Borracha

– Eu queria te apagar. Só de saber da sua existência, eu me incomodo. Eu queria te apagar, mas não tenho uma borracha.
– Eu tenho. Mas queria um lápis, para desenhar um coração no lugar da pedra que você tem.
– Pedra… O que entende sobre pedra? Somos feitos de papel.
– Papel ganha de pedra, que ganha de tesoura, que ganha de papel. Mas não acho que ganho de nada, sou desenho, sou rabisco.
–  Se você é rabisco, como sabe que é rabisco? A gente não tem consciência, somos porta-voz de um autor por aí.
– Que droga, queria poder falar algo de verdade. Queria ser real.
– Será que somos menos reais por sermos criação? Quer dizer, até a realidade é uma criação.
– Você sabe que ele acabou de te fazer falar isso, né?
– Filho-da-puta.
(…)
– Eu acho que a gente tava brigando por alguma razão.
– Verdade. Mas não tem mais importância agora. Tudo me parece sem sentido.
– Tudo é.
– Queria uma borracha para me apagar.
– Queria um lápis para escrever umas respostas.
– Não importa. Até o tempo apaga rabiscos como nós. Ironicamente, o tempo é uma borracha eterna.
– Acho que entendi uma coisa. O autor tem medo do tempo. Ele quer algo que dure mais que si. A gente vai estar aqui depois que ele se for. Somos consciência, sim. Consciência dele.
– Hum, acho que ele tem inveja da gente.
– Definitivamente.
– Não quer mais uma borracha.
– Não quero mais um lápis.
– Vamos jogar papel, tesoura ou pedra?
– Claro.
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