11 vidas

Capítulo 9 – Bem vindo ao purgatório.

Acordei tarde naquele dia de junho. O dia do encontro com ela. A primeira coisa que fiz ao acordar, foi conversar comigo mesmo.

Era preciso deixar algumas coisas claras comigo mesmo. Pra não cometer os mesmos erros fiz com Sofia.

O primeiro de tudo era não se apaixonar perdidamente, se apaixonar tudo bem, mas não perdidamente. Porque quando você se apaixona assim, você está literalmente perdido.

E eu fiz isso quando a conheci. Algo que não poderia se repetir.

O segundo fato a considerar era perguntar se ela tinha namorado, tudo bem, ela me chamou pra sair, então não deve ter. Mas é melhor garantir. Aliás, só por curiosidade, saber se ela está grávida ou não… Afinal, nunca se sabe…

Por fim, mas não menos importante, tentar não estragar tudo. Pois é, talvez o mais difícil.

Enquanto eu pensava em formas de não afugentá-la, meu celular tocou.

No susto, abri o flip sem ver o número, e pra minha surpresa, foi desagradável:

– Alô.

– Oi, Oliver. É a Sofia…

– Ah.

– Aconteceu alguma coisa? Sua voz tá estranha…

– Imagina, não aconteceu nada. Conversar com sua avó foi uma perda de tempo imensa, vocês tem algum segredinho que deve ser sujo porque que você não quis me contar, sua mãe é uma bruxa, você fechou a porta na minha cara. E seu mordomo é escroto, aliás quem é que disse que tava falida mesmo? Porque gente falida não tem mordomo!!. Mas fora isso não aconteceu nada.

– Oliver!! O que deu em você? – ela pareceu um pouco assustada com o tom agressivo na minha voz.

– O que deu em você, Sofia? Que saber, eu tô de saco cheio de você e dos seus probleminhas. Seu avô morreu, Sofia! Quer você queira ou não!!

Ela desligou, não antes de eu ouvir um soluço. Se ela estava chorando ou não, o problema era dela.

O despertador, que não havia tocado, mostrava onze horas.

Na cozinha, meu pai fazia o almoço. Isso era meio que um milagre.

– Olá, filho – disse ele virando a cabeça enquanto mexia algo na panela, assim que desci as escadas.

– Oi, tá fazendo o quê?

– Almoço, ora.

– Eu perdi alguma coisa? Hoje é alguma data especial?

– Mais ou menos.

– Isso tem alguma coisa a ver com…

– Pois é, a surpresa. É que eu tô namorando.

Não deixei de ficar surpreso. Não que meu pai nunca fosse conseguir uma namorada, mas eu que eu já tinha me acostumado com ele sozinho.

– Que bom – exclamei.

– Ela vem almoçar.

– Ok, agora eu entendi esse alvoroço todo. Vou ficar no meu quarto até o almoço, ok?

Sentado na cama, fiquei jogando uma bolinha na parede por horas, sem realmente prestar atenção ao que estava fazendo.

Confesso que a ideia do meu pai namorando era algo que não entrava direito na minha cabeça, não que eu estivesse com ciúmes, já era bem grandinho pra isso, era só… Bom, era estranho.

As horas passarem tão lentamente quando o cozido do meu pai. Finalmente, a campainha tocou.

– É ela – gritou meu pai.

Desci as escadas de mau gosto, não estava a fim de nada, a não ser excerto, o meu encontro. No meio da escada, onde já era possível enxergar a porta, eu vi a acompanhante misteriosa do meu pai.

Quer dizer, vi mais ou menos, já que ela estava atracada com meu pai. Não dava pra ver muita coisa enquanto eles se beijavam (ou se devoravam, se preferir).

Assim que cheguei à sala, ela percebeu minha presença e parou com o “chupão”.

Embaraçada, ajeitou o cabelo. O batom estava borrado em sua boca. A roupa meio amassada. Ela passava a mão na roupa tentando consertar o estrago.

– Vocês deveriam ir para um quarto – disse enquanto ia pra cozinha sem esperar nenhum deles, ou dizer um educado “oi”.

Sentado na mesa da cozinha, eu ouvia cochichos vindo da sala. Eles estavam discutindo, ou conversando, não sei. Depois de um tempo, porém, eles apareceram na cozinha.

A mesa lá da cozinha era redonda e pequena, quatro lugares. A namorada do meu pai sentou ao meu lado, e ele do outro.

No lugar que sobrou, bem na minha frente, eu imaginei a minha mãe.

– Oliver, essa é a Sara.

Podendo vê-la direito, ela não parecia com a imagem que eu tinha dela.

Usava uma maquiagem leve (embora o batom continuasse borrado), a cabelo preto estava preso em um rabo de cavalo.

Ela sorriu e estendeu a mão, uma covinha apareceu em sua bochecha.

– Olá.

– Oi – respondi, sem muita convicção.

Meu pai nos serviu, algo que por si só já era um milagre, mas isso não foi o mais estranho. O mais estranho é que pensei que o almoço seguiria com aquela tensão já instalada, mas não foi isso que aconteceu. Eu poderia jurar que iria discutir com ela ou ele.

A Sara e o meu pai ficaram comendo na deles e rindo juntos.

Quando terminei, fui pro meu quarto.

No andar debaixo, ainda dava pra ouvir as vozes felizes do meu pai e de Sara. Assim que a porta fechou e ouvi um sonoro “tchau”, fiquei feliz.

– Posso entrar? – disse meu pai batendo na porta?

– Claro.

– Sobre o que aconteceu lá embaixo…

Mas antes que pudéssemos ter uma conversa chata sobre “ela não vai substituir sua mãe e etc.”, a campainha tocou.

– Eu vejo quem é – disse, já quem não estava a fim de ouvir o que quer que ele tivesse pra dizer.

Ao abri a porta da sala, tive uma surpresa.

– Oi – disse a menina dos olhos de ouro.

– Oi – exclamei com surpresa, já que eram só 14:00 horas.

– Eu tô adiantada, eu sei – ela disse ao ver minha cara confusa – mas é que meu turno acabou e eu pensei “Bom, pra quê esperar até três horas?”

– Uhnn. Entra.

– Ah, não. Obrigada. Vamos?

– Ir pra onde?

– Eu disse que era surpresa!

– Não, mas… já? Eu nem me arrumei…

– Você está ótimo – e me puxou pra fora de casa.

Andávamos pelas ruas sem conversar muito e até mesmo um pouco constrangidos. Até que ela pegou minha mão e me deu um sorriso.

Com um tempo, eu comecei a reconhecer o caminho por onde estávamos indo.

– A gente ta indo pro…

– Isso mesmo.

A praça no centro da cidade era definitivamente um dos melhores lugares que havia por aquelas bandas. Pois é, imagine os piores.

Um lugar tranqüilo. Crianças brincando e casaizinhos apaixonados eram o que havia.

Era o mesmo lugar onde eu tinha visto a Sofia com o Vinícius pela primeira vez.

Sentamos em uns dos vários bancos do lugar.

– E então Oliver, você tá bem?

– Como você sabe meu nome?

– O doutor Pedro me contou. Eu perguntei.

– Bom, e qual é o seu nome?

– Isso não é importante.

– Se seu nome não é importante, então o que é?

– Eu sou importante. O que eu penso, o que acredito, o que me deixa feliz. Isso importa.

– Isso tudo parece ótimo, mas seria muito bom ter um nome pra te chamar, porque “a menina dos olhos… – Parei. Isso não parecia muito apropriado para dizer.

– Você me chama de quê? – disse ela com curiosidade e um sorriso no rosto.

Hesitei um pouco em responder, isso era o tipo de coisa que poderia estragar tudo, mas toda vez que eu tentava não estragar as coisas, eu estragava. Então, decidi não tentar.

– Menina dos olhos de ouro.

Ela riu.

– Isso é engraçado.

Fiquei vermelho, ela achava isso engraçado. E eu não achava nem um pouco

– Desculpa. É engraçado porque a primeira coisa que eu reparei quando você entrou foram os seus olhos verdes.

Se antes eu estava vermelho, fiquei escarlate depois disso.

– Por que você queria saber meu signo? – perguntei depois de um tempo.

– Queria saber sua compatibilidade comigo.

– Você acredita nessas coisas?

– É claro. As estrelas falam, Oliver.

– E por um acaso meu signo é compatível? – Falei em tom de brincadeira, embora ela tenha levado muito a sério.

– Sim.

– E se não fosse? Você não ia querer se encontrar comigo?

– Oliver, o horóscopo dizia que eu iria encontrar uma pessoa especial aquele dia.

– E encontrou?

– Acho que sim. Você se acha especial?

– As pessoas conhecem pessoas especiais todos os dias. Não é necessário um horóscopo pra saber disso.

– Você é de Touro. Taurinos são teimosos. Não se preocupe, tudo está indo como deve ir.

– Estrelas não são capazes de fazer o destino.

– Talvez não. Mas o mundo é uma incrível coincidência. Todos os seus antepassados, coincidências incríveis fizeram você está aqui. E se seu pai não tivesse conhecido sua mãe? E se seu avô morresse antes de ter filhos? Você poderia ter ido no hospital qualquer hora, mas você foi justamente quando eu estava lá. E agora estamos aqui. A vida é muito aleatória, Oliver.

Durantes alguns instantes eu fiquei calado. Realmente não esperava aquela conversa. Ela era tão bonita que eu achei que ela seria bestinha. Sim, às vezes eu sou idiota.

– Ok, eu admito. É tudo muito aleatório. Mas você não acredita em uma razão pra tudo? Deus, talvez…

– Eu acredito em Deus.

– Então por que você liga pra horóscopo?

– Porque ele está certo a maioria das vezes.

– Por favor!! A vida não é exata.

– Por isso mesmo. Eu não posso ter certeza da vida. E se houver uma chance, mesmo que seja mínima pra que alguma coisa faça sentido, como as estrelas mostrarem o destino, então eu acredito. Eu tenho dificuldades pra aceitar que a vida é uma roleta russa.

– Mas pode haver uma razão. Você disse que acredita em Deus…

– Oliver, você chegou ao mundo sem saber de nada, você não sabe de onde veio ou pra onde vai. Ninguém pode te dizer nada sobre isso. Ninguém lembra de nada quando volta da morte. E se não houver nada? E se for só isso e depois que você morre 11 vezes acabou?

Admito que fiquei um pouco sem palavras com toda a carga de dúvida que ela despejou em mim.

– Você disse que acreditava em Deus… – Quando a gente não tem o que dizer, repete.

– Ok, eu admito. Talvez minha fé não seja grande o bastante. Eu simplesmente não consigo imaginar um céu com anjos tocando harpas e um inferno pegando fogo.

– Nem eu. Mas essas coisas são simbólicas. Nem purgatório existe.

– Isso existe.

– Não existe não. Foi uma invenção da igreja na idade média para acalmar as pessoas. Já que ou você era santo e ia pro céu ou ia pro inferno. Por isso criaram o purgatório, se você não vai direto pro céu, pelo menos não iria pro inferno. Na bíblia nem comenta o purgatório.

– Mas diz que o céu tem harpas e o inferno pega fogo. Eu sei que as coisas são simbólicas. Só esqueceram de avisar as pessoas que levam a bíblia ao pé da letra. “Eu acredito no Deus que me criou, não no Deus que o homem criou.”. Mas o purgatório existe.

– Mesmo? – perguntei com sarcasmo.

Ela parou de mexer os pés e olhou bem nos meus olhos. Tão profundamente que eu senti gelar minha alma, embora seu olhar fosse calmo, mas concentrado.

– Olhe a sua volta, Oliver. Você está no purgatório. Bem – vindo.

Durante um minuto eu olhei a minha volta. Não para as crianças brincando que me rodeavam. Olhei em volta do mundo todo. Ela tinha um pouco de razão. Mas eu ainda não tinha entendido direito. Talvez porque não olhei pra dentro de mim mesmo.

– Talvez seja. Como você tem tanta certeza?

– Você não sabe de onde veio, nem pra onde vai. Tudo que você faz tem uma conseqüência e na maioria das vezes as coisas fogem do controle. Dizem que do purgatório, você pode ir pro céu ou pro inferno. E quando você morrer, talvez seja assim. Não é preciso morrer pra pagar os pecados. Olhe dentro de si mesmo, você está ou não no purgatório?

Sorri despretensiosamente.  Ela estava certa.

Era fácil se apaixonar. E eu me entreguei sem culpa.

Segurei sua mão que estava no banco. Ela me olhou. Eu sorri e ela sorriu de volta.

Durante algum tempo, não foram preciso palavras, toques ou beijos. Os olhares fixos refletindo um aos outros. Olhos de cores diferentes olhando na mesma direção. Eu era capaz de enxergar meu reflexo perfeitamente.

O simples encostar dos narizes gerou uma corrente elétrica que passou por todo meu corpo.

O encostar dos lábios. Ah, o beijo. Foi simplesmente indescritível, por mais que eu procurasse, não conseguia achar uma palavra para exprimir minha sensação. Eu ainda não sabia o significado de “felicidade”.

Eu ainda nem sabia o nome dela.

– Eu gosto de você, Oliver.

– Eu gosto de você, minha menina dos olhos de ouro.

– Eu tenho que ir embora.

– Tem?

– Tenho. Toma, te vejo amanhã ás 10 da manhã, pode ser?

Pequei o cartão que ela me deu, havia um endereço.

– Ok.

Ela se levantou e começou a andar, se afastando de mim o tempo parecia avançar rápido demais, o que me deixava sem ar.

– Espere! –gritei eu.

Ela olhou pra trás.

Já não havia crianças correndo por todos os lados, nem casais namorando.

Só eu e ela.

– Eu nem sei seu nome…

– Você sabe meus medos, você não precisa de mais nada.

Ela continuou andando, mas então, como que por impulso, virou – se e disse:

– Só pra matar sua curiosidade, meu nome é Izzy.

E desapareceu. Como todas as coisas boas.

Quando cheguei em casa, meu pai não me perguntou por onde eu tinha andado, melhor assim.

Já na cama, tentando dormir, eu repetia seu nome.

Izzy.

Ela podia não acreditar em anjos no céu tocando harpas, mas eu havia acabado de encontrar um anjo no purgatório. Pelo menos no meu.

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Um comentário sobre “11 vidas

  1. Háa, meu comentário não poad faltar u_u
    Então, senhor Thiago… QUE COISA É ESSA DE O OLIVER CONHECER UMA MENINA DOS OLHOS DE OURO? E A SOOPHIE? D:
    Assim, essa menina misteriosa ainda vai ferrar com a vida do Oliver que eu seeei, você não vai deixar assim, né? rs
    Masmas, tava tudo tão fofo com a Sofia *cof* Tá, mas eu ainda prefiro ela o-õ
    Bgsmil, e cap. 10 aí vamos nós 8D

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