mover um músculo sequer que não seja para o meu prazer. Então não fica aí me olhando, desce um pouco mais e deixa todo o resto explodir.
Mordo sua orelha e faço falsas juras de amor, mas quando você veste sua roupa e vai embora (não sem antes rolamos no chão uma última vez) eu tenho vontade de te segurar e dizer: APAIXONA-TE, APAIXONA-TE, não prometo reciprocidade, mas por favor, encaixa um pouco de amor aonde não tem.
Depois da descarga de adrenalina, eu só queria mesmo um beijo na bochecha. Beijo de boa noite. Dorme aqui comigo, não tenho medo do escuro, mas tenho um vazio que encaixe nenhum preenche.
Mas hoje, somos jovens demais para ligar para algo ínfimo como o vazio.
Borracha
Os Átomos
Eu só queria entender o porquê dos teus átomos atraírem os meus. Mas por compreensão, não entendo nem o meu cachorro, nem porque o céu é azul. Porém, quando ouço tua voz trêmula pelo telefone, sinto tua essência e entendo quem você é. Mesmo sem os olhos (meus e teus) enxergo fundo a alma (minha e tua).
No apartamento, o cão late, a torneira pinga e tudo é estática. Mas, meu bem, é só você chegar com teus zilhões de átomos para tudo ganhar tudo vida, e até meu cachorro se torna educado, usa o sanitário e ainda abaixa o assento (e você sempre me cobra por isso). Eu rio dos teus defeitos e você exalta minhas qualidades. A gente troca e acha graça na nossa bobagem. É, a gente sempre ri, mesmo que apareça uma barata voadora (você gritou e nós dois rimos de você).
Nesses momentos, eu só queria ficar assim, juntinho. Me aconselhando nos teus aconchegos, até anoitecer. Nunca falta carinho, nunca falta amor, mas nunca temos o “para sempre”. E é até melhor, sabemos. Porque, meu bem, que sensação maravilhosa é aquela quando você bate a porta e a saudade quase se esvai, ficamos cada um de um lado da porta, sentindo o que nos une e esperando que isso atravesse o tempo, porque a porta (e a minha vida) você já atravessou.
Só para te ideia, só por tua culpa, sou capaz de fazer rimas fáceis e comparações baratas. Aí você dá aquele sorriso bobo e tudo fica bem, porque tudo é de todo bem entre nossos átomos. E é tudo que tudo isso é. E no vácuo entre os átomos, meu bem, a gente preenche de amor.