Arquivo mensal: novembro 2012

sinto muito blues

E quem… E quem é que sabe de alguma coisa… QUEM É QUE SABE DE ALGUMA COISA NESSE MUNDO? Desculpem o tom amargo da minha voz, desculpem o tremor em minhas mãos, estou nervosa e preciso fumar uns dois cigarros antes de continuar, esperem só uns instantes.

(…)

Meu problema não é a Sofia, mas ah! como eu gostaria que ela fosse meu problema. O problema sou eu mesma. Droga, droga, droga! Parece que dois cigarros não foram suficientes.

Eu tô cansada, tô cansada do meu trabalho que me faz usar salto e terninho, tô cansada de chegar em casa e respirar desaprovação, tô cansada da incerteza da vida e do que a vida em si trás. Me deem um tempo. Eu sinto que vou explodir e nem ao menos estou falando com coerência.

(a gente espera) (…)

Voltei, mas não pra ficar. É que nada fica mesmo, todo carnaval tem seu fim e todo mundo já tá cego de saber disso. Mas não, mesmo assim a gente insiste que com a gente vai ser diferente, que a gente consegue enfrentar o mundo e ser feliz. *pausa para dar uma tragada*. Sabe o que mais me incomoda? É que eu não me importei de dizer adeus. Entrei na sua vida sem bater e fui embora sem fechar a porta. É com grande pesar que digo que não houve pesar e me sinto leve como uma pena.

Não acredita? Mas é isso mesmo. Lá no fundo, bem escondido, eu já sabia que ia ser assim. Que uma hora eu a desistir de tentar e admitir logo que não ia dar certo porque eu não tinha mais saco pra fazer dar certo. Sou uma mulher ocupada, sabem? Claro que não sabem. Vocês são jovens, não sabem de nada. Acham que se vive de amor e esquecem que tem contas a pagar, rotina pra cumprir, e suor pra derramar.

Esse quase-amor de migalhas, com dias espaçados e poucas horas pra aproveitar… isso não é vida não. Essa história de se esconder em quatro paredes e sorrir amarelo quando a tia vem lá da puta-que-pariu perguntar quando virão os “namoradinhos” já me encheu. Simplesmente não quero mais saber.

Tudo bem, eu sei que disse que a tentar, sem medo, que ia fazer de tudo pras coisas darem certo, mas chega uma hora que cansa, entendem? Não? Vocês não sabem de nada mesmo. Eu estou desesperada, ando de um lado pro outro, passo a mão nos cabelos, fumo um cigarro atrás do outro, tremo as mãos e derrubo as chaves. E eu estou desesperada… Já disse isso? Sinto muito.

Sinto muito se você nem se importou muito nosso término, porque nem deu tempo pra se acostumar com essa sensação de segurança que ter outro alguém proporciona.

Sinto muito se por algum momento não fui perfeita aos seus olhos. Eu quero ser a memória mais doce que você tem sobre o que é o amor.

Sinto muito se o que falo é tão desordenado, é que ainda estou uma bagunça e na verdade sempre fui, mas eu me escondi por trás dos meus óculos escuros e da minha cegueira fingida.

Pois na verdade sempre enxerguei muito bem, tão bem que nunca me deixava tentar pra valer a arte de fazer parte de alguém. Eu vejo aqueles furos que me dizem as mil e uma razões pela qual os romances baratos acabam. E meu deus, por que diabos eu sempre quis o sempre e nunca me contentei com o que me fizesse contente?

Foram as histórias que mamãe me contava antes de dormir. “E viveram felizes para sempre” era assim que terminavam. Foram os filmes que insistiram que não existe essa tal felicidade sem perda irreparável. Foram os livros a me deixar pessimista, indo a fundo nas pessoas sem pedir licença. E eu, pessoa frágil e cheia de nóias, me deixei consumir.

Eu sinto muito, sinto muito por mim mesma. Por ter fracassado de novo. Por sentir esse desejo de desistir de tudo que sonhei. Mas eu já estou ficando melhor, já estou melhorando. É que… é só que… eu percebi que estou sempre a pedir desculpas.

Eu sinto pelo muito.

Eu sinto muito por fazer muito de pouco.

Eu sinto muito por sentir.

Eu sinto muito por sentir muito.

Vou pegar meu banquinho e sair pianinho. Não quero aplausos no final. O silêncio me conforta. Eu sei que depois que eu dormir… eu sei que eventualmente… esquece, sei nada não. Mas tá tudo bem. O show já acabou, minha cartela de cigarro também acabou, até minha tristeza acabou. Só sobrou esse estado completo de perplexidade.

Estou perplexa com tantas desculpas que dou para evitar viver. Tá na hora de fechar as cortinas. Tá na hora de dizer adeus e já passou da hora de transferir minha vida futura pra vida presente. Sinto que já estou velha e nem comecei nada ainda. Me deem mais um tempo. Vou embora, vou viver, já que não tenho outra opção.

Sinto muito por não ter entendido antes. Sinto muito por desistir achando que estava perdendo meu tempo quando na verdade eu perdia meu tempo me esquivando de mim mesma.

Hoje, quando eu chegar em casa, vou direto ao espelho pra me receber com graça e de braços abertos.

“Seja bem-vinda”.

PIAninho

Silêncio, silêncio, por favor. Vocês fazem muito barulho. Até quando pensam. Esses óculos escuros aqui? Não é charme não. É que eu sou cega mesmo. Só enxergo com os ouvidos. Por isso, fiquem bem pianinhos aí enquanto eu conto minha história. Vou pegar meu banquinho, esperam um instante.

Vai rolar aquela piadinha, eu sei, mas vou usar essa expressão mesmo assim: eu nunca vi que ela estava ali. Se vi, ignorei. É o seguinte: a tal garota estava de olho naquela minha amiga que estava (e está) comprometida. Então é claro que ninguém gostava da tal Sofia, sempre tentando acabar com o casal 20 da escola.

Sinto muito, expressei-me mal. Do jeito que falei, até parece que a tal Sofia era um personagem sem sal da novela Malhação, aquela pseudo-vilã mimada e afim do macho-alfa. Não, não. Sofia era meio calada e baixava os olhos ao falar com quem gostava. Daquele jeito meio sem-jeito que eu aprendi a gostar.

Sou uma conquistadora barata, sei que mesmo cega, minha cara passa aquela malandragem de safadeza travestida de carinho inocente. Sei que todo meu romantismo cheira a perfume francês, mas o cigarro esconde esse cheiro. Eu solto um pouco da minha alma cada vez que expiro a fumaça. E não resisti aos meus instintos animais quando te senti sua presença, seu cheiro forte que nada combinava com o olhar frágil.

PARÊNTESESsei que baixava os olhos ao falar com quem gostava porque ao fazer isso, a pessoa contrai a garganta e a voz sai escondida da mente que reluta em verbalizarPARARÊNTESES

Ah, Sofia. Nosso romance foi proibido desde a maternidade. Nossas famílias, nossos amigos, nossos desafetos. O casal 20 que tanto brigou por sua culpa não concordava que eu fosse me relacionar logo com você. O único que me entendeu foi aquele meu amigo, cego também, vejam que ironia. O único a ver além do que se vê.

Ora, não dizem que o amor é exercício, não dizem que se aprende a amar? Pois então, quis tentar mais uma vez, dessa vez sem medo. Entrar sem bater na sua vida. Quando resolvi te conquistar, eu tinha deixado pra trás um outro alguém. E foi por falta de tentativa da parte dela, relutando em deixar pra trás um outro alguém. Como vocês podem ver (até eu que sou cega vejo isso) era um ciclo de abandono, de desapego, de largar e recomeçar pra ir embora novamente. Você, Sofia, você estava ali, abandonada e eu, Sofia, eu estava ali abandonada. Dois corações solitários podem andar juntos. Não podem?

Os meus amigos dizem que não sabem mais quem eu sou. Dizem que eu estou cega (!), que isso é só medo de ficar sozinha outra vez. PAUSAPAUSARESPIRAFUNDO. Vai saber, eu não quero saber disso não.

Quero só ficar aqui, enrolando teus cabelos no meus, cantando no seu ouvidinho e te vendo com minha mãos BOBAS, fazendo planos pro futuro, porque afinal, sonhar não faz a ninguém. A gente se esforça, sabe, se esforça pra ter um futuro afinal. Ao invés de esperar o amor vir numa carruagem, fazendo uma entrada triunfal na nossa vida, a gente vai construindo-o aos poucos, quando dá e como dá. E isso é divertido, é mais real e menos roteirizado. É incrível beijar teus lábios e sentir gosto de realidade, gosto do meu esforço e suor que levou àquele momento. Seu também, é claro. Nosso futuro amor é uma via de mão-dupla.

Já perdi meu cão-guia no bilhar. Você sabe que sozinha já não posso mais seguir. Achava que em terra de cego, quem tem olho nunca é visto. Mas ainda bem que nos vimos mutuamente. Meus olhos sem cor já começam a ganhar vida.

500 dias de clichê, 500 curingas num baralho.

Eu tenho certeza que você vai pensar duas vezes antes de acreditar no que conto. E até deve. Eu mesmo não consigo entender como a realidade pôde ser tão clichê. Onde está o diretor a fazer da minha vida luz, câmera, ação? E quem é esse roteirista tão sem criatividade? Fez um retalho de livros, filmes, músicas e acha que não percebo que já li, vi e ouvi tudo isso.

Mas o fato (ou cena) é que, por ironia do destino (ou do roteirista) fui obrigado a me sentar ao lado do motorista na van escolar. Segurava aquela playlist que ganhei de você e ela chamava atenção de todo mundo. Até que inesperadamente o motorista diz pra mim:

– Thiago, você quer colocar o CD pra ouvir?

É preciso uma pausa aqui. Para fins puramente estatísticos, devo dizer que o referido motorista é um sádico. Justamente por minha vida ter virado um filme, mudaram seu personagem, única explicação para tal comportamento inesperado. Mesmo achando estranho, aceitei de bom grado a oferta. Coloquei o CD. Vi-lo sendo engolido pelo rádio e indo parar dentro da van. Prendi a respiração para ouvir as primeiras notas. Elas vieram como uma mão a acariciar o rosto, vieram pra velar meu sono, me colocar pra dormir.

O garoto ao lado desceu e me deixou a vontade para colocar a cabeça para fora da janela e senti o vento bater no rosto, ouvindo a playlist no rádio, acompanhado de estranhos que nada entendiam o que eu sentia, eu não posso deixar de ser clichê e dizer que me senti infinito. Daí que começou a tocar “O Mais Clichê”. Tô falando sério.

Para completar, hoje de manhã eu saia na chuva (veja bem!) e andando na rua encontro um quatro de espadas. Uma carta de baralho.  A playlist tem o nome de joker por causa de um livro sobre cartas e curingas, sobre maldições e destino.

Tem alguém fazendo da minha vida um filme, já disse. Então, vamos lá. Senta aqui pra ver a continuação.

Por favor, menina, não foge não. Vou ser sincero e isso assusta, eu sei. É que eu começo a me apaixonar pela ideia de um dia casar contigo, ter dois filhos, sentar na beira do lago pra ver o pôr-do-sol.  Ter uma vida assim, dessas que ninguém acredita, dessas que a gente só vê em filme. Ser feliz pela tranquilidade de uma vida que acaba em duas horas e meia.

Vamos, vamos! Peguemos uma câmera. Temos que gravar tudo. Ninguém acredita se a gente contar. Vão dizer que o clichê é fantasia. Pois eu digo que preferi viver assim, juntinho, numa vida que já foi tanto imitada pela arte. Todo mundo quer sonhar e só se recusa a ver a beleza da fotografia da vida quem  acha que não é protagonista da própria história.