Sem-pre,ssa.

– Eu estava pensando sobre a Fragilidade dos vidros.

– Me conte.

(…)

– Eu sempre tenho um sorriso bobo no rosto.

– Sempre?

– Sempre que você sopra suas palavras no meus ouvidos.

– Sempre é tempo demais. Além do mais, já usamos muito essa palavra. Não seja repetitivo, meu bem.

– Talvez esse seja todo o meu problema.

– O que você quer dizer?

– Sempre tem algo que me incomoda. É que mesmo essas palavras de  amor – e você sabe que suas palavras são as melhores – me deixam meio indiferente.

– Não entendo, não vejo. Dá pra ser mais específico?

– Não. Esquece, é só um daqueles dias estranhos.

(….)

– Olha, castelos, independentes do que sejam feitos, são suscetíveis ao tempo, ao meio. Tudo acaba, tudo passa. Me dá uma angústia, ou uma felicidade, não sei ainda.

– Eu sei. Você não tá bem. Olha pra mim, as coisas não acabaram ainda, tá? A gente não passa pelo tempo, ele que passa pela gente, é verdade. E não adianta muito você ficar nessa inércia.

– Você tá certa, como quase sempre.

– “Sempre” de novo?

– Poxa, eu tinha usado essa palavra várias linhas atrás. Estou sendo repetitivo de novo? Que droga.

– Eu também fui repetitiva. Falei novamente de castelos. É que eles tem significado bem grande dentro de mim, você sabe.  É meio irresistível celebrar a nostalgia.

– Acho que não nos cabe mais falar por metáforas.

– Você acabou de citar André Pacheco?

– Já faz tempo, né? Um tempão que comecei com isso. Acho que também é irresistível para mim ficar num passado remoto que sempre parece melhor do que esse presente sufocante.

– Puxa, falando em sufocante, está realmente quente aqui.

– Esse calor me parece derreter as ideias.

– Isso foi uma metáfora?

– Não.

– Uau, realmente somos suscetíveis a tudo. É só a temperatura esquentar um pouco e a gente já fica tão agoniado que até minhas palavras de amor te deixam inquieto.

– Vai ver que é por isso que nos agarramos a qualquer coisa que pareça que vá durar mais que a gente. Somos tão frágeis.

– Aquele seu castelo de vidro vai durar mais que a gente?

– Se continuar intacto, vai sim. Mas o vento vai cuidar dele o transformar em areia.

– Castelos de areia, aiai. Olha só, as nuvens já vem aparecendo. Vai chuver.

– Vai lavar nosso tempo.

– Ou o tempo vai lavar nossa vida.

– Isso foi uma metáfora?

– Como sempre.

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