11 vidas

Capítulo 6 – Encontro marcado

Me levantei cedo no dia seguinte. O sol batia forte na janela. Irresistivelmente comecei a cantar “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”. Parei na parte em que diz “Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”, realmente faz sentido.Despi lentamente o pijama. Meio que tinha vergonha dele, era amarelo com robôs infantis. Nem cabia direito em mim. Não sei porque meu pai nunca me deu outro. Tava na hora de tomar vergonha na cara e arrumar um emprego para ter minhas próprias coisas.

Parei ao passar em frente ao espelho de corpo inteiro. Estava com dezessete anos e só de cueca em frente ao espelho. Não sou de olhar muito para mim mesmo. É que ás vezes eu não me reconheço. Ás vezes eu não me conheço. Pra mim a pergunta “Quem é você?” nem tem resposta. É só um questionamento que podemos passar a vida toda e nunca responder.

O relógio no criado-mudo marcou oito horas. Melhor me arrumar.

Quando acabei, desci alegremente as escadas. Meu pai estava tomando café na mesa, resolvi me juntar a ele:

– Olha só quem tá animadinho hoje. E aí? Como está se sentindo com 17 anos?

– Normal. Era pra sentir alguma coisa?

– Quando eu fiz 17 anos, senti como se fosse o dono do mundo. Me achava invulnerável. Que bom que você não sentiu nada disso.

– Por quê?

– Eu criei muitas expectativas quando fiz 17 anos. Ir pra faculdade, casar, ter filhos…

Eu mordeu o pão sorrindo, sabe esse sorriso que se dá quando se lembra de uma decepção? Meio que rir pra não chorar. Pois é, e pra tirar esse sorriso do rosto completei:

– Mas você não fez faculdade?

– Fiz, mas não a que eu queria.

– Por quê?

Outro risinho sem graça:

– As pessoas não controlam seus destinos.

– Eu não acredito em destino.

– Já sei. Você vai disser que é fazer quem faz o seu destino e que acreditar que as coisas são premeditas é idiotice.

– Isso mesmo.

– Esse pensamento é egoísta. Como se sua vida dependesse apenas da sua vontade.

Ele me olhou com aquele olhar cansado que eu bem conheço. Acabeidando uma risadinha:

– Eu sei que não as coisas não dependem da minha vontade. Mas não acredito que a vida seja premeditada.

– Sei lá, existem tantas coincidências.

– Exatamente, coincidências.

Ele riu. Dessa vez não era um riso de decepção. É de alegria. Mesmo a gente discordando, conseguimos manter uma conversa.

O meu relógio de pulso marcava nove horas.

– Tchau.

– Aonde você vai?

– Sair.

Me levantei e peguei a jaqueta que estava pendurada na cadeira.

Ao sair, percebi que meu pai não está mais com aquele olhar de alegria. Parecia meio triste, mas tenha outras coisas pra me preocupar no momento.

Sofia, por exemplo. Não fazia a mínima ideia de como ajudá-la com a morte do avô dela.

Enquanto meus pés faziam um caminho quase que automático até o cinema Strabus, fiquei pensando num discurso. Não tenha pretensões de dizer algo que parece que foi pensado, mas também não tenha nenhuma ideia melhor.

Quando finalmente cheguei a velha fachada do cinema, ainda não tinha nada pronto.

Respirei fundo.

“Fica calmo, Oliver. Você só vai conversar com ela, é só isso. Não tem motivo pra ficar preocupado se você não tem a menor ideia de como ajudá-la. Deixa as coisas fluírem”

Retirei as madeiras que cobrem a entrada com dificuldade. Não lembrava que era tão difícil entrar no Strabus.

As luzes ligadas indicavam que Sofia já havia chegado, embora não tenhamos combinado uma hora. Me senti alegremente ligado com ela.

Mas essa ligação não durou nem dois segundos. Ela não estava sozinha.

Vinícius estava com ela.

Eu realmente não esperava isso. Acho que essa foi a quinquagésima vez que me decepciono com a Sofia.

– Ah, oi Oliver.

Acho que minha decepção estava um tanto quanto estampada na minha cara, porque a voz dela saiu trêmula.

– Oi, pra vocês dois.

O silêncio estava meio constrangedor. Resolvi não me irritar porque o Vinícius tava lá. Afinal, de um jeito ou de outro, o bebê que Sofia está esperando sempre remeterá a lembrando dele, ele estando ou não.

– É impressão minha ou tava meio difícil pra entrar aqui hoje?

– Acho que não é sua impressão – respondeu Vinícius – talvez eu tenha exagerado na hora de colocar as tábuas de volta ao lugar.

Só concordo com a cabeça.

– Então Oliver, como você está? – pergunta Sofia.

Tentei ser o mais cordial possível.

– Estou ótimo.

– Que bom.

­- Por que não se senta? – completa Vinícius.

Me sentei em uma poltrona na fileira de trás da que eles estavam, eles viraram meio de lado pra não ficarem de costas.

Tudo estava muito formal, talvez pelo susto de encontrar o Vinícius aqui.

– Enfim – disse Sofia -, você se lembra que prometeu me ajudar com meu avô, Oliver?

– Lembro.

– Pois é, e o Vinícius se prontificou a me ajudar, afinal ele é meu namorado e conhecia meu avô…

– Entendi.

Resolvi cortar logo aquele papo, porque já sabia onde isso ia parar.

– Olha, eu sei que eu te prometi e tudo mais… Mas eu não faço a mínima ideia de como te ajudar, eu nem sei como seu avô morreu.

– É pra isso que eu estou aqui, eu tenho uma ideia e a propósito, ele morreu do coração.

Olhei meio bestificado pro Vinícius. O que ele acabou de dizer é meio confuso, Sofia disse que ele tinha desistido de viver, mas ataque do coração não me parece algo proposital.

Minha cara de confuso encontrou com Sofia.

– Ele foi encontrado morto no escritório lá de casa. Desde que o cinema faliu, ele se trancava no escritório, a principio ele ficava fazendo contas e tentando encontrar uma solução pros negócios. Todo dia, eu tentava abrir a porta e ela estava sempre trancada. Mas um dia, eu procurei numa velha gaveta da cozinha que só tinha chaves, e testei uma por uma. Quando eu abri a porta, ele estava chorando e não havia nenhum papel dos negócios, nem calculadoras financeiras e toda aquelas coisas que ele usava nos negócios, havia apenas folhas escritas à mão espalhadas pela mesa e a lixeira estava trasbordado papel amassado, perguntei o que tinha acontecido, ele só me olhou e disse que me amava. Mais tarde, fui dormi e deixei a chave em cima do criado-mudo. Quando acordei, a chave não estava lá. Um dia, ele saiu do escritório e nem disse aonde ia. Voltou por volta das seis da tarde. Quando deu sete horas da noite, fui chamá-lo pro jantar. Ele não respondeu, chamei de novo, já que não era a primeira vez que ele não respondia. Só depois de muitas tentativas percebi que havia algo de errado. Pedi pro Vinícius, que estava jantando lá aquele dia, arrombar a porta, que felizmente não era muito forte, já que, embora imponente, a casa é velha e papai disse que reformas são desnecessárias. Quando a porta estava arrombada, me aproximei da cadeira e ele estava lá, tão sereno que parecia estar dormindo. Ele não estava respirando. Tudo bem, ele ainda tinha sete vidas, dei um beijo nele, só que ele não voltou. Todos tentaram e ele não voltou. Chamamos um médico, que depois de examiná-lo, disse que foi a pressão alta, mas que não havia um dano permanente que o impedisse de voltar. Mais tarde naquela noite, verifiquei a caixa de remédios dele. Contei cada espaço onde faltava comprimidos e batia com os dias. Sem remédio ele não ficou. Ele tinha vidas, Oliver. E não quis aproveitar nenhuma delas.

Quando ela acabou, fiquei bastante impressionado.

– Sinto muito.

Ela não respondeu. E sinceramente nem precisava.

Sofia secou as lágrimas e disse:

– E então, qual a grande ideia, Vinícius? Você não quis me contar.

– Estava esperando Oliver chegar.

– Bom, então já pode falar – completei.

– Eu não sei como vocês ainda não pensaram nisso, mas por que não falar com a sua avó, Sofia?

– Não sei se é uma boa ideia, Vinícius. Ela não ficou muito legal depois que vovô morreu. Na verdade, ela tem agido de modo bem estranho. E além do mais, ela viajou. Só volta daqui a um mês.

– Bom, – comecei – pode ser uma boa ideia, mas ainda não entendi como isso pode ajudar.

Vinícius respondeu:

– Ora, eles viveram mais de trinta anos juntos, se alguém pode ajudar é ela.

– Ainda não sei se isso é bom – disse Sofia.

– Acho que a gente podia tentar.

Eu só disse isso, porque não tinha tido nenhuma ideia melhor. Afinal, falar com a viúva do Strabus não era uma ideia brilhante, mas era tão óbvia que nem pensei nisso.

– Bom, já que todos estão de acordo, temos um encontro marcado quando sua avó voltar, Sofia – falou Vinícius.

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