Escreve-se nome no grão de arroz

E logo me ocorreu o porquê alguém gostaria de ter seu nome gravado num grão de arroz. a dúvida me foi tão pertinente que tive que parar meu deslocamento e encarar aquela situação, literalmente.

Era um suporte de madeira com aspecto mofado, era um banner despotado de sol que se jogava do alto do suporte, era uma tigela de arroz e instrumentos de fina espessura, era um homem com fineza de fome e manchas solares.

Era a paisagem suburbana, era o cerrado, e todos no cerrado são calangos. De um jeito ou de outro com peles casca-dura e suando na testa e por baixo de roupas, exalando o cheiro pela cidade e liberando o animalesco pelos poros.

O sol ameaçava despencar sobre a minha cabeça, as axilas iam se banhando e eu ali, embebedado de perplexidade. Quando finalmente sai do meu estado de naturalismo, vi as pessoas indo de lá pra cá, andando em círculos e infinitamente; sempre há algum que vai sempre há alguém que vem. Sem encontrar um ponto fixo, acabamos todos indo parar de definitivo em baixo da terra.

Fosse culpa dessas ideias talvez que acabei superando todos os desconfortos biológicos ( calor, suor, fome, vontade de urinar etc) e tive uma epifania, ali mesmo, no meio do enxame humano.

Era um milagre, a mais pura beleza que habitava nessa terra de areia e pedra. De se emocionar, e meu Deus, juro que ali rolou uma lágrima. A lágrima logo evaporou e dela só sobrou o sal e a emoção catalisadora que a disparou. Enchi meu peito de ar e me preparei para o impacto do primeiro passo. Sai atravessando a multidão que não via, que não podia perceber. Era o olho do furação, e o furação era a vida nos arrastando para todos lados, puxando pela orelha e jogando na tormenta e nessa confusão aquele homem-calango se especializara em escrever em grãos de arroz.

Não, não, eu sei, é verdade, isso de nada é prático. E a beleza estava ali mesmo, na falta de utilidade, no mero efeito placebo que exercia em mim.

Enquanto houver pessoas a escrever nos grãos de arroz, há esperança em toda humanidade, ouso dizer.

Fui pura metáfora: Atravessei a multidão como quem atravessa a barreira da cegueira. E veja bem que poesia: De cego, o homem do arroz não era nada. Tanta boa visão que escrevia com letras minúsculas em matéria orgânica que alimenta os povos.

Coloquei o grão de arroz devidamente nomeado em volta do meu pescoço. Vi minha própria identidade através do vidro em que o arroz repousava.

E quem repousava já era eu. Senti-me a pessoa mais especial do mundo, mesmo sabendo que era só mais um grão de arroz, de areia, de água do mar. E tem problema não. Já tinha a prova que até o ínfimo tem suficiente importância para ser nomeado.

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