Tá todo mundo nu.

Foi um caos generalizado. Primeiro, todos achavam que se passava de um brincadeira, aliás, brincadeira de muito mal gosto. Como o presidente da nação tinha falta de escrúpulo para aparecer sem camiseta em rede nacional?

Crianças, pro quarto. Já! – Esse foi o discurso de vários pais pelo país inteiro. Antes que as inocentes e puras crianças fossem para o escuro de seus quartos, o presidente pigarreou e disse:

“Senhoras e senhores da amada nação. Não tirem as crianças da sala. Venho aqui trazer-lhes um comunicado da mais suma importância. Por decreto presidencial, foi decidido que a partir de amanhã, ás 00:00, será proibido usar roupa nas ruas, nas casas, em qualquer lugar.  A indústria da moda, com seus paradigmas sobre a beleza, causou muitos danos na população. Os homens e mulheres que não conseguem se enquadrar nos padrões quase inalcançáveis da indústria, se tornaram ansiosos e descontaram a tristeza na comida. Esse boom no número de obesos mórbidos nos levou a tomar essa medida extrema. Eu mesmo com essa barriguinha – nessa hora ele se levantou um pouco a ponto de mostrar a barriga à câmera – me sentia péssimo e obrigado a passar horas na academia só para entrar numa calça 38. É claro que com as pessoas andando nuas na rua, aumentaremos o policiamento para garantir a integridade moral de todos. Esperamos que com essas medidas a alto estima das pessoas melhorem, afinal, nus somos expostos, e nada melhor para se sentir melhor do que ver que a grama do vizinho não é mais verde. Tenham todos uma boa noite.”

Dizendo isso, o presidente levantou-se e mostrou, em rede nacional, que estava levando a sério a proibição de andar vestido. Gritos estéricos surgiram nos quatro cantos do país.

O sol surgiu brilhante no dia seguinte. As pessoas tomaram banho, café-da-manhã, e foram verificar no calendário se o dia anterior tinha sido 1° de abril. Mas hoje era 7 de setembro e as fofocas pelo telefone não deixavam dúvida. O discurso do presidente não havia sido sonho. Mesmo assim, alguns riam de lembrar do dote presidencial, outros se benziam três vezes, mas ninguém saiu nu na rua. O que foi um grande erro.

Toda força armada da nação estava na rua pra se fazer cumprir a lei. Todos usando um ridículo cinto com encaixe para arma e cassetete. E nada mais. Primeiro, a população civil ficou surpresa. Afinal, não é todo dia que se vê uma cena dessa. Depois, a população civil ficou mais surpresa ainda. Todos (as) militares correram em direção a qualquer pessoa vestida e a obrigava a tirar a roupa. Alguns se despiam timidamente e colocavam a pasta ou a bolsa em frente ao orgão sexual. Outros lutavam contra todas as forças pra manter as roupas e nessa hora a força militar rasgava sem dó todos aqueles ternos italianos e pisava em bolsas Louis Vuitton. A moda se reduzia numa colcha de retalhos. Os que não aceitavam ficar nus se viam diante de uma ameaça. Ou ficam nus na rua, ou ficavam nus no xadrez; estranhamente, a possibilidade de ficar pelado numa cela minúscula com pessoas estranhas pareceu surtir o efeito esperado. Pouquíssimas pessoas foram presas.

O problema mesmo era com a imprensa. Desde manhã eles não falavam de outra coisa. Faziam cobertura nas ruas e eram despidos em rede nacional. Dentro de um famoso estúdio de televisão, um famoso âncora se revoltou com a presença policial no local e, ao se recusar ficar pelado, foi preso ao vivo. Nos programas de auditórios, vários PhDs sobre várias áreas debatiam sobre o quanto a lei era inconstitucional e absurda. Claro que com os militares no estúdio, todo almofadinha com PhD ficava com muita vergonha de estar nu e sua argumentação se tornava confusa e sem nexo.

Nas escolas, a situação era ainda pior. As crianças lá pelos seus 5, 6 anos não se importavam muito em ficar nuas e algumas achavam a situação toda até muito engraçada. De 7 em diante, houve confusão, constrangimento, crueldade e embaraço. Claro que tudo isso veio da parte das crianças, que não são nada mais do que um reflexo dos pais, mas sem a hipocrisia, já que isso só se aprende com um grande tempo de experiência em convívio social. Os professores, cria do sistema educacional do país, não foram atrás de seus “direitos”, lei e lei e falta de obediência as regras leva a anarquia, o que é o mesmo de caos. Os adolescentes, por sua vez, viram naquela situação a chance de ter uma revolução, algo contra lutar, já que sua geração tinha sido privada disso em vista da paz mundial, que funcionava pelo menos no Ocidente, ou seja, era realmente eficaz. Porém, sendo adolescentes como eram, os hormônios falaram mais alto e rapidamente aceitaram a lei e a ordem vigente do Estado. Isso sim era uma nação de princípios. Ordem e Progresso em primeiro lugar!

No final do primeiro dia da “Lei da nudez”, como ficou conhecida, havia um saldo baixo de prisões, mas muita revolta nas redes sociais. As pessoas voltaram à suas casas e trataram logo de usar roupas. Algumas, pelo menos.

O dia seguinte nasceu novo em folha. Pelo menos uma minoria estava cumprindo a lei, enquanto outra ainda era penalizada por usar roupas. Ao fim de uma semana, 90%  da população estava nua, embora toda essa situação ainda fosse muito constrangedora e contestada. Depois do primeiro mês, surgiram alguns protestos. As pessoas pintavam todo o corpo de tinta e iam as ruas. Porém, toda aquela concentração popular com pessoas peladas era muito constrangedora, era como um ônibus lotado, mas com todo mundo nu. A ideia logo perdeu adeptos e foi esquecida. Com dois meses de lei, a população percebeu que não tinha jeito. Tava todo mundo nu.

 Quando veio a quarta geração de pessoas desde a implantação da lei, já não era nada de mais andar nu. As pessoas só se atentavam a esse fato porque era ensinado na escola. Aquela lei havia mudado tudo.

Primeiro, as pessoas se tornaram pontuais. Ninguém mais se atrasava para um compromisso, já que não ficavam escolhedo roupas. A
economia cresceu assustadoramente, o turismo virou a principal renda do país. Todos os estrangeiros queriam ver que país era aquele que todo mundo andava nu. Deixaram de haver estupros e crimes sexuais, a nudez era tão explícita que se tornou normal e ninguém era tarado. A corrupção também diminuiu, já que não tinha mais cueca para se esconder dinheiro. As pessoas não gastavam dinheiro com roupa e investiam em bens duráveis. A população cresceu notóriamente e trouxe mão-de-obra suficiente para a indústria. Em vintes anos, o país alcançou a nota máxima no IDH. O presidente que começou tudo isso era considerado herói. Uma pena, ironia do destino, que esse singular chefe da nação tenha se enforcado com uma gravata. Virou mártire. Criou até gíria. Quando alguém morria, diziam que estava engravatado. A palavra “nu” deixou de existir, assim como a vida se tornara mais limpa e livre de hipocrisia. Não há máscara que resista a nudez da verdade.
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2 comentários sobre “Tá todo mundo nu.

  1. Olá tudo bem?
    Pesquisando as tags mais populares do WordPress acabei entrando no seu blog, claro que pelo título curioso do post. Muito legal o seu texto, parabéns pela criatividade!
    Abraço

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