11 vidas

Capítulo 1 – Silêncio incômodo, palavras na garganta e morte.

Eu já nasci morto, minha mãe morreu no parto. Duplamente trágico. Mas eu podia ressuscitar, ela não, pois já era sua última vida.
Ela nunca se importou com a vida, já que tinha onze. Claro que ela não tinha medo de morrer, sempre tinha o beijo do meu pai para ressuscitá-la. Ele nunca fazia as loucuras da minha mãe, até hoje eu me pergunto se ela o amava mesmo ou ele estava ali para ressuscitar ela. Se meu pai a amava eu não sei, mas acho que sim, pelo menos ele a queria perto. Aliás, só se ressuscita alguém se a pessoa que for dar o beijo (sim, um beijo, não precisa ser necessariamente na boca) tiver um sincero desejo de trazer a pessoa de volta. Se a pessoa morrer e não for ressuscitada, bom… Isso eu nunca vi acontecer, afinal é ótimo se ter outra chance para viver. Pelo menos até perder a 11° vida, porque daí é para sempre. Vai ver que é por isso que eu nunca perdoei minha mãe por perder todas as chances que ela teve de ficar comigo. E eram onze. Outra coisa que eu também não me conformo é que meu pai diz que só ressuscitou minha mãe 5 vezes. Claro que eu sou curioso para saber o que ela fez com as outras, mas eu nunca tive nenhuma pista e meu pai é um paspalho, tanto que às vezes eu duvido realmente se ele só ressuscitou ela 5 vezes, mas no fundo eu acredito. Talvez porque eu queira achar qualquer razão para não culpar minha mãe e me sentir culpado por isso.

Meu pai não estava no parto (aliás, ele nunca estava em lugar nenhum, vai ver que é por isso que eu aprendi a me vira sozinho) e minha mãe estava morta, o jeito foi o médico me dar um beijo, não fico surpreso que tenha funcionado, afinal ele trabalha salvando vidas. Fiquei no berçário por 3 dias até meu pai lembrar que eu existo, penso que as vezes sou muito duro com ele, mas ele simplesmente é idiota, tem horas em que tenho vontade de sair de casa, porém, meu pai fica mais tempo fora do que em casa, então dá pra aguentar e pra ser sincero, eu não conseguiria deixar meu pai sozinho, no fundo eu amo muito ele.

Minha vida foi entediante até os 10 anos, idade de ir para a escola. E eu gostei, ou melhor, adorei a escola. Eu fugia do encosto que era meu pai e por incrível que pareça as pessoas gostavam de mim, pelo menos era o que eu achava, eu era interessante porque já havia morrido, queriam saber como era morrer, o que sentia, pra onde ia e essas coisas que eu não tinha a menor idéia porque não me lembrava. Então eu mentia para manter o interesse das pessoas e funcionava, mas com o tempo outras pessoas foram morrendo e eu deixei de ser o centro das atenções.

A verdade é que ninguém realmente sabe para onde ia, porque quando as pessoas voltavam não lembravam para onde tinham ido. Algumas teorias dizem que a gente não vai para lugar nenhum.

Culpo minha solidão por conta disso, eu nunca me preocupei em ser eu mesmo ou criar personalidade, eu me baseava no fato de já ter morrido, algo tão comum, que acontecia, só com cada pessoa, onze vezes. Mas eu não estou reclamando da solidão, aprendi a conviver com ela e cumprir rotina social, e eu odeio isso, não gosto mais da escola, lá eu perdi o que nunca havia conquistado, minha casa, que eu já odiava, odeio mais ainda se isso for possível, meu pai enfim queria ser pai, mas não sou que iria ajudá-lo a recuperar o tempo perdido. Não pense que minha vida era só casa-escola. Eu dava minhas escapadas é claro. Cinema Strabus. Atualmente abandonado, excerto por mim, que fiz daquele lugar uma lar.

O cinema Strabus, pertencia ao Sr. Strabus, que tinha uma criatividade incrível, diga-se de passagem. Antes de ser cinema, o local era uma escola, me parece que o Sr. Strabus tinha tanto talento para nomes criativos quanto para se dar bem nos negócios. Ele aproveitou a estrutura da escola para fazer o cinema. As salas do cinema ficaram planas. Não me surpreendo que tenha falido. Mas é um bom lugar, considero meu lar. Fiz melhorias, é claro. Estou tentando reativar a sala de projeção, mas não entendo nada de projeção, o que é uma pena, porque os rolos dos filmes continuam aqui e têm alguns muito bons.

Minha rotina era casa-escola-cinema-casa, quando eu chegava em casa, meu pai me perguntava onde eu estava, eu fazia questão de ignorar. Então aconteceu. Eu tinha 16 anos. Estava voltando da escola e fui direto para o cinema como sempre fazia. A diferença é que havia alguém lá.

A primeira coisa que eu vi foi o cabelo. Era vermelho-vivo. Parecia pegar fogo. Fiquei tanto tempo admirando o cabelo dela que foi difícil ver outra coisa. A segunda coisa que eu vi é que ela olhava para mim. O olhar dela parecia impenetrável. Aparentava vinte e poucos anos. Eu fiquei um pouco desnorteado, era uma situação meio surreal. Minha falta de alto controle me fez dizer a coisa mais estúpida que eu pude pensar:

– O que você está fazendo aqui?

– O que você tá fazendo aqui? Você é algum bandido por o acaso?

– Não

– Que bom, porque eu tenho spray de pimenta aqui.

Foi a primeira vez que eu ri espontaneamente em anos.

Ela continuou:

– Sério, o que você ta fazendo aqui?

– Eu venho aqui de vez em quando.

– Você sabia que aqui é um local privado?

– Desculpa, eu achei que tava abandonado

– Eu também, mas agora que vovô morreu e minha mãe não se importa com nada, eu acho que vou fazer algo neste lugar.

– Vovô? Vai dizer que você é neta do velho Strabus?

– Ah, você conhece o proprietário. Você é mais cara de pau do que eu pensei.

Ela enfatizou bem a parte do proprietário. Ela estava me esnobando, e eu adorando ela.

Essa história de que os opostos se atraem, só tem sentido porque a gente procura em outra pessoa o que a gente não tem. Complexo de perfeição.

– Então o Sr. Strabus morreu?

– Foi o que eu disse.

– Meus pêsames.

– Não tem importância.

– Nem parece que ele morreu…

– Por quê? Só porque eu não estou chorando? Foi morte súbita, tá legal?

Na escola a gente aprendia que só havia dois jeitos de morrer de uma vez mesmo tendo vidas: o corpo ser destruído ou se a pessoa não quiser voltar, independentemente de receber um beijo ou não. Geralmente, só prisioneiros que iam para a cadeira elétrica que decidiam não voltar, afinal, se eles voltassem iriam para a morte de novo. Claro que eles eram beijados, e o beijo funcionaria caso quisessem voltar, eles querem os bandidos de novo para matá-los de novo. Só é preciso um desejo sincero, pro bem ou pro mal, mas quem decide voltar é você.

Eu não queria acreditar que o Sr. Strabus tinha desistido de viver, e acabei piorando as coisas:

– Aconteceu algo com o corpo dele?

– Você é idiota ou o que? Ele escolheu morrer. Ele escolheu me deixar.

Ela estava a beira de lágrimas, como eu não sabia o que fazer, arrisquei:

– E se ele tivesse motivos para não voltar?

Ela continuou histérica, embora não admitisse, ela estava sofrendo com a morte do avô. E agora estava realmente chorando:

– Que motivos você acha que ele tinha? Um cinema falido? Isso foi há anos. Ele se foi porque ele é um egoísta e um fraco por ter preferido a morte a enfrentar o que quer que seja!

– Eu não acho que ele tenha sido fraco, ele sabia que você e a família iam sofrer, ele teve que escolher entre a felicidade dele e a de vocês, ele foi corajoso.

– Felicidade? Quem encontra felicidade na morte?

– Ás vezes, felicidade é só a ausência de tristeza.

– Eu… Eu nem sei porquê eu to falando essas coisas com você.

– Porque você veio aqui fazer a mesma coisa que eu: fugir.

Foi a primeira vez que eu a vi frágil. E descabelada. Decidi que era melhor começar do começo.

– Oi, eu sou o Oliver,…

Desculpe, eu nem me apresentei, ás vezes fico tanto tempo no meu mundinho que esqueço os bons modos.

-… eu venho aqui para fugir de uma vida medíocre, minha mãe está morta, não gosto do meu pai e falando assim eu percebo como minha vida é vazia. Sua vez.

Eu achei que ela não ia falar nada e quando eu piscasse, ela teria desaparecido. Mas ela disse:

– Meu nome é Sofia, sou neta de Carlos Strabus, mas isso não é quem eu sou, eu nem sei meu lugar no mundo, eu quero acreditar que realmente tem um motivo pro meu avô ter feito o que fez, mas tenho medo de acreditar numa mentira, tenho medo de fazer papel de boba e tenho medo de ter mais medos do que certezas.

– Uau, você é muito complexa.

– E agora você sabe mais de mim do que qualquer outra pessoa.

– Eu não sei quem são seus pais, onde você mora, o que você faz, tenho certeza que um monte de gente sabem essas coisas. Eu não sou quem mais te conheço.

– Essas coisas são fáceis de saber, mas o que eu disse eu nunca falei para ninguém.

– E por que você disse a mim? A gente acabou de se conhecer.

– Eu não sei. Acho que eu só precisava de alguém para me ouvir.

Depois disso baixou um silêncio muito incômodo. Eu não costumo quebrar o gelo, eu nem sei porque eu fiz isso:

– O que você vai fazer com o cinema?

– Acho que eu vou deixar do jeito que tá mesmo. Mas tá um pouco diferente do que eu lembro.

– É que eu mudei algumas coisas.

– Você realmente se aproveitou do lugar.

– E isso é ruim?

– Não. Até que ta legalzinho.

Outro silêncio arrasador ficou no ar. Parecia que havia algo concreto entrando pelos pulmões. Alguma coisa incomodava:

– Tem algo me incomodando – disse Sofia.

– Eu também sinto isso.

– A verdade é que eu não estou me sentindo confortável com essa situação. A gente é que a gente mal se conhece…

– Mas parece que a gente se conhece há anos.

– Estamos indo rápido demais.

Terceiro silêncio Eu estava em um cinema quebrado, com uma pessoa que eu nem conhecia direito e ela estava dizendo que a gente tava indo rápido demais. Fiquei indignado:

– Sofia, nem nos conhecemos direito…

– Esse é o problema. Olha, vamos fazer assim, a gente se encontra aqui todo dia e sem conhece sem pressa, eu não me sinto bem com essa situação. Você já me fez rir e chorar em pouco tempo. E isso não é um elogio.

Fiquei feliz por ela pelo menos não ter saído sem dizer uma palavra.

– Trato feito.

Ela se levantou e foi embora. Eu me sentia num turbilhão. Eu estava feliz por ter conseguido manter uma conversa. Estava triste por tudo ter acontecido tão rápido sem eu me dar conta. Estava duvidando se eu a veria de novo, ou se tudo era um sonho. Foi quando me distrai das minhas confusões por um instante, eu havia entendido.

Aquele concreto nos pulmões, o silêncio incômodo, as palavras na garganta e aquela conversa sobre ir rápido demais. Tudo isso tem o nome de AMOR.

Anúncios

Um comentário sobre “11 vidas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s