11 vidas

Capítulo 3 – Verdades, inimigo e reconciliação

Quando ela me soltou, eu percebi que ela estava chorando.

A maquiagem borrada dela manchou minha blusa, mas eu não estava nem ligando.Dormimos no chão frio de um corredor, tendo apenas o calor dos nossos corpos e um cobertor velho para nos aquecermos.Quando acordei, ela ainda estava dormindo. Fiquei imaginando o que ela estava fazendo aqui se a gente tinha brigado. Fiquei pensando como seria quando ela acordasse. Seria no mínimo embaraçoso.

“Pra deixar bem claro não aconteceu nada, mas seria estranho acordamos um do lado do outro”

Enquanto eu pensava, ela acordou. Sentou e arrumou os cabelos num coque, deu um risinho pra mim:

– O que você tava fazendo aqui ontem à noite? – perguntei eu.

– Briguei com a minha mãe.

– Que coincidência. Por que vocês brigaram?

– Nada demais.

– “Nada demais” fez você sair de casa?

– Não sai de casa, só sai.

– Atá.

Não sabia se acreditava naquela história, mas isso não importava agora:

– Sofia, sobre que eu disse da última vez…

– Não precisa se desculpar, eu fui mesquinha, egoísta e quem tem que se desculpar sou eu.

Ela falou firme, foi direta e não olhou nos meus olhos. Parecia ter ensaiado aquilo.

Não esperava que ela dissesse isso. Ficamos em silêncio até que ela desabafou:

– Oliver, vou ser bem sincera com você. Mesmo meu avô tendo perdido quase tudo, minha mãe faz questão de me dar uma vida confortável. Admito que ás vezes eu sou mimada, eu gosto das coisas do meu jeito, a questão é que na verdade eu não sou forte, eu sou mandona assim porque esse é o jeito que eu criei para me proteger. É só uma armadura Oliver, na verdade eu nem sou assim.

– Você não precisa de armaduras comigo.

– Eu sei é só que…

– O quê?

– Eu queria tanto poder te contar.

Era a segunda vez que eu ouvia aquilo em menos de 24 horas. Sentei mais perto dela e disse:

– Então conta.

Ela não disse nada. Meu rosto estava mais perto do dela. Fechei os olhos. O beijo dela tinha um gosto meio salgado, acho que por causa das lágrimas. Mas tudo durou apenas um segundo, no  seguinte ela se afastou:

– Sinto muito. Não poderei vim amanhã.

Não sei quanto tempo fiquei no cinema até decidir voltar para casa, se eu havia me enganado com a Sofia, podia ter me enganado com meu pai também.

Meus pés me guiaram inconscientemente até em casa. Meu pensamento estava muito longe. Estava num tal cabelo vermelho.

Quando eu cheguei em casa, incrivelmente meu pai estava. Eu o vi deitado no sofá assistindo um programa qualquer. Ele não se mexeu quando eu abri a porta. Fechei a porta fazendo barulho, queria chamar a atenção dele sem ter que dizer “ei pai, voltei”. Ele olhou por cima do sofá. Levantou e abriu os braços. Fui correndo até ele e dei um abraço que disse tudo que eu queria dizer.

Acordei no sofá. A televisão continuava ligada. Olhei em volta à procura do meu pai, não o vi, mas a preguiça me impediu de ir a procura dele, e nem foi preciso, porque dois minutos depois ele veio da cozinha, colocou um café-da-manhã na mesinha de centro e sentou do meu lado. Ele nunca havia me deixado comer no sofá.

Ele ficou apenas olhando enquanto eu devorava o café, não tinha percebido que estava faminto. Quando acabei ele levou tudo para a cozinha. Nunca tinha visto ele tão gentil. Ele voltou da cozinha e sentou do meu lado de novo. Acho que ele estava esperando eu começar:

– Desculpa.

– Quem tem que pedir desculpas sou eu…

Nossa, vou me achar certo demais desse jeito:

– Eu sei que eu não fui um pai presente todos esses anos, eu sei que você merecia muito mais.

– Eu só queria entender o porquê.

– Ótimo, você quer tanto saber, eu conto. Foi por uma razão muito egoísta e se nunca mais quiser olhar na minha cara eu vou entender.

– Acho que eu tô pronto.

– Ok.

Ele respirou bem fundo antes de falar, acho que ele esperou por esse momento a vida toda, e eu também:

– Eu não sou seu pai.

Continuei calado, a ficha não caiu:

– Quando sua mãe tava com nove meses, ela me contou que o filho que estava esperando não era meu. Eu fui embora de casa, quando eu me arrependi e resolvi voltar sua mãe estava morta e você estava quase indo para a adoção. Acho que quando conheci sua mãe ela já estava grávida. Mas eu nunca me senti bem em ter que criar o filho que não era meu, toda vez que eu olhava pra você eu lembrava a traição da Ana Carla, toda vez que eu te olhava eu tinha ódio porque você é um pedaço vivo do que a Ana Carla fez, eu sei que você não tem culpa, é só que você é a parte mais doída da minha vida.

Que me pai não me amava eu sabia, mas odiar é novidade. É muito pra mim:

– Eu preciso de um tempo pra absorver tudo isso. Vou dar uma volta por aí.

Saí de casa deixando meus pés me levarem para onde eles quiserem. O dia estava ensolarado e havia muitas pessoas na rua curtindo o sol.

Eu esperava tudo sobre o meu pai, menos a verdade. Eu finalmente sabia que meu Eric Amorim não é meu pai biológico, mas continuava insatisfeito porque eu esperei tanto tempo pela verdade sem saber que o que eu esperava não era a verdade, eu esperava uma justificativa justa, eu esperava um pai, eu esperava algo apenas imaginável. Felicidade.

Eu estava quase no fundo do poço da mediocridade quando vi algo que me animou. Sofia.

Ela estava num banco, com uma calça de couro justa, um batom vermelho que combinava perfeitamente com o cabelo solto e uma blusa listrada azul com branco.

Mas havia algo que não combinava com a cena. Tinha um cara do lado dela. Ele fumava, estava com uma jaqueta de couro em pleno calor e tinha olhos verdes que combinavam com a pele meio morena. Devo admitir que ele era bonito. Mas e daí? Também tenho olhos verdes, por isso que minha mãe me deu o nome de Oliver (segundo meu pai).

Não resistir de ir até eles, Sofia me viu quando eu estava a uns 3 metros deles e ela não estava com uma cara que dissesse “Que bom eu te ver, Oliver!!”:

– Oi, Sofia.

Agora que o panaca do lado dela percebeu minha presença. Ele se levantou. É menor do que eu, achei isso o máximo. Soltou a fumaça do cigarro na minha cara. Eu tossi. Droga, não conseguia agüentar nem fumaça de cigarro. Ele riu, estendeu a mão e disse:

– Oi, meu nome é Vinícius Dario, eu sou o namorado da Sofia.

Não olhei para a Sofia, jurei nunca mais olhar. Dei meu sorriso mais falso e apertei a mão do meu inimigo:

– Meu nome é Oliver Aldaya Amorim, sou um conhecido da Sofia.

– Então Oliver, quer sentar com a gente?

– Claro.

Conversamos a tarde inteira, Sofia não falou nada o tempo todo. Embora eu não quisesse admitir, o Vinícius é um cara legal, o único problema dele é que ele namora a Sofia.

O tempo passou rápido. Durante um tempo eu esqueci o que havia acontecido em casa. O dia virou noite, mas acho que ocorreu o contrário em mim:

– Foi bom conhecer você, Oliver – disse Vinícius.

– Foi bom conhecer você também, Vinícius.

– Vamos, Sofia.

– Pode ir Vinícius, eu tenho que conversar com o Oliver.

– E eu preciso ir pra você falar com ele?

– É particular.

Vinícius não parecia totalmente convencido, mas deu um tímido “tchau” e foi embora. Fiquei com um pouco de pena dele. Esperei até ele desaparecer de vista e levantei:

– Aonde você vai? – disse Sofia.

– Não te interessa!

– Claro que me interessa!

– Sério? Porque você não se mostrou interessada em me contar que tem um namorado.

– Eu posso explicar…

Fui embora. Não queria ouvir nada que ela tinha pra dizer.

Cheguei em casa puto. Muito puto. Meu pai nem perguntou o que tinha acontecido, foi melhor assim, por mais que eu quisesse não conseguiria explicar o que tinha acontecido. A campainha tocou. Meu pai foi atender. E voltou acompanhado de mais uma pessoa. Sofia.

– Que você ta fazendo aqui?

Por que todas as minhas conversas com a Sofia começavam assim? Tenho que perguntar menos e responder mais:

– Você não me deixou falar. Então eu te segui até aqui.

– Pena que seu esforço foi inútil. Eu não quero te ouvir.

Meu pai ainda estava na sala. E com uma cara muito confusa:

– Vocês querem que eu dê licença?

– Seria ótimo – disse Sofia.

– Pois eu quero que você fique – na verdade eu não queria, só disse isso para contrariar Sofia.

– Ok então, senta pra gente conversar – exclamou Sofia.

– Ninguém me manda sentar na minha própria casa.

– Faz o que você quiser então. Eu vou sentar, vou falar e você vai me ouvi.

Respirei fundo e me rendi. Sentei e esperei que dessa vez ela dissesse a verdade, e parece que ela leu minha mente:

– Eu vou te falar a verdade. Você mexeu comigo no primeiro dia que nos conhecemos, eu sabia que você ia acabar se apaixonando por mim e eu já namorava com o Vinicius, eu sabia que você ia acabar se machucando. Por isso eu fui tão grosseira e estúpida com você, eu queria que você cansasse de mim, que me odiasse. Mas quando eu briguei com a minha mãe e te vi no cinema naquele dia, eu me deixei levar, tava muito abalada e cansada de ficar brincando de gato e rato com você. Quando você me beijou meu mundo veio ao chão, porque eu sabia que cedo ou tarde você ia saber do Vinícius e ia se machucar.

Um minuto de silêncio. Eu estava absorvendo tudo o que eu tinha ouvido:

– Eu te perdôo – O que passou na minha cabeça foi que a Sofia não tinha sido egoísta e ela estava se sentindo mal por ter feito o que ela fez. Perdoar não significa que as coisas voltarão a ser como antes:

– Não me desculpa ainda. Tem mais uma coisa.

Agora eu fiquei com medo, estava disposto a perdoar e não guardar rancor dentro de mim. Mas se fosse algo muito ruim…

– Eu estou grávida do Vinícius.

Ela não falou chorando. Lágrimas não têm nada a ver com a verdade. Têm a ver com verdades que não queremos aceitar.

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