Arquivo mensal: outubro 2012

epitáfio

Éramos nós, dois perdidos, gente pequena metida a mexer com poesia, sempre querendo prender a realidade em papéis ou em bytes. Éramos desgraçados, levávamos aquele parasita que se escondia no funda da alma – bem nos confins dela – e ele sempre nos dava aquele soco no estômago quando menos esperávamos.  Éramos fúteis; cobríamos nossos interiores cheios de mazelas e segredos com bobagens da vida moderna, com amores mal-amados e com fumaça de cigarro. Éramos assim, o próprio rosto da dificuldade de se reconstruir depois de tanta automutilação. Éramos a própria face do azedume da vida, da irônica existência, da estranheza de sermos humanos.

E mesmo assim, fomos felizes.

Cansados de vida, pegamos nossas mochilas e de súbito decidimos sair por aí, tentando achar um prédio que leva o nome de um cantor bacana da nossa cidade. Dentro daquelas paredes, subimos escadas em espirais que levaram a lugares escondidos e cheio de antiguidades, andamos como protagonistas de um filme, como quem descobre um tesouro no quintal de casa.

Mas todo carnaval tem seu fim e o nosso tempo passava. A realidade gritava do lado de fora das paredes do venho prédio. Demos adeus e seguimos.

E quem diria que daríamos de cara com uma clareira do tempo, cadeia das horas? Quem podia dizer que no meio de um avião desenhado há 52 anos faríamos nosso ninho? Ficamos sem palavras diante daquele clima que invadiu o ar. Sentamos para contemplar a vã existência universal.  E no meio de tanta epifania, sorrateiramente, como uma onça a atacar a presa, eis que surge a felicidade. Ficamos surpresos, mas a recebemos de braços abertos, a abraçamos e demos tapinhas em suas costas. Felicidade foi tratada como se há muito nos conhecêssemos, como se nossos destinos tivessem sidos traçados na maternidade.

Depois de não-sei-quanto tempo, felicidade nos disse que já era hora de ir. Mas prometeu nos acompanhar para aonde quer que fôssemos, disse que estaria no céu, para ter a certeza de não nos perder de vista. Eu e você, então, fizemos também uma promessa. Um dia haveríamos de escrever sobre esse encontro, porque nossa memória é capaz de esquecer, de decair.

Só escrevo agora, pois encontrei felicidade novamente, mas ela está pálida, está diferente. Veio do acômodo e não plenitude. Assim como você, eu também olho para o céu em busca do que já tivemos. Mas nessa época do ano, as nuvens tomam conta do horizonte e embaçam minha visão. Mas eu sei que em algum lugar, bem acima das nuvens, bem acima das nossas cabeças, bem acima da nossa vã filosofia, o céu da felicidade nos acompanha e nos espera.

Sei que os sábios dizem que felicidade está dentro da gente, mas algo naquele lugar a atrai para perto de gente como nós. Algum dia haveremos de contemplar o mar de Brasília e ver a plenitude que lá se esconde a cuidar de nós.

Descobrimos todas as respostas e perguntas do universo, compreendemos o sentido da vida, definimos felicidade. Foi só por alguns instantes, mas agora já podemos morrer de olhos bem fechados.

Que linha liga o teu coração ao meu?

Nunca mais choveu depois de você. Isso eu li num texto de um jornal literário há um tempo atrás. Lembro que naquele dia eu não pensava em nós, nem teu nome veio à cabeça. Já era tarde e eu andava sozinho pelas quadras da Asa Sul. A noite estava bonita e eu tinha acabado de assistir “Melancolia” no cinebrasília. O caminho até a plataforma subterrânea foi cheio de pedras no caminho, cheio de poesia incompleta. No fim da estação do metrô, vi um casal de lésbicas que faziam uma filmagem de casal, daquelas coisas bonitinhas que a gente vê no cinema. Parecia mesmo um filme, só tinha nós três. Eu, um casal de garotas e um jornal. Mas, seu moço, isso parece muito poético, tem certeza que foi assim? Sim, sim, foi desse jeito. Sentei encostado num pilar e esperei o trem. As músicas no celular estavam no aleatório. Começou a tocar “Us” da Regina Spektor, aquela música marota que passa no começo de “500 days of summer”. Meu bem, quero muito mais do que 500 dias de nós, sejam eles de verão, de inverno, de alegria… Só não sejam de saudade. Já tivemos o suficiente disso por todo a vida.

Nunca mais choveu depois de você. Foi assim que me senti quando penso que te mandei embora. Que bom que você ignorou o que eu sentia na hora. É inegável que você me entende mais que qualquer um. Todo esse tempo que estivemos distantes, constantemente eu sentia um vazio que só se preenchia nos teus abraços, aqueles que eu te dava em silêncio, quando de repente eu te via nos corredores e já não mais te achava dentro de mim. Foram tempos de trevas, esses.

Nunca mais choveu depois de você. Nunca mais choveu em mim aquela sensação de estar sozinho no mundo. Obrigado por ter ficado por perto mesmo quanto te gritei pra ir pra longe. Corro agora o risco de estar sendo precipitado agora, mas se nunca tentar nunca vou saber. Arrisco dizer: você é o grande amor da minha vida. Certamente um divisor de águas. E mesmo que eu esteja errado, isso não tira mérito nenhum da nossa história.

Da mesma forma que Pandora abriu a caixa, tu me abristes o amor.