11 vidas

Capítulo 5 – O Albúm

Estou há cinco dias no hospital, tempo suficiente para pensar sobre tudo que tinha acontecido nos últimos tempos comigo. Sofia apareceu na minha vida de um modo inesperado e até poético. Nunca acreditei em amor à primeira vista até conhece – lá, mas aprendi que amor vem com convivência. Eu não fiquei tão apaixonado quando ela disse que está grávida do Vinícius, o mesmo que me matou atropelado. Eric não é meu pai biológico e sentado nessa cama de hospital eu percebo com isso é tão pouco importante, claro que eu tenho vontade de conhecer meu pai de sangue, mas tenho mais vontade ainda que Eric consiga ser um pai.As paredes do quarto do hospital são brancas, tudo aqui é branco pra que o paciente fique calmo. Mas eu acho que nem se as paredes fossem vermelhas eu estaria tão inquieto como agora. O médico, que a propósito é pai do Vinícius, disse que provavelmente vou receber alta, é a primeira vez que estou tão ansioso pra chegar em casa. Tão ansioso para a redenção.

Fito Vinícius dormindo no sofá ao lado da minha cama. O médico disse que eu precisava de um acompanhante e Vinícius aceitou. Ele está se sentindo culpado por ter me matado. Na maior parte do tempo ele fica dormindo, mas quando acorda tenta ser o mais gentil possível. Eu queria não gostar dele, afinal ele é o pai do filho da Sofia e eu gosto dela, mas não é tão fácil assim, ele não culpa se eu gosto da Sofia.

A questão é que eu nunca sou o protagonista da minha própria história. Tenho que me acostumar que eu giro em torno das pessoas e não o contrário.

Toda a brancura do quarto se transforma num imenso mundo de pensamento e reflexão da minha vida. Os pensamentos fluem de forma aleatória e desordenada:

– Bom dia.

Vinícius acordou, deu bom-dia e me tirou dos meus pensamentos:

– Bom dia? Já são quatro horas da tarde!

– Sério? Bom, de qualquer modo estou com fome, você se incomoda se eu sair pra tomar comer alguma coisa, aproveito e procuro meu pai pra perguntar se você recebe alta hoje.

– Claro, pode ir.

Quando a gente está entediado e ansioso o tempo se arrasta. Pode ter demorado uma hora, ou duas, mas quando Vinícius voltou parecia ter se passado uma eternidade. A boa notícia é que ele estava acompanhado do pai dele:

– Então doutor, eu vou receber alta?

– Não me chame de doutor. Me faz sentir velho. Pode me chamar de Pedro.

– Tudo bem.

– Bom, você vai ter que ficar com o braço engessado e muito repouso, afinal você quebrou uma costela.

– Foi melhor do que eu pensei.

– Eu tive que fazer alguns pontos internos na região da barriga porque você teve uma hemorragia interna. Então talvez você sinta dor ao fazer um movimento brusco.

– Nossa.

– Por que a surpresa? Você morreu.

– Eu sei, só não caiu a ficha ainda.

– Pois devia se acostumar, a morte faz parte da vida.

– Ok, pai. A gente já entendeu. Já são cinco da tarde, a gente tá indo.

– Claro, só vou preencher o relatório de alta.

Fiquei feliz que Vinícius cortou o pai dele. Não sei, não simpatizei com o tal Pedro Dario.

Ainda demorou uns cinco minutos para que saíssemos do hospital. Não estava me sentindo muito bem com aquele gesso. Estava coçando. Comecei a coçar o gesso desesperadamente, como se fosse adiantar alguma coisa. Pra piorar, Vinícius estava morrendo de rir:

– Tá coçando?

– Imagina.

– Sério, quer algo pra coçar?

– Sim.

Ele soltou uma mão do volante e abriu o porta-luvas:

– Toma.

Ele me entregou um palito fino de madeira.

– Que isso?

– A Sofia usa pra prender o cabelo. Não faço a mínima ideia de como de chama – disse rindo.

Sofia. Meu estômago embrulhou. Só de pensar nela naquele carro… E se ela tivesse engravidado ali? De repente me deu um nojo do lindo carro do Vinícius:

– Chegamos.

Fitei o muro e o portão. Eram cinza. Sempre quis que o muro fosse amarelo e o portão azul, mas meu pai dizia que aquilo era besteira. O portão era todo fechado, nem sempre foi assim. Até os meus oito anos, ele era aberto. Eu ficava olhando as outras crianças brincando pelo portão e ficava pedindo pro meu pai me deixar ir brinca com as outras crianças, mas ele me dizia que eu não precisava de ninguém pra brincar, que eu não precisava de ninguém pra nada. Aí ele colocou um portão fechado:

– Oliver, você ta aí?

– Ah, estava só imaginando, Vinícius.

– Então para de imaginar e vamos entrar.

Passamos pelo portão. As luzes estavam apagadas. Olhei para o Vinícius interrogativamente e ele deu os ombros.

Abri a porta com dificuldade. Já que eu quebrei o braço direito e sou destro, tive que abrir com o esquerdo.

Quando finalmente abri a porta (Vinícius ficou rindo durante toda minha tentativa) as luzes acenderam e:

– SURPRESA!

Meu pai veio apressadamente e apertou minha mão dizendo:

– Feliz aniversário!!!

Oh, meu Deus. Como eu pude esquecer do meu próprio aniversário???

Olhei em volta, Sofia estava lá com um homem e uma mulher que presumir serem seus pais. Ela veio até mim e me abraçou:

– Que bom que você está bem, eu fiquei preocupada. Mas enfim, vem cá que eu quero te mostrar os meus pais.

Ela me puxou pelo braço engessado. Primeiro ela me diz que tá grávida e agora agi como se nada tivesse acontecido. Aff!!

– Pai, esse é o Oliver.

Apertei a mão do tal pai da Sofia, ele era meio baixo, usava óculos, cabelos grisalhos e de sorriso fácil. Parecia ser simpático.

– Prazer.

– E essa é minha mãe, Amanda. Mãe, esse é o Oliver.

Se o pai da Sofia parecia ser legal, a mãe era completamente o contrário.

Alta, nariz fino e arrebitado, cabelo vermelho que nem o da Sofia e estava com uma expressão visivelmente esnobe.

Estendi minha mão:

– Prazer.

Ela não apertou minha mão, disse apenas um seco “oi”.

Vinícius apareceu entre os pais de Sofia:

– Oi, festa animada, hein?

– Super –respondi – isso na sua mão é cerveja?

– É – ele olhou displicentemente para a lata em sua mão.

– Você já bebe? Tu tem quantos anos?

– 21.

– Sério? Nossa, você parece mais novo.

– E a Sofia tem 19 – disse a mãe da própria.

– É mesmo? Parece mais velha – deixei toda a ironia fluir. Se eu entendi direito, isso foi uma indireta.

– E você tem quantos anos, Oliver? – exclamou Miguel.

– Hoje faço 17.

– Interessante – Amanda foi tão cínica que eu tive que me controlar.

Olhei pra trás e meu pai me chamou, pedi licença e fui ver o que ele queria:

– Feliz aniversário, eu já disse isso né? – ele me entregou um pacote.

– O que é isso?

– Abre.

Rasquei o papel de presente, parecia um livro. Virei para a capa, estava escrito “Eric, Ana Carla e Oliver”:

– É um álbum de família?

– É. Acho que você tá pronto.

Apertei o álbum:

– Não sei.

– Tenta.

Eu nunca quis olhar uma foto da minha mãe, mesmo sabendo que meu pai tinha fotos. Ele pedia pra mim olhar, mas eu respondia que preferia guardar a imagem dela como ela aparecia nos meus sonhos. Meu pai perguntava o porquê e eu dizia que ela era tão perfeita nos meus sonhos que eu não queria me decepcionar.

– Eu agradeço muito, mas agora não.

– Oliver…

– Não.

– Bom, pode adiar isso o quanto quiser, mas um dia você vai ter que ver.

Ele se afastou, acho que ficou meio decepcionado. Fiquei com um pouco de pena. Fui em direção ao meu quarto. Já estava na escada quando ouvi vozes alteradas vindo da cozinha.

Fui lentamente em direção do barulho. O hall parecia infinito. A porta da cozinha era a segunda à direita. A porta estava entreaberta. Antes de entrar, ouvi a voz estridente da Sra. Amanda:

– Por que? Por que você faz isso comigo, Sofia? Eu te criei com tanto carinho e agora você faz isso comigo!!

– Mãe, eu não vou casar com o Vinícius, não adianta essa chantagem emocional.

Pela abertura da porta vi o dedo da Amanda apontando pra cara da Sofia:

– Você sabe que as finanças do seu pai não estão bem. Essa é a nossa chance!! Você vai casar com o Vinícius, nem que seja no civil, e comunhão de bens!!!

Olhei em direção à sala, Vinicius estava sentado no sofá conversando com o meu pai:

– Sofia, você me faz vir aqui para o aniversário desse seu amigo imbecil, e ainda deixa o Vinícius lá, solto. Tu te cuida, que o homem escapa.

O “escapa” dela foi ríspido, mas Sofia foi pior ainda:

– Cala a boca.

Ela foi calma e displicente, mas rebelde.

Amanda ficou vermelha e deu um tapa na cara da Sofia:

– Nunca mais fale assim comigo, tá entendendo?

Ela saiu da cozinha e me fuzilou com os olhos. Achei que ia fiar por isso mesmo, mas ela disse:

– Fica bem longe da minha filha, ela já tem dono.

– Ela não é um cachorro pra ter dono.

Não sei da onde que eu tirei tanta coragem. Ela me metia medo:

– O recado já está dado.

Ela saiu acompanhada do marido, não sem antes ser toda dócil com meu pai:

– Tchau, Sr. Eric, seu filho é uma graça, viu?

O sangue me subiu a cabeça, só não fui até lá porque alguém falou atrás de mim:

– Eu odeio ela.

Era Sofia.

– Odeio muito.

– Eu não sabia que as coisas eram assim.

– São piores. Ela é psicóloga. Atende os clientes num cômodo da casa. Me dá nojo os conselhos que ela dá pra eles. Como se ela fizesse algo do que ela diz.

– Sinto muito.

– Sinto também por seu aniversário ter sido uma droga.

– É, foi mesmo.

Ela riu:

– Como você vai embora pra casa? Sua mãe já saiu.

– Eu vou com o Vinícius.

– Ah.

Que chato isso. Ás vezes eu esquecia que ela tinha namorado:

– Bom, ele bebeu.

– Eu sei. Eu que vou dirigir.

– Então tá. Até outro dia então.

– Que tal amanhã no cinema Strabus? Eu não esqueci sua promessa de me ajudar com a morte do meu avô!

– Claro.

– Tchau.

– Tchau.

Ela e o Vinícius foram. Fui direto pro quarto, o dia foi longo.

Revirei na cama a noite inteira. Não consegui dormi. O álbum estava no criado mudo e as memórias frescas na minha cabeça.

Amanhã eu ia rever a Sofia. Isso me animou um pouco.

Finalmente dormi. Sonhei que a minha mãe, aquela que aparecia nos meus sonhos se transformava na mãe da Sofia e dizia que eu era um fraco por não querer ver as fotos da minha mãe.

Acordei assustado. Virei de lado.

E “Eric, Ana Carla e Oliver” estava ali do meu lado. Me encarando.


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2 comentários sobre “11 vidas

  1. poxa Thiago,esse capítulo é demais
    achei muito legal a parte do álbum de fotografia…..me fez lembrar de uma coisa.
    gostei muito da parte de ele querer preservar a imagem de perfeição da mãe que tinha na cabeça dele…
    queria ter uma imagem,alguma coisa que me pudesse fazer pelo menos ter uma idéia do rostinho daquela pessoa (vc sabe quem),por mais que eu tente,não consigo,é simplesmente impossível saber como ele era…
    queria que fosse fácil assim
    é estranho que os bons sempre vão embora…e fica esse nada,resta esse vazio pra gente se contentar.
    Sempre que penso no assunto e fico meio pra baixo leio partes que me encorajam a seguir em frente.
    Esses nomes que vc colocou p/ alguns dos personagens estão aprovadíssimos por mim
    obrigada por me deixar opinar
    obrigada por tudo,tudo mesmo
    continue esse excelente escritor
    parabéns…

  2. Poxa, você só me fez ficar MAIS curiosa ainda com esse capítulo, haha! Só não entendi direito a parte do ‘Quantos anos tu tem?’, mas ignore esse comentário, ri. Agora estou mais curiosa ainda esperando o capítulo seis, e que você não vai postar hoje, ah ): Gostei bastante, really (:

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