11 vidas

Capítulo 4 – Luz no fim do túnel

Meu pai estava visivelmente constrangido. Sofia mordia o lábio e eu estava preso num turbilhão emocional. Eu sempre quis ter uma vida interessante, mas estava começando a redefinir o que significava “interessante”.

Como eu continuei calado, Sofia continuou:

– Foi por isso que eu briguei com a minha mãe.

– Ela quer tirar o bebê? – me envergonho até hoje pelo tom esperançoso que saiu da minha boca.

– Não, na verdade ela ficou bem feliz.

– Por quê?

– Como eu já te expliquei, minha família não tem tanto dinheiro como antes…

– Entendi, o Vinícius tem dinheiro e você tá com ele por isso.

Minha voz soou cansada, dinheiro era algo que eu não tinha.

– Mais ou menos.

Olhei torto para ela, como assim “mais ou menos”?

– Eu briguei com a minha mãe porque ela quer que use o bebê pra casar com o Vinícius

– E você quer casar com ele?

Ela mordeu o lábio de novo:

– Oliver, eu gosto de você, mas eu já namoro com o Vinicius há muito tempo e eu gosto dele. Você chegou do nada e bagunçou minha vida toda.

–Será que não se pode gostar de duas pessoas ao mesmo tempo? – quem disse essa estupidez foi meu pai. Quem ele pensa que é para se meter desse jeito.

– Quer saber? Eu tô cansado. De vocês dois. Sofia, você não é a única se machucando nessa história, então para de fazer a inocente, porque de inocente você não tem nada. E Eric, quem você pensa que é pra se meter na minha vida desse jeito? Nem meu pai você não é.

Me levantei, os dois também. Eu dei as costas em direção à porta quando Sofia disse:

– Oliver, pai é quem cria.

– Pois é, o problema é que nem isso fez.

Sai de casa. Enquanto eu andava, meus pensamentos voavam.

Primeiro, eu estava cansado de sair de casa, nunca fui de ser rebelde, mas ultimamente toda vez que eu paro em casa acontece merda.

Segundo, eu estava de saco cheio da Sofia, por quê as coisas não podiam ser simplesmente mais simples? E ainda por cima tá grávida, e o pior é que eu gosto dela.

Mas um barulho tirou minha atenção. Uma buzina. Uma freada. A última coisa que eu vi foram os faróis.

Oliver abriu os olhos. Estava muito claro e difícil de enxergar alguma coisa. Ele manteve os olhos fechados até se acostumar com a claridade. Quando pode enxergar, percebeu que estava deitado, mas nem estava a fim de levantar, tudo estava muito confuso. Como ele havia ido parar ali? Onde ele estava? Essas perguntas bombardeavam sua cabeça. Era difícil se lembrar de algo. Oliver ficou forçando sua cabeça até lembrar-se de alguma coisa. Ele lembrou muito vagamente que havia saído de casa, mas não lembrava o motivo. Lembrou te ter visto a luz um pouco antes. ’Será que essa é a luz que a gente vê quando morre?’ pensou ele. ‘Não, tinha um barulho de freada e uma buzina, era definitivamente um carro’. Ele lembrava do atropelamento, mas não lembrava exatamente do que havia ele feito sair de casa daquele jeito. Com muito esforço ele se recordou que Sofia estava na sala da casa dele e ela disse alguma coisa que fez seu estômago embrulhar. E tão de repente como o carro que o matou, ele se lembrou de três palavras ‘Eu estou grávida’. Ele deu um salto e ficou sentado. Agora ele conseguia se recordar o que havia acontecido. Ao olhar em volta, percebeu que não havia nada. Seu corpo todo doía, foi aí que ele reparou que não estava de calça, nem de camiseta. Estava nu. Mesmo não tendo ninguém em volta ele ficou envergonhado. Ele levantou, desejava que houvesse alguma roupa. Fechou os olhos pensando na roupa que queria está vestido. Quando abriu, nada havia mudado. ‘Malditos filmes, claro que isso não funciona, Oliver você é muito estúpido’, quando reparou já estava falando sozinho. Era tedioso, Oliver ficou andando mesmo sem ter um chão visível, tudo era branco, sem começo nem fim. ‘Esférico” pensou ele. Com o passar do tempo ele começou a ficar preocupado. Por que ele ainda não havia sido ressuscitado? E se ninguém o achasse? E se o corpo dele tivesse sofrido um dano muito grande que o impedisse de voltar? Tudo que ele mais queria nesse momento era sua mãe. Dessa vez não foi preciso fechar os olhos, ela estava bem do lado dele. Embora nunca tivesse visto a mãe e nem mesmo fotos dela, ele a reconheceu. Seu cabelo era preto, ela tinha os mesmos olhos verdes de Oliver e sorria.

Ela o abraçou:

– Você cresceu tanto!

– Eu não lembro nada da minha lista do que diria se te encontrasse.

– Que tal ‘oi mãe, quanto tempo’?

– Acho que seria melhor um ‘Como você veio parar aqui?’

– Funciona mais ou menos como ressuscitar alguém, você me queria aqui, eu vim.

– Como?

– Não sei, simplesmente vim.

– Tá, e que lugar é esse?

– Eu não sei.

– Eu tô morto?

– Sim.

– Vou voltar?

– Provavelmente.

– Por que você responde só com uma palavra?

Ana Carla riu:

– Eu esperei por esse momento por tanto tempo, na minha cabeça era diferente.

Oliver fez uma cara de ‘desculpa se não foi como você pensava’. Talvez por isso, Ana Carla completou:

– Mas é claro que você ia perguntar essas coisas, você tá curioso.

– Como você imaginou?

Tanto Ana Carla quanto Oliver estavam meio desconfortáveis, mesmo sendo mãe e filho, eles não conviveram e é meio difícil se amar assim:

– Eu quero saber da sua vida. Como está a sua vida, as pessoas que você conhece, como está seu pai.

– Ele não é meu pai.

Ana Carla foi claramente pega de surpresa:

– Oliver, eu quero que você entenda que pai é quem cria.

– Você não tem ideia do que eu passei, ele não me criou. Aposto que até um cachorro se daria melhor com ele.

– Eu conheço o Eric, ele te ama, só não sabe demonstrar.

– Você não sabe do que tá falando.

Ana Carla tossiu, estava tentando fugir do assunto:

– Quem é meu pai?

– Eu não quero falar sobre isso.

– EU TENHO DIREITO DE SABER.

– Você não tem o direito de gritar comigo, eu sou sua mãe!

Oliver parou, ele não queria brigar com a mãe, não agora que a encontrou de novo:

– Por que tá demorando tanto?

– Demorando o que?

– A voltar.

– Você já quer ir embora?

– Não é isso, é só que eu tô aqui há muito tempo.

– O tempo passa diferente aqui.

– Como você sabe essas coisas?

– Alguém me disse. Mas eu quero saber como você está. E as garotas?

‘Assunto delicado’ pensou Oliver. Pensou também em mentir, mas percebeu que precisava falar sobre Sofia com alguém.

Ele já estava na parte do fatídico acidente quando sentiu alguma coisa. Alguma coisa que puxava para todos os lados:

– Mãe, o que está acontecendo?

– Você precisa voltar.

– Mas logo agora…

– Rápido.

– Uma última coisa. Eu vou lembrar-me disso?

Oliver foi puxado para todos os lados ao mesmo tempo, não chegou a ouvir a resposta, mas nem precisava. Ele já sabia, todos sabem.”

Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o nascer do sol. A segunda coisa que eu vi foi que estava no banco da frente dum carro. E a terceira é que Vinícius estava dirigindo. Quando tentei falar com ele, meu corpo doeu e acabei soltando uma exclamação de dor:

– Graças a Deus você voltou!!! – disse Vinícius.

– O que aconteceu?

– Er… eu te atropelei.

– Ótimo – eu praticamente bufei.

– Desculpa

Fiz cara feia pra ele:

– Não que isso adiante muito, eu sei. Mas você praticamente se jogou na frente do carro. O que aconteceu pra você fazer isso?

– Eu não vi o carro.

Foi aí que eu notei que ele estava sem camisa:

– Por que você ta sem camisa?

Ele apontou pra minha perna:

– Isso é sua camisa? – disse eu apontando prum pedaço de pano com aspecto desagradável enrolando na minha perna. Havia sangue:

Era minha camisa. Sua perna estava sangrando muito então eu estanquei o sangue, mas isso é provisório. Tô te levando pro hospital.

– Como você sabe fazer essas coisas?

– Meu pai é médico.

Eu estava numa posição muito desconfortável, quase que um pretzel. Quando tentei mexer meu braço pra melhorar de posição, a dor foi terrível:

– Acho que você quebrou o braço – disse Vinícius.

– E você só avisa agora?

– Não dá pra ter muita certeza, por isso a gente ta indo ao hospital.

Quando finalmente chegamos, fomos atendidos pelo pai do Vinícius, ou o conhecido Dr. Dario, médico importante e de renome de quem eu nunca tinha ouvido falar.

O resultado do atropelamento foi uma costela e um braço quebrados, além de algumas noites no hospital. Não sei se tomei algum remédio, mas dormir muito. Não fazia ideia do sono que eu estava. Quando acordei, meu pai, Sofia e Vinícius estavam ao redor da cama.

Irresistivelmente eu sorri, eles se importavam comigo. Acho que foi a partir daquele dia que comecei a chama-lhos de família, mesmo com atropelamentos, bebês e pai postiços.

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Um comentário sobre “11 vidas

  1. Então, se for para avaliar, de todos, achei este capítulo o mais emocionante de todos, por vários motivos, de ele encontrar a mãe, etcetc. Eu pensava que esse fosse o final, um final feliz para Oliver, enfim, mas parece que o Thiago gosta de judiar do coitadinho e n. Bom, você está de parabéns, gosto mtmt do seu jeito de escrever, simplismente fica fácil de imaginar toda a história na minha cabeça; E que você termine o capítulo cinco hoje e poste hoje, porque eu oteion ficar curiosa 8D

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