Arquivo mensal: dezembro 2012

A FALTA QUE ELE ME FAZ

 era bem sabido que eu iria ruminar todas as palavras todos aqueles gestos e tudo isso ficaria nítido na minha mente com armazenamento gigantesco digno de computador da NASA. Mas pela primeira vez eu não me impedi de refletir de pensar de revisar. Não é um trabalho agradável mas pensei por outro lado que já que não conseguia evitar eu poderia fazer disso uma forma de superar ou de diminuir a dor.

Sim porque dói. E eu me assusto bastante. Perdi o sono por duas noites simplesmente não consegui dormir. Ficava com os olhinhos no escuro olhando pro teto olhinhos apertados de coração apertado também. E eu pensava por quê meu deus por quê? E eu pensava que existe coisa muito pior nesse mundo mas isso não me acalmava de fato me deixava ainda mais impressionado e quem sabe eufórico de saber que alguém podia me afetar tanto assim.

E nessas horas não posso ficar no ostracismo tenho que me forçar a fazer algo ao invés de ficar sem fazer nada. E sabe o que eu percebi? Que tudo perdeu um pouco de cor um pouco de graça. É tão irônico que um dia eu o tivesse chamado de homem-cinza.  Mas todo mundo sabe que até o cinza tem cinquenta tons. A vida não é preto no branco embora agora me pareça em preto e branco.

É de deixar a vida no mudo. De que adianta conversar se no fim eu quero as coisas do meu jeito? Aí o jeito é esperar e se contentar que ele tá feliz porque meu deus eu nunca supriria a felicidade dele em razão da minha. O jeito é deixar tudo aqui em bits e bytes e não na minha cabeça acho que preciso dela.

É de me deixar feliz e cego. É de resumir o mundo a minha casa. É de ter vontade e faltar ânimo. É de achar que isso não acaba e saber que tudo é efêmero. Essa é a falta que ele me causa. Faltam vírgulas e sobram pontos finais.

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grand finale

com dois barcos.

A última impressão é a que fica. É por isso que toda despedida tem que ter festa, bolo e brigadeiro, ou briga, babado e confusão. Um grande evento para comemorar o fim do ensino médio. Um a um os alunos sobem no palco improvisado. Como sempre, o áudio está péssimo, os instrumentos se sobrepõem às vozes e a baderna de uns se mistura com o desânimo da maioria. Tudo é festa, as cores de cada turma estampadas nos rostos, nos braços, nas caras pintadas.

Nessa hora, eu me pergunto o que estou fazendo. Ando de cá pra lá, fico com qual e tal, canto aquela mesma musiquinha de colégio que sempre toca na minha escola (ohh anna júliaaaaa ahhh). Eu me divirto, até. Não sinto o tão comentado fim de que todos comentam até que aquela garota, até então perdida na multidão, chega junto pra se despedir de mim. Ela sabe que em breve eu não terei mais tempo de vê-la com regularidade. Ela chora e eu seguro sua mão. É interessante que nesse momento estava tocando “Por Enquanto” e eu repeti baixinho no ouvido dela: estamos indo de volta pra casa.

Foi nessa hora que senti uma paz imensa, tão grande que sufocou toda a incerteza do futuro. Ela disse que eu conseguiria afinal. Eu acredito nela.

No palco agora, a música gritava nos meus ouvidos “O QUE VOCÊ QUER DE MIM?”. Olhei o rosto dos quase 500 alunos e me perguntava se cada um dele tinha uma resposta pra tal pergunta. O que isso significava pra cada um? E o que significava pra mim? “Ei, pega leve, o que você quer de mim?” Poxa, seu moço, não precisava pegar pesado. Não sei responder, me de um tempo, ok? Não sou de ferro, sou só de carne e osso, erros e acertos.

E tão de repente quanto tudo vem, tudo vai. As fitas ficam caídas no chão, o silêncio invade a quadra antes tomada pelos gritos, os meninos correm para a piscina, o professor tenta impedir e sai correndo no meio da multidão. Derruba uma garota e ela levanta com o sangue escorrendo pelo nariz. O resto dos alunos vão embora de forma rápida. Eu fico pra trás, fico esperando seu moço; ele faz um pedido de casamento no meio do corredor, não há mais ninguém, mas eu sei que não foi pra mim; fico até mal, mas não levo a sério. O portão fecha quando estávamos prestes a passar. Damos a volta para não andar em círculos. E mal estamos livres da escola, ele sai correndo sem se despedir. De novo eu me senti mal, e de novo deixei pra lá.

Fui andar, já era muita noite, e sozinho na Ceilândia, com a mochila nas costas, sai pelo meu caminho. Por alguma estranha coincidência, era aniversário de alguma coisa do PT e eles queimavam fogos de artifício. Eu estava sozinho, e os fogos explodiam para mim. Eu estava sozinho, e não assim que se morre, afinal? É hora de andar com as próprias pernas, fazer valer o caminho percorrido até aquele momento. Chegou o grand finale. Mas só eu estava lá para ver os fogos. Só eu estive lá o tempo todo.

Ouvi dizer que essa sensação passa, e é verdade que já atenuou. A gente se acostuma com qualquer coisa, mas se me perguntar, admito. Eu preferia não ter que me adaptar, eu preferiria me acomodar e aceitar o que vem como lucro. Mas acho que sou muito bom pra isso. Sonhar alto é risco, mas a vista é incrível.