Arquivo mensal: março 2012

Sem-pre,ssa.

– Eu estava pensando sobre a Fragilidade dos vidros.

– Me conte.

(…)

– Eu sempre tenho um sorriso bobo no rosto.

– Sempre?

– Sempre que você sopra suas palavras no meus ouvidos.

– Sempre é tempo demais. Além do mais, já usamos muito essa palavra. Não seja repetitivo, meu bem.

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Lamentável

Um francês toma café em um bairro suburbano. Olha com ódio para a Paris dos turistas que não sabem dos problemas do outro lado da cidade. Até na cidade-luz nem tudo é flores. Alguém é jogado no porta-malas de um carro em uma cidade qualquer. Como é possível caber seu corpo e tanta tensão e tanto terror e tanto medo em um lugar tão pequeno? E pra onde vai sua vida depois do tiro a queima roupa que para seus órgãos? Talvez um cientista em Estolcomo saiba, mas ele está muito preocupado agora. Tenta achar a cura da Aids. E olhem só, ele acaba de conseguir! “Prêmio Nobel, aqui vou eu”. Não importa quantas vidas serão salvas. O que mata não é a Aids. O que mata é estar vivo. Há tantas formas de morrer, e tantas formas de adiar o fatídico fim. No meio das guerras, que ocorre em baixo do nosso nariz, não há fuga e o desespero vira enxofre. Entra pelos pulmões e queima os neurônios. As mãos tremem. As mãos tremem em vários lugares do mundo. O orgasmo faz o resto do mundo explodir. As bombas fazem o resto do mundo explodir. A bala faz o coração explodir. O ódio faz o francês explodir a xícara. E tudo isso acontece ao mesmo tempo.

Nessa pequena bola flutuante do espaço, há tanta vida e tanto conflito entre a vida de seus habitantes, enquanto você lê isso, sabe-se lá o que acontece fora da sua mente. Você ficaria surpreso se alguém começasse a voar por aí? Pois fico surpreso todo dia com a gravidade. Pense, tem uma força no meio desse planeta que puxa tudo para o centro. De alguma forma, essa bola rochosa se move a uma velocidade assustadora no meio do nada.

Feche os olhos. Faça silêncio. Percebe? Tudo se move. Esqueça ET’s. Isso tudo aqui é uma explosão de vida. E de morte. Mas sempre há vida.

E toda vez que você me diz que está com tédio, é uma situação lamentável. A realidade é tão sufocante. Toda vez que você acha que qualquer besteira é o fim do mundo, eu me lamento. Todo dia a morte bate a porta, é natural. Lamentável mesmo é saber que alguém se foi sem nem saber que um dia esteve.

Encaixe

Que tal pararmos de perder tempo e nos encaixar afinal? Que tal tu largar tua marra e se amarrar em mim?

E se por um acaso confusão surgir, deixe estar, isso passa. Eu posso te olhar bobo, te segurar pela cintura, pedir por carinho e fazer falsas promessas de eternidade. Mas nem por um momento pense que quero teus sentimentos. Somos muito maior que isso. Somos a cama, o sofá, todo lugar. Somos as roupas espalhadas no quarto. Somos o encaixe dos corpos.

Um cheiro sujo infecta o ar. O suor evapora, os pés se contorcem. Não adianta a campainha tocar, não adianta os celulares tocarem. Eu não vou mover um músculo sequer que não seja para o meu prazer. Então não fica aí me olhando, desce um pouco mais e deixa todo o resto explodir.

Mordo sua orelha e faço falsas juras de amor, mas quando você veste sua roupa e vai embora (não sem antes rolamos no chão uma última vez) eu tenho vontade de te segurar e dizer: APAIXONA-TE, APAIXONA-TE, não prometo reciprocidade, mas por favor, encaixa um pouco de amor aonde não tem.

Depois da descarga de adrenalina, eu só queria mesmo um beijo na bochecha. Beijo de boa noite. Dorme aqui comigo, não tenho medo do escuro, mas tenho um vazio que encaixe nenhum preenche.

Mas hoje, somos jovens demais para ligar para algo ínfimo como o vazio.

Borracha

– Eu queria te apagar. Só de saber da sua existência, eu me incomodo. Eu queria te apagar, mas não tenho uma borracha.
– Eu tenho. Mas queria um lápis, para desenhar um coração no lugar da pedra que você tem.
– Pedra… O que entende sobre pedra? Somos feitos de papel.
– Papel ganha de pedra, que ganha de tesoura, que ganha de papel. Mas não acho que ganho de nada, sou desenho, sou rabisco.
–  Se você é rabisco, como sabe que é rabisco? A gente não tem consciência, somos porta-voz de um autor por aí.
– Que droga, queria poder falar algo de verdade. Queria ser real.
– Será que somos menos reais por sermos criação? Quer dizer, até a realidade é uma criação.
– Você sabe que ele acabou de te fazer falar isso, né?
– Filho-da-puta.
(…)
– Eu acho que a gente tava brigando por alguma razão.
– Verdade. Mas não tem mais importância agora. Tudo me parece sem sentido.
– Tudo é.
– Queria uma borracha para me apagar.
– Queria um lápis para escrever umas respostas.
– Não importa. Até o tempo apaga rabiscos como nós. Ironicamente, o tempo é uma borracha eterna.
– Acho que entendi uma coisa. O autor tem medo do tempo. Ele quer algo que dure mais que si. A gente vai estar aqui depois que ele se for. Somos consciência, sim. Consciência dele.
– Hum, acho que ele tem inveja da gente.
– Definitivamente.
– Não quer mais uma borracha.
– Não quero mais um lápis.
– Vamos jogar papel, tesoura ou pedra?
– Claro.

Os Átomos

Eu só queria entender o porquê dos teus átomos atraírem os meus. Mas por compreensão, não entendo nem o meu cachorro, nem porque o céu é azul. Porém, quando ouço tua voz trêmula pelo telefone, sinto tua essência e entendo quem você é. Mesmo sem os olhos (meus e teus) enxergo fundo a alma (minha e tua).

No apartamento, o cão late, a torneira pinga e tudo é estática. Mas, meu bem, é só você chegar com teus zilhões de átomos para tudo ganhar tudo vida, e até meu cachorro se torna educado, usa o sanitário e ainda abaixa o assento (e você sempre me cobra por isso). Eu rio dos teus defeitos e você exalta minhas qualidades. A gente troca e acha graça na nossa bobagem. É, a gente sempre ri, mesmo que apareça uma barata voadora (você gritou e nós dois rimos de você).

Nesses momentos, eu só queria ficar assim, juntinho. Me aconselhando nos teus aconchegos, até anoitecer. Nunca falta carinho, nunca falta amor, mas nunca temos o “para sempre”. E é até melhor, sabemos. Porque, meu bem, que sensação maravilhosa é aquela quando você bate a porta e a saudade quase se esvai, ficamos cada um de um lado da porta, sentindo o que nos une e esperando que isso atravesse o tempo, porque a porta (e a minha vida) você já atravessou.

Só para te ideia, só por tua culpa, sou capaz de fazer rimas fáceis e comparações baratas. Aí você dá aquele sorriso bobo e tudo fica bem, porque tudo é de todo bem entre nossos átomos. E é tudo que tudo isso é. E no vácuo entre os átomos, meu bem, a gente preenche de amor.

Tá todo mundo nu.

Foi um caos generalizado. Primeiro, todos achavam que se passava de um brincadeira, aliás, brincadeira de muito mal gosto. Como o presidente da nação tinha falta de escrúpulo para aparecer sem camiseta em rede nacional?

Crianças, pro quarto. Já! – Esse foi o discurso de vários pais pelo país inteiro. Antes que as inocentes e puras crianças fossem para o escuro de seus quartos, o presidente pigarreou e disse:

“Senhoras e senhores da amada nação. Não tirem as crianças da sala. Venho aqui trazer-lhes um comunicado da mais suma importância. Por decreto presidencial, foi decidido que a partir de amanhã, ás 00:00, será proibido usar roupa nas ruas, nas casas, em qualquer lugar.  A indústria da moda, com seus paradigmas sobre a beleza, causou muitos danos na população. Os homens e mulheres que não conseguem se enquadrar nos padrões quase inalcançáveis da indústria, se tornaram ansiosos e descontaram a tristeza na comida. Esse boom no número de obesos mórbidos nos levou a tomar essa medida extrema. Eu mesmo com essa barriguinha – nessa hora ele se levantou um pouco a ponto de mostrar a barriga à câmera – me sentia péssimo e obrigado a passar horas na academia só para entrar numa calça 38. É claro que com as pessoas andando nuas na rua, aumentaremos o policiamento para garantir a integridade moral de todos. Esperamos que com essas medidas a alto estima das pessoas melhorem, afinal, nus somos expostos, e nada melhor para se sentir melhor do que ver que a grama do vizinho não é mais verde. Tenham todos uma boa noite.”

Dizendo isso, o presidente levantou-se e mostrou, em rede nacional, que estava levando a sério a proibição de andar vestido. Gritos estéricos surgiram nos quatro cantos do país. Continuar lendo Tá todo mundo nu.