Arquivo mensal: setembro 2011

A aventura do andarilho em busca de conselhos na terra da poesia furada

Seguia tranquilamente pela estrada que sempre andou. Alguns empecilhos aqui e acolá, tropeçando e caindo como todo andarilho.  Nunca se deixou cair por completo no chão irregular, sempre acreditou que toda aquela caminhada valeria a pena. Não me pergunte o porquê. Não posso explicar a fé cega de um homem em busca do que nem ele sabe.

E ele continuou sua jornada. Sem previsão nenhuma, arrumou uma companhia. Pouco agradável no começo, é verdade. Mas pelo menos o homem-cinza estava lá pra quando ele precisasse. E ele precisou muito. O homem-cinza o impediu de arrancar seu coração e jogá-lo num vale sem fundo. Quando ele doer, você vai saber que ele ainda existe, foi o que ele falou.

O homem-cinza viu que o andarilho precisava de urgente ajuda, ou não aguentaria mais muito tempo. Por isso levou ele à sua terra natal. A terra da poesia furada.

O serelepe andarilho conheceu muita gente interessante no pitoresco lugar.  A incrível Poetisa, titereiro de palavras. O maravilhoso Rocky, conselheiro geral da nação (além de multitalentoso). A amável Mashmallow, criadora oficial dos sorrisos, risos e afins. O próprio Homem-cinza, que não tinha função definida naquele estranho lugar. Um gentil catalogador de corações, chamado Borra. Por último, o andarilho encontrou a misteriosa Pandora.

A atmosfera do lugar tinha um inconfundível cheiro de café. Andarilho se sentia tão bem naquele lugar, que fez o inimaginável: parou de andar sem rumo. A partir daquele dia, iria morar na terra da poesia furada.

Mas acontece que ali, naquele lugar longe e isolado e mágico, apareceu alguém que também andava em busca do não-sei-o-que que o andarilho buscava. O andarilho foi tentar ajudá-lo, afinal ele já esteve naquela situação.

E aquela sensação de “o que mesmo que se passa” voltou  a acometer o pensamento do andarilho. E ele aprendeu a buscar conselhos naquele lugar. Assim se iniciou a busca de conselhos.

Primeiro, andarilho foi no catalogador de corações. Borra disse para ele ter cuidado,que a essência de seu coração tinha mudado,  e quando andarilho pediu mais explicações, ele disse apenas ” outro desses corações, não!”

A próxima parada foi o Rocky, conselheiro oficial de todos. Mas Rocky disse aquilo que o andarilho não queria ouvir.  E como um garoto mal criado, andarilho fechou os ouvidos.

Não queria falar com o Homem-cinza, pois ele começava a ganhar cores e não havia o porquê interromper esse progresso. A vez de ajuda era do andarilho.

No final, foi Poetisa quem disse o encheu a mente e o coração do atrapalhado andarilho. Ela disse ” Não tenha medo se as coisas estão acontecendo muito rápido. Algumas coisas levem tempo, outras não. Simples assim. Não tenha medo de cair, você não teve medo antes. Talvez você esteja mais perto do que nunca de achar o que sempre quis”

Mashmellow ajudou a cuidar do visitante, então não seria a pessoa ideia para esse conselho em específico.

Não pediu conselhos para Pandora.

E assim o andarilho voltou a andar, buscando. O mais importante é que mesmo assim, ele havia achado seu lugar. E mesmo continuando confuso, ia manter aquele que ali chegou, sem pedir licença.

Na terra da poesia, as alegorias e alegrias fazem de todos os habitantes, um povo que tem esperança, mas não espera. Que chora, mas chora de felicidade também. Que sabe que na ausência de um bom amigo pra aquecer a alma, um café mantêm todos unidos. Sendo assim, brindemos e celebramos esses momentos de puro aroma de alegria.

O Estudo da Matéria dos Corações: Um comunicado.

O coração de cada um é feito de uma matéria única e inigualável. Pouca gente sabe disso. É um daqueles mistérios de vida que as maioria das pessoas desconhece.

Sou especialista na matéria dos corações. Os meus preferidos são os de vidro. Coloridos, cortantes e frágeis. Têm a tendência do recorrente medo do receio. São lindos. Construídos pela natureza e o tempo a partir da areia.

Meu trabalho é catalogar os corações. Não posso misturar o profissional com o pessoal. É um trabalho difícil, eu sei. Venho aqui por que preciso contar o que aconteceu comigo há pouco.

Era um dia tranquilo de trabalho, com alguns corações no conserto e uma fila enorme deles para eu catalogar. Foi aí que eu percebi um material diferente que eu nunca tinha visto antes. Segurava em minhas mãos um coração feito de porcelana pintada a mão. Era lindo. Todo decorado, com linhas finas que formavam um desenho abstrato de grande valor sentimental. Valor sentimental pra quem? Pra mim que não poderia ser.

A dúvida surgiu: Não tinha aonde catalogá-lo. E  outra pergunta ainda mais preocupante: por que aquele coração fazia o meu bater tão descompassadamente? Na minha mão já passaram corações de vários tamanhos, formas, pesos, presenças e sentidos. E eu não havia sentido esse calor gélido na boca do estômago. Eu não sentido o sentido palavras.

Fui a trás da dona do estranho artefato. Eu não havia previsto que sem aquele coração mais frágil que o vento, ela estaria mais debilitada  do que um gato que levou pedradas.

Aproximei-me devagar daquela mulher sem coração. Percebi no seu olhar que eu não poderia, nunca, em hipótese alguma, manter aquele coração comigo.

Nunca havia acontecido antes um caso assim. O normal era as pessoas andarem sem a simples bomba de sangue. Descobri que não sabia tudo sobre esse estranho órgão.

É preciso alertar a todos que tem um coração de porcelana. Cuidado se seu coração quebra mais do que copo de cozinha.

Quanto a mim, continuo aqui. Com um coração peludo. Sabendo que aquela porcelana abri-me o ventrículo e  colocou um pouco de água onde antes só havia borra de café passado.

A aventura está lá fora!!

Peço desculpas a mim mesmo. Acabei deixando de recorrer as palavras. Posso dizer que foi mil coisas. Preguiça, presunção, paciência (falta de), perdão, pessimismo e esses são apenas os P’s. O importante é que isso não importa. Ontem mesmo sentia que esquecia até as letras.

Sempre achei que precisasse de alguma gatilho que me fazia escrever. Não é bem isso. Uns bons tapas na cara resolvem. O mundo já tem eufemismo depois para se achar que palavras doces e gentis abrem os olhos. Ás vezes, o que mais preciso é de alguém para beber minhas lágrimas.

Sinto muito mas hoje não tem palavras bonitas nem frases que arrancam suspiros. O caminho é duro e árduo e exige  mais do que abraços de despedida. Estou indo ali, onde o sol só se põe uma vez e a água não tem algas.

Está tudo escuro e preciso de uma luz. Pra falar a verdade, acho que encontrei uma. Mas preciso segura-la na minha mão. Vagalumes fogem e o lampião é individual.

E dessa vez, não tem despedida nem conclusão. Afinal, a aventura começa agora.