Arquivo mensal: julho 2014

Com tudo exposto nas mãos

(sem floreios literários)

Ontem mesmo eu disse em voz alta os medos que ela não teve coragem de admitir, e meus pecados foram revelados por mim, mas só porque eu queria provar um argumento e isso era mais importante que meu orgulho. Voltei pra casa com um pensamento na cabeça: algumas palavras, de fato, travam na garganta e não descem nem como o café nem com o cigarro.

E por isso a gente anota recados na geladeira, em post-it, no guardanapo daquele bar. A palavra escrita é menos agressiva que a palavra falada.
Hoje ele disse: olha nos meus olhos. São sempre os olhos, não são? A janela da alma, a sensibilidade exposta, e eu só pensava que no dia-a-dia, aquela exposição é um crime. Não, não, eu posso me expor porque os problemas que chegam na minha mesa não permitem, porque sempre alguém está pior do que eu, porque é uma fraqueza se expor. Homem não chora.

Ironia essa que nascemos chorando, e se possível, morrendo. Chora não, eles dizem, calma, eles dizem. Vai passar, é o que eles dizem. É feio deixar os outros desconfortáveis com o seu sofrimento.

Mas daí eu me pergunto: se eu não sofrer por mim, quem vai? Dane-se se os problemas do mundo são maiores que os meus. O mundo não vai derramar as minhas lágrimas.

Na verdade, ele vai secando. Secando as vontades, as ideologias, a energia. Daí a gente se agarra à alguma coisa. E não há nada de errado nisso. Estamos todos aqui nesse mesmo planeta. Não faz sentido entender que a vida é solidão.

Vai ver que é por isso que a exposição seja reprimida. Ela permite a criação de um laço mais profundo. E nem sempre isso é um desejo. Se a gente vive sem julgar aquilo que queremos, deixamos isso passar batido.

A batida nos atinge.