Arquivo mensal: junho 2011

Poetisa

Ela acorda  com os cabelos desgrenhados, cheirando a cigarro. A primeira coisa que faz é olhar as horas no celular. Mas ela queria mesmo um despertador, daqueles que vibram e é necessário dar um tapa distraído para parar de tocar. Quando a coragem… não… o dever a chama, ela senta na cama, mexe nos cabelos para acordar (sem fazer ideia do quanto fica linda ao fazer isso), respira fundo e pensa no dia que está pra começar, embora não haja pistas do que está por vir.

Na cozinha, prepara o café. O cheiro invade todo o espaço dentro e fora de si. Recordações são imediatas. Todas as manhãs. As recordações ficam manchadas com o café dando um aspecto de sépia que leva a nostalgia. Ela se atrasa com as idas e vindas de memórias. No portão, erra a chave. No fundo, é como todas as pessoas. Esses detalhes aleatórios da vida tiram a poesia do mundo que ela gostaria.

Num mundo ideal nem haveriam portas. Ela escreve, e é particularmente boa nisso. Não há segredo. É a alma. Quando se transcreve a alma num pedaço de papel, não há meios termos. Verdade, alma e café. A nostalgia a gente deixa pra depois. Joga na cama e dorme.

No fundo, eu a conheço no fundo. Sabe a borra de café no fundo da xícara? Tenho a impressão (trocadilho idiota com a ideia de escrever) que suas palavras direcionadas a felicidade, ao amor, a vida feliz a dois, a paz de espírito que nos torna, mais do que felizes, plenos, nunca fazem que ela acredite que possa ter tudo isso.

São consequências de uma vida poética, regada a noites mal dormidas, corações partidos, nostalgia, sentimento de perda, vazio que não se preenche e auto-crítica.

Isso tudo é bem poético, não é? Como os palhaços que são todos tristes. Mas eu vou te contar um segredo.

Alegria, egoísmo, estranheza, vazio, felicidade, plenitude. As partes boas também fazem parte de uma vida poética. Acho que por hábito, temos medo de ser, enfim, felizes. Pegue minha mão. Qual a graça de uma vida sem receio?

Você será, por tempo indeterminado, minha poetisa.

Thiago B.

Lago gélido x Meu bom coração

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Você tem nadado em águas profundas há tempos. E por algum motivo eu sinto essa necessidade de te arrancar desse lago gélido. É a mesma velha história, tenho certeza. Algumas pessoas confundem minha caridade com amor-imediato. Sim, caridade! Não sou obrigado a salvar suas entranhas, mas meu bom coração me impede de ser tão gélido quanto as águas que te prendem. Sinto muito, mas não posso te ver afundar. E nem posso fechar os olhos.

Peço desculpas adiantadas, porque de uma forma ou de outra as coisas sempre saem do controle. Sempre. Não sinto que com você vai ser diferente, e não é meu dever pedir desculpas por isso. É claro que você sempre pode tentar, é um desafio. Suas mágicas são boas? De qualquer forma, por mais imponente que seja o número, é um truque. Droga, estou ficando pessimista. É a convivência com você.

Qual o limite da interferência? Digo isso porque acho que sempre cruzo essas barreiras entre o meu Eu e o seu Eu. Por entrar tão fundo na vida das pessoas, criei o costume de querer colecionar sentimentos. Recolho essas preciosidades e guardo a sete chaves. Tenho sede e você tem emoções bem novas que preciso desvendar. Não me interesso pelos sentimentos de qualquer um. Mas tenho receio. E se isso te causar mais dano? É só uma suposição, eu sei. Porém, tenho medo. Espero que você também, assim, nos sentimos mais seguros.

Vê? Também necessito de ajuda. Estou louco para acreditar que existe reciprocidade.  Pensando bem, só tem um jeito. Vou ter que me molhar. Nossa!! Está mais frio do que pensei. Seus lábios estão azuis. Ei, eu quero estar aqui, agora o frio não importa. Só saio daqui com você. Respire fundo, vai ficar tudo bem. Pouco me importa se sempre dizem isso! Sou eu quem está falando, entendeu? Não estou fazendo nenhuma promessa e nem vou fazer. Por isso não minto. Olha nos meus olhos. Lembra? Havia uma espada no fundo de um lago congelado. No fim valeu a pena. Então, não fique apavorado. Cá estou porque quero.

Thiago B.

sobre não ter o que dizer

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Queira se deitar no divã, por favor. É minha vez de te analisar. Só temos 50 minutos, então vamos, sem demora, direto ao ponto.

Não tenho pretensões de ser clichê, mas temo que vou acabar sendo. Posso usar um exemplo? Adianto que é um bem tosco. Não gosto de metáfora. As coisas são o que são e, portanto, não deveriam ser comparadas com outras coisas. Mas, por hora, o que importa é você ficar bem. Lá vai: É uma questão de geometria. Uma pirâmide. Uma pirâmide, entende? Você está na base, bem no meio dela, não dá pra fugir pelos lados. E você segura. Tudo. Bem acima da sua cabeça. Uma pergunta: Por quê? Por que segurar todo esse peso? É só pensar de novo na pirâmide. Uma resposta, que embora fato é raramente contatado. Você segura porque se não o fizer, eles caem e que tá em baixo se machuca também. Quem tá em baixo é quem se importa. Sempre. Mas o peso também dói, por isso você cai. Invariavelmente. E claro que mesmo que se uma parte da base cair, a pirâmide continua de pé. Você caiu.

Depois dessa metáfora digna de e-mail power-point, desejo te contar um segredo. Uma revelação do mistério da vida. Preparada? Vou falar bem baixo, no teu ouvido: estamos sozinhos. Quando se nasce, você, e somente você força o pulmão pra respirar. E na morte, não tem ninguém pra ajudar a atravessar pro outo lado. uma observação: você vem e vai. Pessoas vêm e vão. E sabe por que é segredo? Pois todo mundo sabe, mas ninguém quer saber. Dói demais saber que tudo, tudo isso aqui é provisório, e ninguém tem a menos ideia do que se tem do outro lado.

Nunca. nunca a gente tem alguém por inteiro. Nem mesmo a gente próprio. Deixar as pessoas irem, seguir pelo caminho errado que você já cansou de impedir, é necessário. Ninguém se pertence. Você não pode perder o que nunca teve. Das pessoas que deixei pra trás não me arrependo, não mesmo. Eu sempre penso “será que daqui a cinco anos isso vai importar?”. Não vai.

Eu conheço a dor. Posso sentir nesse momento. Mas sabe o sentimento que mais eu sinto agora? Orgulho. Sinto finalmente que sou capaz de saber maneirar meus sentimentos relativos a outras pessoas. Foi uma pessoa quem fez isso comigo, sou eternamente grato a ele. Mas só de lembrar eu choro.

Desculpe, não estou aqui pra falar de mim. É só que a essa altura do campeonato eu não sei mais o que dizer. Não, tudo menos o silêncio. Procure seu vintage perdido enquanto continuo.

______________________SILÊNCIO_________________________

Nossa, olha a hora!! Passamos do horário. Você vai ter que pagar a parte excedente. Sabe como é, né? Tenho contas a pagar. O mundo não para com nossa dor. Ainda bem.

Assim podemos seguir em frente.

Thiago B.

O primeiro pedaço

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Não sou ligado a tradições. Aliás, tenho repulsa à algumas delas. Mesmo assim, o primeiro pedaço do bolo é algo importante pra mim. O motivo? Não sei. Mas eu adoro quando eu digo “O primeiro pedaço vai para…”, é possível ver nos olhos de cada um a cobiça por aquele simbolismo todo. E isso trás para mim um significado.

Não digo que aquele dia foi o melhor de todos. Teve seus momentos bons e ruins. Mas na hora do bolo, que tava bem ruim por sinal, eu olhei pra você e sabia para quem ia o tão cobiçado primeiro pedaço. Lembro que você quase caiu da cadeira. Olha, fui bem sincero, uma das poucas vezes que segui verdadeiramente meu coração.

Vamos, por um momento, esquecer todas as merdas que acontecem em nossas vidas. Let’s just dance listening to this song i know you like. Tonight we’re not taking no calls ‘cause we’ll be dancing.

Você me ensinou a sorrir, sem ao menos estar feliz. Só por alegria mesmo, pra ficar bem. Mais do que um pedaço de bolo, eu te dou um pedaço de mim, sem medo algum.

Thiago B.

Para Vanessa

Thaís, intrusa haha