no meio do caminho

Não posso dizer que era uma pedra feliz. Afinal, era uma pedra. Cumpria bem seu papel na natureza. Não era dessas pedras que vivem no sapato dos outros. Vocês podem não acreditar, mas pedras, rochas e pedregulhos têm seus próprios problemas . Um deles é que você nunca sabe aonde começa e aonde termina. É uma existência muita complexa, essa de ser pedra. Não se percebe o individualismo até estar totalmente desconecto do todo. Quando se vê, você é um bloco de mármore (mas ainda sim uma pedra) em algum lugar e sem saber como foi parar lá. A pedra; antes não-feliz, mas com existencialismo incompleto satisfatório; se sentia desnorteada, embora não soubesse o que fosse isso. Ela queria correr, tamanho o desespero. Ora, mas era uma pedra. Nunca havia lhe ocorrido a ideia de correr. Tentou se acalmar, o que também era um sentimento novo, e a deixou nervosa. O despejo de novos sentimentos a trouxe confusão. Nada usual para uma pedra. Decidiu ficar parada, imóvel. Ficaria estática, tão estática como uma pedra. E foi assim, nesse caos emocional, que aos poucos foi sendo esculpida. Cada pedaço arrancado de sua, agora conhecida, existência resultava em uma nova leva de devaneios sentimentais. Quando pronta, a obra alcançou sucesso imediato. Por um tempo, a pedra ficou orgulhosa de si. Rodin e seu “O Beijo” eram a sensação. Ou melhor, Rodin era a sensação. Em mais um uma crise existencial, a pedra percebeu que continuava sendo pedra. Agora era “O Beijo”, mas ainda era pedra. Ela não fizera nada além de ficar parada enquanto Rodin esculpia. Representava duas pessoas, suas formas eram delicadas e consideradas de um erotismo indecente. Era melhor quando era só uma pedra mesmo e não estava imortalizada como um beijo em movimento não finalizado. Era bem melhor quando não tinha noção de sua existência. Pensar não era difícil, mas na falta de explicações sobre a vida, o universo e tudo mais, absolutamente nada fazia sentido e ela estava começando a considerar se tudo não era fruto de sua imaginação. Ironia seria se tivesse sido esculpida como “O Pensador” e no mínimo, há sentido na ironia. Além do mais, com seu gênio forte, a pedra imaginou que “O Pensador” não pensado, já que era feito de bronze. Bronze não pensava, ponto final. Como ela havia chegado a essa conclusão, entretanto, eu não saberia dizer. A pedra, esculpida em “O Beijo”, já não mais era única e haviam réplicas em vários museus. Mas de uma coisa ela tinha certeza. Com o passar do tempo, o vento a iria esculpir mais uma vez, desmanchá-la, iria ser pó. E quem sabe assim, já não teria mais uma consciência para perturbá-la.

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