11 vidas

Capítulo 7 – O círculo familiar de Sofia Strabus

20 de junho, o dia chegara. Por coincidência era o dia de tirar o gesso. Levantei sem vontade de sair da cama, o dia parecia que seria longo, mas eu nem imaginava o quanto seria proveitoso.Primeiro, eu iria me encontrar com a Sofia e o Vinícius pra falar com a avó da Sofia e depois ira tirar o gesso.

Desci as escadas não muito animado.

Olhei em volta a procura do meu pai, mas não havia o menor sinal dele.

Ás vezes ele costuma sumir assim.

Não tive o menor desejo de tomar café. Fiz coisas irrelevantes esperando o tempo passar. Mas quando a gente quer que o tempo ande, ele se arrasta.

Finalmente dá 9:00 hs. Acho que uma hora dessa Sofia já devia estar acordada.

Subi até o meu quarto e peguei o papel com o endereço da Sofia que ela havia me entregado no dia anterior.

Não era perto da minha casa como o cinema.

Sempre odeie esperar ônibus. Mas era o jeito.

Depois de uma eternidade, cheguei à casa da Sofia.

Ou melhor, uma mansão.

Era difícil entender Sofia. Ela diz que está com o Vinícius por causa do dinheiro dele. Depois ela disse que também gostava dele. E que não tinha tanto dinheiro assim.

Mas a casa dela era enorme. E bonita.

Um jardim enfeitava a fachada da casa. Era bonito.

Uns caminhos de pedras. Umas plantas aleatoriamente posicionadas.

Caminhei até a porta de duas folhas e apertei a campainha, não antes de dá uma arrumada no cabelo. Aquele ar almofadinha tava me deixando nervoso.

Um mordomo abriu a porta. Ele era desses tradicionais. Meio careca. Média estatura. Cabelos restantes para trás. Olhar gélido. Roupa de pingüim.

– Posso ajudar em alguma coisa? – A voz dele parecia gelo. Não pude deixei de pensar que a culpa sempre é do mordomo.

– Eu queria falar com a Sofia.

– Queria ou ainda quer? – Um sorriso gélido se instalou na cara do “simpático” mordomo.

“Estou diante do homem de gelo” pensei.

– Quero.

Uma das sobrancelhas dele se levantou.

– Se for possível, é claro – completei.

Ele assentiu com a cabeça:

– Só um momento.

E fechou a porta na minha cara.

Acho que não preciso dizer que fiquei nervoso.

Comecei a andar pelo jardim, já que o tempo não passada em frente àquela porta.

Foi quando Sofia chamou meu nome. O beija-flor na minha frente voou.

Ela estava com um vestido esvoaçado de bolinhas, os cabelos de fogo soltos e vivos e descalça.

– Oi – disse ela sorrindo.

– Oi.

– Você não quer entrar?

– Depende. Cadê o mordomo louco?

Ela riu.

– Não ligue pro Benjamim. Ele já passou por uns maus bocados.

Dei os ombros, a última coisa que eu tinha pra me preocupar era o mordomo meio perturbado.

O interior da casa era amplo. Pé direito alto. E fazia frio.

A primeira coisa que se via na casa era a sala, no fundo havia uma escada de cada lado indo para o mesmo ponto.

Nos duas lados, direita e esquerda, havia uma porta.

Sofia sentou displicentemente na poltrona em frente à lareira.

“Uau, uma lareira.” Pensei.

Sempre gostei dessas coisas antigas. A casa toda parecia vir de um antiquário.

Mesmo cheia de coisas antigas, havia uma TV na sala. Não me pergunte o que passava nela.

Minha atenção estava voltada para uma garota de vestido de bolinha, sentada numa poltrona, tomando algo numa xícara preta e descalça sobre a luz da lareira.

Vinícius apareceu. Assim, do nada. Aparentemente ele não precisava passar pelo mordomo de gelo.

Estava fumando. Foi o cheiro do cigarro que me fez chamar atenção para sua figura apoiada no portal da porta. Ele parecia tão distraído quanto eu antes dele entrar. Estava distraído olhando pra Sofia.

Foi ai que ela disse sem mudar a direção do olhar:

– Vinícius, você poderia fazer o favor de apagar esse cigarro. Quantas vezes eu vou ter que te dizer pra não fumar dentro de casa?

Ele foi até a mesinha de centro e apagou o cigarro no cinzeiro.

– Tá bom, esse foi o último. Cadê sua avó?

– Não chegou ainda, disse que quando chegasse ia ligar pra buscá-la.

Eu estava sentindo a falta de algo. Foi aí que eu me toquei. Não havia visto os pais da Sofia desde que chegara, e essa era uma preocupação iminente, já que o meu encontro com a Sra. Amanda tinha sido desagradável.

Perguntei à Sofia onde estavam seus pais:

– Meu pai está ali, no escritório.

Ela apontou uma das portas na sala. Havia uma placa de “não perturbe”.

– Foi aí que… – comecei eu, mas as palavras fugiram rapidamente.

– Foi, foi aí que meu avô morreu.

– E cadê sua agradabilíssima mãe?

Sofia levantou os olhos ao teto:

– Atendendo um paciente estúpido naquela sala.

Dessa vez, ela apontou a porta do outro lado da sala.

Ironicamente, havia outra placa de “não perturbe”.

– Eu não entendo. Uma sala de visitas do lado do local de trabalho deles! Isso é insano. Se eles não querem ser perturbados, deveriam ficar num local mais reservado, não acha?

Sofia e Vinícius se entreolharam e sorriram. Depois, ela explicou:

– Oliver, você realmente não entende como são as coisas aqui em casa. Você acha que recebemos visitas? Você realmente acha que eu passo meus dias em frente à essa TV? Essa sala é imperturbável.

Era nessas horas que eu percebia como eu vivia em um mundinho limitado. Antes de conhecer Sofia, eu passava minhas férias fazendo algo irrelevante, como assistir TV. Não tinha a menor ideia de como seria voltar para a escola para o último semestre. Depois que conheci Sofia, não sabia mais o que era passar um dia tedioso num cinema abandonado. Eu não queria isso novamente.

– E por que a gente tá aqui? Não me sinto sabendo que sua mãe louca está do outro lado daquela porta. Seu pai é legal, mas acho que ia ficar uma fera se atrapalharmos o que ele está fazendo.

Vinícius e Sofia riram.

– Não é o máximo? Estamos entre os monstros! Raaahhhh!!! – disse Sofia rindo.

Nessa hora, a porta do escritório se abriu.

Era o pai de Sofia. Ele estava de pijama, óculos na ponta do nariz, jornal numa mão e café na outra.

– Bom dia, crianças – disse ele sem levantar os olhos.

Foi aí que eu me toquei que não sabia o nome dele.

Ele andou arrastando os pés até sair da sala. Assim que ele saiu, começamos a rir.

– Ele é sempre assim? – perguntei eu.

Antes que alguém respondesse alguma coisa, o mordomo apareceu do nada e falou com sua voz gélida que me assustou:

– Com licença, a dona Alice ligou e disse que já chegou ao aeroporto.

– Obrigado, Benjamim. Vou buscá-la. – exclamou Vinícius

Ele já se levantava quando Sofia perguntou:

– Você se importa se eu e Oliver ficarmos esperando aqui?

Ele hesitou um pouco antes de responder:

– Não, sem problema.

Assim que Vinícius saiu, aquele silêncio incômodo que havia entre Sofia e eu se instalou.

– Pra onde que sua avó tinha viajado?

– Phoenix. Conhece?

– Ouvir falar.

– Bom, eu não sei o que ela viu naquele lugar. A única atração é a beleza natural.

– Você não acha isso um bom atrativo.

– Talvez.

– Sofia, nós precisamos conversar.

– Eu sei, mas não acho que agora seja uma boa ideia.

Ficamos calados. Se foi por uma horas ou duas, não sei.

O tempo não tem tempo definido.

Fitei a porta do consultório da mãe da Sofia. Desde que eu havia chegado, o paciente dela ainda não havia saído. Melhor assim, porque não estava a fim de cruzar com a mãe da Sofia.

Em algum lugar, o relógio soou meio-dia. Pouco tempo depois, a porta abriu e a dona Alice entrou.

Ela parecia ter saído de um zoológico, direto da área das aves.

É, ela era uma perua.

Eu não sei se ela era colorida demais, ou a casa era muito sóbria.

Contrariando minhas expectativas, ela era baixa. Se a mãe da Sofia e a própria eram altas, imaginei que a dona Alice seria também, mas devia ser por causa da idade.

Dona Alice não parecia ser idosa, mas também não era nova. Acho que o apropriado seria “maquiada”. Quilos e quilos de maquiagem. Sabe aquela idade em que se têm mais rugas do que anos? Pois é, mais ou menos por aí.

Ela andava esquisito, como se a bunda fosse grande demais, o que de fato era. Alice parou e olhou a sua volta:

– Como é bom estar de volta! – dizendo isso, abraçou Sofia, ou melhor, amassou Sofia.

Ela me olhou com os olhos de conta, em seguida seu olho passou de mim para Vinícius (que estava na porta com as malas) e voltou a me olhar:

– Olá.

– Oi. – respondi.

– Bom – ela se virou pro Vinícius – se você puder me ajudar levando as malas pra cima…

– Claro.

Eles subiram a escada. Momentos depois Vinícius desceu:

– Então, prontos?

Sofia mordia o lábio.

Depois de uns minutos de hesitação, ela concordou.

Para meu espanto, eles olharam pra mim.

– Que foi? Eu nem sei o porquê dessa hesitação toda. A gente só vai falar com ela pra saber se ela sabe alguma coisa.

————————————————————————-

Havia uma placa na porta do quarto. “Alice” era o estava escrito. Bati e esperei.

Uma voz respondeu:

– Entre querida.

Cochichei pra Sofia:

– Ela acha que é você.

– Eu entendi.

Ela abriu a porta:

– Oi, vó.

O quarto de Alice era grande, mas havia tanta coisa espalhada que tornava o quarto sufocante, além do cheiro de perfume francês, que eu nunca suportei.

Alice estava na cama lendo, ela resmungou alguma coisa como “oi” antes de levantar os olhos do livro e ver que não era só Sofia que estava no quarto:

– Posso ajudar em alguma coisa?

– Na verdade, pode – começou Vinícius – Sofia tem passado por alguns problemas… eh… em aceitar a morte do avô.

– E o que eu tenho a ver com isso?

– COMO ASSIM O QUE VOCÊ TEM A VER COM ISSO? – Sofia explodiu, por pouco não derrubou um vaso que estava por perto – Com certeza isso é culpa sua, é sempre culpa sua!!

– Vem cá – disse Alice.

Sofia sentou na cama e deitou no colo da avó. Começou a chorar.

– Droga! Por que ele tinha que morrer?

– Eu sei, querida. É difícil, mas fica ainda mais difícil quando você dificulta as coisas.

Lógica brilhante, por assim dizer.

Ela continuou:

– Ora, o primeiro passo para aceitar a morte é de fato aceitar.

– Não dá pra entender porque ele fez isso.

– Sofia, olhe pra mim.

Sofia tirou o cabelo molhado de lágrimas do rosto e encarou a avó.

– Pelo amor de Deus, Sofia. Você está fazendo as perguntas erradas. Seu avô poderia ter milhares de razões e mesmo assim isso não seria mais fácil ou menos doloroso. Carlos não era tão certinho como você imaginava. Ele era humano. Humanos eram.

– Eu sei que ele não era certinho. Você também não é.

– Não, não sou. Mas não escondo isso.

– Tem razão, você esconde outras coisas.

Foi aí que Alice olhou pra mim e Vinícius, talvez pra ver o quanto estávamos prestando atenção a conversa.

– Não seja boba, Sofia. Você sabe que não foi por aquilo, aquilo é passado. Um passado morto e enterrado.

Vinícius abriu a boca pra falar alguma coisa, porém, antes que ele pudesse falar, o tal de Benjamim apareceu daquela forma esquisita de sempre.

– Com licença. O almoço está pronto.

– Obrigado Benjamim – disse eu.

Ele ainda me deu um olhar de reprovação antes de sair.

– Bom – Alice já estava levantando – vamos indo.

Eu e Vinícius não nos mexemos do lugar. Nem sei o porquê. É dessas coisas que a gente faz sem pensar.

– Andem vocês dois – a avó de Sofia abanava as mãos enquanto falava – estou morta de fome.

———————————————————————–

A sala de jantar da família Strabus era alta como o resto dos cômodos.

Havia uma grande mesa de madeira ao centro, um lustre luxuoso no teto e só.

Simples, mas luxuosa.

O pai de Sofia já estava sentado num canto da mesa, a mãe em um dos seus lados.

Assim que entramos, os dois pararam de conversar.

A mãe da Sofia me olhou dos pés à cabeça.

Pensei que a Alice ia cumprimentar a filha e o genro, mas ela sentou – se no lado oposto a filha. Vinicius se sentou na outra ponta e Sofia ao lado da mãe.

Pra mim, sobrou o assento de frente a Sofia.

– Então, eu não lembro seu nome – disse a mãe da Sofia se dirigindo a mim.

– Nem eu.

– Amanda.

– Oliver.

– Como vai, Oliver? – O pai da Sofia (que eu não sabia o nome) era muito mais agradável que a mãe.

– Vou bem, Sr …

– Miguel.

Fiz que sim com a cabeça.

Não que eu concordasse com alguma coisa no estranho círculo familiar de Sofia Strabrus.

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3 comentários sobre “11 vidas

  1. Pois é, finalmente li, aê! kk
    Mas enfim, o capítulo sete foi grande, só que ainda não me esclareceu tudo o que eu queria, ah. Pode-se dizer que odeio isso, você sabe. E quando vai ser revelado se Sofia vai ficar com o Oliver ou o Vinícius? Óh ):
    Fora a minha curiosidade, segundo você, não difícil de ativar -rindo, gostei bastante. Coisas e mais coisas sendo descobertas, estou começando a gostar MAIS ainda, hoho
    Parabéns, Thiago ;3

  2. muito bom,finalmente sei o nome do pai dela…estava curiosa
    não demora pra postar o capítulo 8
    tô curiosa pra saber onde isso vai dar

  3. não posso dizer que está perfeito,pois sempre há um jeito de melhorar,mas é isso aí….continue,não importa as barreiras que tenha de enfrentar e lembre-se de que quando precisar de algo,sempre terá uma amiga para te estender a mão

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