Arquivo mensal: maio 2012

corpo de delito

A impotência é a causa de toda morte. Meu coração bate e eu não posso fazer nada, ele vai parar alguma hora. Sou impotente com meu próprio corpo, mente e espírito. E eu não posso fazer nada, porque é esse o princípio da impotência. Um suicida morre, ele não se mata, porque a causa de toda morte é a impotência. A vida está uma merda e não há nada que você possa fazer para mudar, e nem a morte muda isso. Afinal, ninguém sabe o que há do outro lado, nem se há um outro lado. Não temos informação, não temos como obter informação, não temos nada.

Sinto raiva, uma raiva imensa,  de não poder fazer nada, nem por mim ou por alguém. Sempre que tento, tudo foge do controle e todos quebram a cara. Aliás, a busca pelo controle, pelo poder, pelo amor, pela felicidade, é só mentira. Veja bem, não possuímos essas coisas, elas que nos possuem. Essa história de que o amor é cego? É porque o amor embriaga. Essa sensação de felicidade? É a sensação  de achar ter achado o tesouro no fim do arco-íris. A vida é um efeito placedo, afinal.

E quando minha raiva cessa por fim, vem o desespero – o que fazer quando não se pode fazer nada? Ah, isso me atormenta. Essa pergunta inquieta que não cansa de martelar no coração. Senti dor, de verdade. Sua tristeza estava ali, na minha frente, completamente exposta e crua, e eu não podia fazer absolutamente nada. As circunstâncias nunca estão a favor.

Sabe aquela música? Deixa a vida me levar, vida leva eu…                      ?

E existe alguma outra coisa a fazer? Como esquecer? Como esquecer o tormento que não se vai? Se deixar levar parece tão assustador, porque nós aprendemos a nos segurar numa ilusão que levamos a própria vida.

Pelo menos eu acho que finalmente descobri o contrário do amor. É a impotência, porque ela é a causa de toda morte.

A via láctea.

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Labirintismo

S.F. não quis obedecer e por isso logo se perdeu no labirinto do jardim. Achava lindas aquelas sebes que se erguiam aos céus e clamavam por uma coisa qualquer. S.F. não obedeceu e entrou no labirinto. Aviso logo que não era um labirinto bem labirístico daqueles de perder de vista e se perder a vista. Era pequeno e por isso mesmo era claustrofóbico. Parecia que as plantas roubavam o oxigênio do visitante para se manterem vivas. S.F entrou em um labirinto vivo. S.F entrou em um labirinto vivo para morrer. As curvas se curvavam para formar retas bem retilíneas que eram um nó e davam um nó na cabeça do visitante. Labirintos não são bons anfitriões. A pior parte de tudo é a monotonia. Tudo se parece igual em um labirinto. A partir de dado momento se torna uma tarefa bem chata essa de tentar achar a saída. Pausa. Pra quê se entra em um labirinto, se a única coisa a se fazer assim que entra é tentar sair? S.F não sabe a resposta. S.F. não sabe aonde está a saída. Despausa. Aqui vai um fato curioso sobre labirintos: Eles não têm saída. Só existem duas entradas; e acreditem em mim quando digo. Entradas não são feitas para algo sair. Labirintos não são feitos com saída. S.F está dentro. S.F. não sai. Talvez ele não queira, talvez não saiba. Mas quando começar a nevar ela mudará de ideia. Pausa. Não, nada de pausa. O labirinto não permite paradas. Quando o desespero bate, se corre, se corre se corre se acelera. Não se para para dizer alô a fome, ao frio, a sede. S.F foi mal-educado, não falou com seus companheiros de cela. A fome, o frio, a sede são gente de bem, que vive em qualquer gente. Não custa se fazer presente pra quem nos acompanha. Era uma vez S.F. Era uma vez um labirinto. O labirinto continua pra sempre porque S.F. que é efêmero, que é ínfimo. S.F. desobedeceu ao entrar no labirinto. S.F se perdeu ao não sabe o que queria. S.F se fudeu e ainda assim a vida corre. E eu sei disso porque eu sou o labirinto.

Die Verwandlung

Ao som de: los hermanos

Algo me acometeu, me acorrentou contra maré. E eu tenho a leve impressão que o culpado, o réu, o autor desse ato grotesco, foi eu mesmo. Mas me escondi tão bem de mim que já não me acho. “Ei, covarde, apareça aqui seu farsante”. E se sou corajoso o bastante para me enfrentar de peito aberto, como sou tão covarde a ponto de me esconder de mim? Só posso concluir que sou dois. Isso na verdade é só uma desculpa, daquelas bem esfarrapadas. Porque colocando a culpa em um eu obscuro e fora de controle, me livro de toda a vergonha de uma culpa tão tosca.

Sim, tosca. É uma culpa tão vergonhosa que nem ouso pronunciar em voz alta. Nem em um sussurro baixo ao pé do ouvido. Ouso escrever? Não, não é questão de ousar, nem de ter coragem, se assim soar melhor. É que não sei se devo. Já é difícil me ouvir dizer. Além disso, nem tenho certeza da admissão. É uma verdade tão nova que nem é verdade ainda. E é medonha, horrorosamente medonha. Mas foi o que percebi, não pelos sentidos nem pela razão. Foi instinto, e conhecimento prévio – não seriam a mesma coisa?

A feia verdade que descobri é que estou me impedindo de ser feliz.

Eu, logo eu, o maior interessado na minha felicidade!  É tudo sobre mim, sempre é tudo sobre mim. Porque sou a única coisa que conheço na face dessa vida nublada. Só sei ser eu, só sei sentir o que sinto. Não há a menor possibilidade de um dia fugir de mim. E não é por falta de tentativa, é fator biológico mesmo.

Mas eu me impeço de ser feliz! Acordo de sonhos inquietos e não me encontro em mim. Logo eu, meu único porto seguro na ilusão da realidade. não me reconheço. Eu morri, ou melhor, sequer existir alguma vez. Ou pior, sequer existir. E é tão aterrador, é tanto desespero, tanta dor inexistente, que não me resta nada a fazer a não ser relatar minha desumanização.

Me tornei um fantasma de uma possibilidade que nunca ocorreu. Sou a formiga que você esmaga, sou o carbono que você expira, sou seu eu secreto, o caos e a salvação. Não me queira por perto e não viva sem mim.