Arquivo mensal: abril 2012

Sabedoria Popular

Ouvi-los dizer que quem não tem cão, caça com gato. Por isso, o jeito foi me virar com meu bichano. Mas ele, esperto como é, sabe que, como dizem por aí, um dia é da caça e outro do caçador. Então ele me largou, mas tudo bem; antes só do que mal acompanhado. Fiquei mesmo perdido, num mato sem cachorro, sem gato e sem bússola.

Só não perdi a esperança porque ela é a última que morre e eu ainda tô vivo. Meu medo mesmo é que a luz no fim do túnel seja a do farol de um trem. Vai ver que se manter nos trilhos nem sempre dá certo.

Vi fumaça e era fogo, brinquei porque achei que não ia me queimar. Quis chamar meu pai, que é bombeiro, mas lembrei que em casa de ferreiro o espeto é de pau.

Então sentei e chorei, esperando que minha lágrima mole furasse essa pedra dura que tanta reluz e duvido que seja ouro. Quem sabe, seja só ouro de tolo.

Desperdício

Por favor, vê se apaga a luz ao sair. É que da última vez você a deixou ligada e eu acorde de madrugada com aquela claridade que me ardia os olhos.

E um pouco mais de atenção. Quando eu me levantei, a porta da geladeira estava aberta. E é só você que a ataca durante a noite. Eu nem consigo acreditar que você comeu todo o brigadeiro.

Ainda na cozinha, percebi que a torneira pingava. A torneira pingava e você sequer tinha lavada a louça. É um combinado, lembra? Eu cozinho, e você lava. Não faz cara feia. Somos só nós dois. Dois pratos, quatro talheres, dois copos, dois pesos e uma medida.

É claro que ninguém ligou. Você deixou o telefone fora do gancho. Ninguém deixou recado, mas eu te dou um agora: Quanta displicência! Vou mesmo ter que buscar tua cabeça na lua? Por favor, retorna de onde estiver e retorna minha ligação.

Fui tomar banho e olhe bem. O chuveiro também estava pingando. Só o ralo sabe o quanto de água se perdeu. Parando para pensar, recordo agora que tomamos banho juntos. Ok, cada um tem sua parcela de culpa. De qualquer forma, nada trás de volta a água desperdiçada.

Porque não têm desperdício maior do que nós dois. Moramos juntos, mas de que adianta se só temos presença e nunca estamos presentes? Pois estamos cômodos, no cômodo da sala. Nos acostumamos com essa inércia que nos preenche.

Acorda, meu bem. Me dê água quando eu tiver sede. Me dê carinho quando eu estiver carente. Não desperdice o meu amor. E acima de tudo: me ajude a pagar as contas de água, luz e telefone. Não cabe mais nenhum tipo de dívida na nossa relação.