11 vidas

Capítulo 8 – A menina dos olhos de ouro

O almoço na casa da Sofia seguiu sem delongas, todos ficaram em silêncio enquanto comiam, mesmo assim, Amanda esquadrinhava todo milímetro com seus olhos, e ela não olhava só pra mim, observava todos.Quando terminei, afastei o prato e me levantei.

– Licença.

– Já vai? – perguntou Sofia.

– Já.

– Mãe, vou levar Oliver até a porta.

Sofia esperou chegarmos até a porta pra começar com desculpas:

– Oliver, sinto muito por aquela cena no quarto…

– Tudo bem.

Essas pequenas mentirinhas que eu conto, ás vezes me deixam incomodado, mas eu não ia dizer que achei aquela cena um tanto quanto esquisita.

– Mas afinal, do que vocês estavam falando?

Ela abriu a boca pra responder, mas antes que o pudesse fazer, o mordomo apareceu à la família Addams:

– Com licença…

Sério, por que ele tinha que começar toda frase com “Com licença”? Sempre desconfio de pessoas certinhas demais.

-… sua avô a está chamando, Sofia.

– Bom, tchau então Oliver.

E sem mais, fechou a porta.

Eu deveria ter me importado, ficado chateado por ela fechar a porta na minha cara, mas não… De verdade, eu não me importei. E estava feliz por isso, percebi que não estava encantado por ela como no começo.

Ainda voltei em casa antes de ir pro hospital tirar o gesso, meu pai não estava, isso me incomodava um pouco, afinal por onde ele andava?

No hospital, acabei encontrando o pai do Vinícius, Pedro Dario:

– Olá, Oliver. Como vai?

– Bem. E você?

– Também. Veio fazer o quê?

Levantei debilmente o braço engessado.

– Ah, claro. Havia me esquecido.

– Você sabe onde é a área de gesso?

– É claro.

Ele indicou uma direção em meio aos infinitos corredores.

– Obrigado.

Deixei o doutor pra trás. Ele estava mais simpático do que da última vez, mas ainda assim, havia alguma coisa estranha no olhar dele.

A porta da área de gesso estava fechada, bati e esperei:

– Pode entrar – respondeu uma voz doce.

Havia poucas pessoas lá dentro.

Os pacientes estavam sentados nas macas dispostas pelos cantos da sala.

A aparentemente única funcionária virou-se pra mim assim que entrei.

– Olá – disse ela.

Não respondi, me faltaram palavras, na verdade.

Ela era linda.

Olhos cor de ouro.

O rosto era meio triangular, mas de alguma forma formava um conjunto perfeito com o nariz perfeitinho e levemente arrebitado e as sardas dispostas aleatoriamente.

O cabelo era loiro, mas tão claro que parecia branco.

Não parecia ter mais de 18 anos, como uma pessoa tão nova era médica?

– Pode se sentar em alguma maca, enquanto eu termino de tirar o gesso dos outros.

– Tá bem.

Com tanta coisa pra dizer, eu tinha que dizer a mais idiota.

Não demorou muito pra que ela tivesse tirado o gesso dos outros. Antes, porém, dela tirar o meu, ela foi até a sua mesa e deu uma olhadinha rápida em uma revista que eu não consegui ver qual.

Ela pegou no meu braço com pouca delicadeza, mas não doeu. Enquanto ela tirava o gesso, levantou os olhos e disse:

– Oi.

– Oi.

– Como você quebrou o braço?

– Atropelamento.

– Morreu?

– Sim.

Ela sorriu. Mas não foi parecia alegre, me lembrou aquela que meu pai deu enquanto conversávamos na cozinha outro dia.

– Que foi? – perguntei.

– Nada, é que hoje, um garotinho morreu esmagado por um caminhão. Um carro havia o atropelado, ele foi jogado pra alguns metros à frente e um caminhão passava, bom o resto você imagina. Teve sorte de só quebrar um braço.

– Nossa, que horrível. Quer dizer, ele nem teve uma outra chance, se ele não tivesse sido esmagado pelo caminhão poderia voltar.

Ela terminou de tirar o gesso.

– Que alívio!!! Que sensação de liberdade!!

– Liberdade…  – ela repetiu essa palavra com os olhos distantes e fora da realidade.

Então, virou-se pra mim e disse:

– De que signo você é?

– Sei lá, nasci em maio…

Com um sorriso no rosto, ela me interrompeu:

– Então foi deve ser de Touro.

Franzi levemente a testa.

– Mas porque o interesse? – perguntei eu.

– Ora, é importante saber se o signo de outra pessoa combina com eu seu.

Franzi mais ainda a testa. Ela parecia legal e tudo, mas fiquei um pouco assustado com essa história de signo.

– Bom, obrigado – disse me levantando da maca.

Já estava quase na porta quando ela me chamou.

– Já vi que você não é de muita atitude mesmo, mas… então, quer sair comigo?

Eu juro que eu tentei não fazer a cara de idiota que eu fiz, era um misto de confusão, surpresa e alegria.

– Ah… claro. Por que não?

– A pergunta é “Por que sim?” – ela piscou – onde você mora?

– Bom, não seria eu que teria que te buscar?

– Não, comigo as coisas são um pouco diferente. A gente não vai pro cinema ou coisa assim.

– Pra onde então?

– Surpresa.

– Que horas?

– Três da tarde. Amanhã. Esse horário tá bom pra você?

– Sim.

Deixei meu endereço e voltei feliz pra casa.

Eu seria capaz de dar pulinhos de felicidade enquanto ia pra casa, se a vergonha não me impedisse.

Quando cheguei em casa, meu pai estava.

– Ei, por onde você andou? – perguntei me dirigindo a cozinha.

– Por aí, mas em breve você vai ter uma agradável surpresa! – E subiu as escadas.

Fiquei observando–o até ele sair do meu campo de visão e dei os ombros.

Se ele disse que é uma agradável surpresa, é porque deve ser.

Subi pro meu quarto e me joguei na cama.

O encontro com Sofia na casa dela parecia ter sido há anos.

O que me interessava mesmo era a menina dos olhos de ouro.

Que eu nem sabia o nome.

Tive doces sonhos com a garota de nome desconhecido.

No sonho, lá estava ela.

No sonho, a menina dos olhos de ouro.

No sonho, a minha menina dos olhos de ouro.

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