11 vidas

Capítulo 2 – Lágrimas, mentiras e fracassos

Quando eu conheci Sofia, eu achava que a amava, mas a verdade é que não tenho certeza.Ela vinha no cinema todo dia, mas parecia outra pessoa. Haviam horas que ela era arrogante, ora impaciente e sempre distante:– Oliver, vamos repassar…

Ela havia acabado de chegar:

– Meu avô casou com Alice Armani, minha avó, e na verdade quem tinha dinheiro era ela e quando eles se casaram, meu avô que administrou o dinheiro…

– Sofia, toda vez a gente fala sobre isso, a gente podia falar de outra coisa para varia.

Era sempre assim, todo assunto era o Strabus:

– Você disse que ia me ajudar, Oliver.

Era verdade, prometi isso há duas semanas:

– Mas você não precisa lembrar toda hora.

– E você quer que a gente converse sobre o que? Porque pelo que eu percebi a gente não tem muito em comum.

Eu não soube o que dizer, eu só sei que ela estava me irritando com esse ar de superioridade.

Depois de corta o assunto do Strabus não sobrou nada para falar. A Sofia só olhava para o relógio e para o nada. Eu estava tentando não me irritar, mas quando ela saiu sem dizer uma palavra, eu explodi:

– Você só vem aqui para isso? Para que eu possa te ajudar no caso do seu vovozinho? Porque se é por isso você não precisa nem voltar!

Eu esperava que ela me desse um tapa ou começasse a chorar, mas o que ela fez foi pior:

– Olha Oliver, eu admito que as vezes eu sou metida e difícil de lidar, mas eu pelo menos não sou fracassada. Eu te contei tudo sobre meu avô com a esperança que você pudesse me ajudar, mas você se mostra pouco eficiente, eu acho que te superestimei. Talvez você não seja a pessoa certa para o meu problema. Eu realmente esperava mais de você.

– E eu esperava…

Que você me amasse. Mas as palavras não saíram, mesmo assim acho que ela entendeu o que eu quis disser, porque por um momento ela parecia prestes a desmoronar. Mas só durou um segundo, ela voltou a ser superior e saiu arrogantemente. E devo admitir que foi graciosa, por um momento eu vi a Sofia de verdade e perdoei a.

Tudo foi tão intenso que me larguei na poltrona mais próxima com a vontade de ficar ali até o mundo acabar. Quando eu conseguia pensar nela só me vinha uma palavra ma cabeça. Fracasso.

Quando eu levantei em direção à porta, eu vi algo brilhante no chão. Não estava ali antes de Sofia ir embora. Aproximei-me. Água. Uma lágrima.

Voltei para casa. Mas estava disposto a no dia seguinte ir ao cinema e tirar toda aquela história a limpo. Queria que ela explicasse tudo que era inexplicável entre nós.

Mas quando eu cheguei ao cinema no dia seguinte ela não estava lá. Eu esperei. E ela não apareceu. Espero que ela não tenha levado o que eu disse a sério.

A verdade é que eu estava me acostumando com a presença dela. Foi o primeiro dia sozinho no cinema Strabus que eu passei depois de tê-la conhecido. Fiquei relembrando tudo. Os sorrisos, as lágrimas e principalmente quando ela era metida, mesquinha e auto-suficiente. Comecei a fazer dela um monstro, e não era bem assim, eu fazia isso porque estava frustrado porque ela não sentia o mesmo que eu sentia por ela.

Voltei para casa me sentindo péssimo. Só faltava chover para um simbolismo completo. Mas não choveu, o que não foi um alívio, porque a tempestade estava apenas começando.

Quando eu chequei em casa, meu pai não estava, ainda bem, porque eu não estou a fim de brigar.

Fui direto para a cama, estava exausto mentalmente. Adormeci. Alguém ligou a luz. Acordei. Sentei na cama. Meu pai estava na porta. De imediato eu não liguei para ele, principalmente quando ele começou a falar, só dei atenção quando ele disse:

– Afinal, onde você estava? Onde você sempre está? Eu fui na sua escola e eles disseram que você não foi para a aula hoje.Por que você sempre finge que não me ouve? POR QUE VOCÊ NÃO ME CHAMA DE PAI?

– Desde quando você se importa comigo? Desde quando você é pai? Estou sendo recíproco quando não ligo a mínima para você.

– Olha Oliver, eu sei que eu não sou o pai mais presente do mundo, mas não é bem assim. Eu te amo.

– PARA DE MENTIR! EU NÃO PRECISO DISSO, EU APRENDI A ME VIRAR PORQUE VOCÊ NUNCA CUIDOU DE MIM. EU NÃO PRECISO DE PESSOAS QUE MENTEM SOBRE O SÃO.

Eu não tinha certeza sobre quem eu estava falando:

– Oliver, tem tantas coisas que você não entenderia.

– Eu tenho 16 anos, eu sou muito mais adulto do que você pensa. Eu entendo, ENTENDO QUE EU SOU ORFÃO, QUE NÃO TENHO NEM MÃE NEM PAI.

Meu pai começou a chorar, não que eu me importasse muito, eu estava de saco cheio com a Sofia e com meu pai, eu esperei aquele dia por muitos anos, o dia em que eu diria tudo que tava na minha garganta há muito tempo:

– Eu… eu que-queria tanto-to te co-contar Oliver – Disse meu pai com lágrimas nos olhos e entre soluços.

– Então conta – eu estava chorando também, eu queria que eu tivesse algo que justificasse tudo que ela havia feito, ou melhor, deixado de fazer.

Ele se limitou a balança a cabeça e eu repliquei:

– COVARDE, OLHA PRA MIM, EXPLICA POR QUE VOCÊ ESTEVE SÓ DE CORPO PRESNTE TODOS ESSES ANOS. EXPLICA O PORQUÊ VOCÊ NUNCA SE LEMBROU DO MEU ANIVERSÁRIO. EXPLICA O PORQUÊ DE VOCÊ TER ME FEITO CHORAR NA SUA AUSENCIA, DE QUANDO EU PRECISAVA DE UM PAI E VOCÊ NÃO ESTAVA. EU TENHO A EXPLICAÇÃO: VOCÊ NÃO ME AMA. MUITO SIMPLES, NÃO É?

Ele continuou a balançar a cabeça e chorar mais do que nunca. Mesmo sabendo que ia doer em mim e nele eu continuei. Tinha que continuar:

– Olha nos meus olhos e diz que eu to errado, me diz que tem uma explicação e que eu vou entender com o tempo, me diz que eu estou sendo injusto e você esteve aqui esse tempo todo. Diz que me ama.

Eu estava praticamente implorando, no fundo eu queria acreditar que eu estava errado, mas ele só abriu a boca e fechou. Eu achei que nunca faria o que eu fiz em seguida. Eu fui embora, com a intenção de nunca mais voltar. Eu nunca pensei que faria isso porque no fundo eu acreditava que embora meu pai fosse o idiota que ele era, ele me amava. Mas o que eu aprendi naquela noite é que o amor é recíproco. E que se ele não me amava, eu não tinha a menor obrigação de amá-lo.

Estava frio na rua. Fiquei uns quinze minutos pensando se valia a pena quebrar a promessa de nunca mais voltar para casa só para pegar uma jaqueta. Mas eu voltei, e quando eu entrei meu pai olhou para mim com esperança como se dissesse “Você voltou? Vai mesmo ficar? Eu sabia, esse é meu filho”, mas eu não o encarei por muito tempo, nem demorei a pegar a jaqueta e sair. E de jeito nenhum olhei para ele na saída, não conseguiria.

As ruas estavam vazias, excerto por alguns grupos que usavam drogas, por mendigos e alguns carros. Ainda bem que eu não encontrei nenhum bandido. Sorte dele. Fui para o único lugar que me restava, mesmo cheio de lembranças ruins. O cinema Strabus, é claro.

Eu não fazia ideia de que minha noite ainda não havia acabado.

Assim que eu entrei no cinema, alguém me abraçou. Era Sofia.

Ficamos abraçados por um tempo. Não era preciso dizer nada. Não agora.

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