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Pequena Estória

Os dois se amavam, é claro que se amavam.

Souberam disso no momento em que disseram “eu te amo”.

A poeira já cobriu essas palavras há tempos.

Eles se amaram, é claro que se amaram.

Eles ainda dizem “eu te amo”, mesmo sem o brilho de outrora.

Vai ver é porque agora não querem dar o braço a torcer.

Vão se amar pra sempre, ainda que não se gostem mais.

O príncipe de xadrez no lustroso metrô da plebe

Era uma vez – sim, era uma vez – (porque o que era já não é, não é mesmo?)

E daí você pergunta: Mas moço, pra quê começar com era uma vez se você repudia finais felizes? Vamos deixar a resposta pro final (quem acertar ganha prêmio).

Dizem que toda boa história tem que ter um amor sofrido. Mas isso eu não entendo. Sempre me interessei pelas firulas da alma e as profundidades do ser, mas me disseram que era muito fútil e que deveria mesmo investir num grande amor fracassado. Falaram que eles trazem dignidade à essa terna idade. E como eu gosto de ter honra, decidir sofrer de amor. Primeiro passo:

Um cenário clichê.

O metrô nem demora a chegar, mas logo que desci as escadas – por favor, imagine os cortes de câmera e uma fotografia bem vintage – me apaixonei à primeira vista – Ahhhhhh. Aqui vai uma nota mental: Muito cuidado ao imaginar o príncipe encantado desse conto de fadas. Ele não é lá essas coisas. Só estou avisando.

Já sei, você está com dúvida de novo, diz aí. Moço, isso é mesmo um conto de fadas? Vou te responder com outra pergunta: Isso é mesmo vida real? Tempo na tela, tic tac, tic tac.

Daí que o príncipe encantado vai embora de metrô porque eu fiquei contando o tempo ao invés de ir chamá-lo pro baile.

*BOOM*

Eis que surge o bruxo que irá me causar problemas para alcançar o verdadeiro amor. Ele me lança um feitiço e já começa a surtir efeito:

Ora, ora. Que desgosto do meu coração. Por que esse gosto? Por que esse amar?  E por que logo a ele, garoto tão medíocre que usa sempre a MESMA BLUSA XADREZ? Vem o destino e já esfrega na minha cara que ele já encontrou seu amor, sua alma fragmentada. Já é feliz por causa de outro alguém, ao que eu já sofro por causa de outro alguém. E logo vem aquela vontade de dizer, não, não vou tomar o mesmo vagão que você, mas eis que você já embarcou ao meu lado e conhece os meus amigos e me deixa bobo, porque já fui bobo pra começar isso de qualquer maneira. E quando eu começo a ficar feliz – afinal estou alcançando meu objetivo (sofrer de amor) – acontece um plot twist que muda tomo o rumo da minha estória épica.

O bruxo era o príncipe, quer dizer, o príncipe é um sapo, quer dizer, o bruxo e o príncipe são a mesma pessoa.

*BOOM AGAIN*

Logo quando eu estava bem perto de sentir o sofrimento honrado que é sofrer de amor, eu me deparo com a decepção do mais do mesmo.

É difícil sofrer quando as pessoas são só pessoas. Acho que tem gente que se dá tão mal no amor porque ele é muito humano (cheio de buracos e falhas).

E meu conto de fadas termina assim, sem sal, porque eu consegui sofrer por algo tão pequeno quanto eu.

Ainda tô devendo uma resposta, mas desisto de tentar encontrar uma resposta. Se você faz muita questão mesmo disso, vá procurar por si mesmo. Acho que já nem sou mais desse planeta.

Obs: Para sugestões de fins melhores, por favor, me mande um email.

Obs²: A gordinha, imagreceu. A feisoza ficou bonitas. E eu ainda não consegui entender esses heartbreak de adolescentes.

Borracha

– Eu queria te apagar. Só de saber da sua existência, eu me incomodo. Eu queria te apagar, mas não tenho uma borracha.
– Eu tenho. Mas queria um lápis, para desenhar um coração no lugar da pedra que você tem.
– Pedra… O que entende sobre pedra? Somos feitos de papel.
– Papel ganha de pedra, que ganha de tesoura, que ganha de papel. Mas não acho que ganho de nada, sou desenho, sou rabisco.
–  Se você é rabisco, como sabe que é rabisco? A gente não tem consciência, somos porta-voz de um autor por aí.
– Que droga, queria poder falar algo de verdade. Queria ser real.
– Será que somos menos reais por sermos criação? Quer dizer, até a realidade é uma criação.
– Você sabe que ele acabou de te fazer falar isso, né?
– Filho-da-puta.
(…)
– Eu acho que a gente tava brigando por alguma razão.
– Verdade. Mas não tem mais importância agora. Tudo me parece sem sentido.
– Tudo é.
– Queria uma borracha para me apagar.
– Queria um lápis para escrever umas respostas.
– Não importa. Até o tempo apaga rabiscos como nós. Ironicamente, o tempo é uma borracha eterna.
– Acho que entendi uma coisa. O autor tem medo do tempo. Ele quer algo que dure mais que si. A gente vai estar aqui depois que ele se for. Somos consciência, sim. Consciência dele.
– Hum, acho que ele tem inveja da gente.
– Definitivamente.
– Não quer mais uma borracha.
– Não quero mais um lápis.
– Vamos jogar papel, tesoura ou pedra?
– Claro.

Tá todo mundo nu.

Foi um caos generalizado. Primeiro, todos achavam que se passava de um brincadeira, aliás, brincadeira de muito mal gosto. Como o presidente da nação tinha falta de escrúpulo para aparecer sem camiseta em rede nacional?

Crianças, pro quarto. Já! – Esse foi o discurso de vários pais pelo país inteiro. Antes que as inocentes e puras crianças fossem para o escuro de seus quartos, o presidente pigarreou e disse:

“Senhoras e senhores da amada nação. Não tirem as crianças da sala. Venho aqui trazer-lhes um comunicado da mais suma importância. Por decreto presidencial, foi decidido que a partir de amanhã, ás 00:00, será proibido usar roupa nas ruas, nas casas, em qualquer lugar.  A indústria da moda, com seus paradigmas sobre a beleza, causou muitos danos na população. Os homens e mulheres que não conseguem se enquadrar nos padrões quase inalcançáveis da indústria, se tornaram ansiosos e descontaram a tristeza na comida. Esse boom no número de obesos mórbidos nos levou a tomar essa medida extrema. Eu mesmo com essa barriguinha – nessa hora ele se levantou um pouco a ponto de mostrar a barriga à câmera – me sentia péssimo e obrigado a passar horas na academia só para entrar numa calça 38. É claro que com as pessoas andando nuas na rua, aumentaremos o policiamento para garantir a integridade moral de todos. Esperamos que com essas medidas a alto estima das pessoas melhorem, afinal, nus somos expostos, e nada melhor para se sentir melhor do que ver que a grama do vizinho não é mais verde. Tenham todos uma boa noite.”

Dizendo isso, o presidente levantou-se e mostrou, em rede nacional, que estava levando a sério a proibição de andar vestido. Gritos estéricos surgiram nos quatro cantos do país. Continuar lendo Tá todo mundo nu.

A aventura do andarilho em busca de conselhos na terra da poesia furada

Seguia tranquilamente pela estrada que sempre andou. Alguns empecilhos aqui e acolá, tropeçando e caindo como todo andarilho.  Nunca se deixou cair por completo no chão irregular, sempre acreditou que toda aquela caminhada valeria a pena. Não me pergunte o porquê. Não posso explicar a fé cega de um homem em busca do que nem ele sabe.

E ele continuou sua jornada. Sem previsão nenhuma, arrumou uma companhia. Pouco agradável no começo, é verdade. Mas pelo menos o homem-cinza estava lá pra quando ele precisasse. E ele precisou muito. O homem-cinza o impediu de arrancar seu coração e jogá-lo num vale sem fundo. Quando ele doer, você vai saber que ele ainda existe, foi o que ele falou.

O homem-cinza viu que o andarilho precisava de urgente ajuda, ou não aguentaria mais muito tempo. Por isso levou ele à sua terra natal. A terra da poesia furada.

O serelepe andarilho conheceu muita gente interessante no pitoresco lugar.  A incrível Poetisa, titereiro de palavras. O maravilhoso Rocky, conselheiro geral da nação (além de multitalentoso). A amável Mashmallow, criadora oficial dos sorrisos, risos e afins. O próprio Homem-cinza, que não tinha função definida naquele estranho lugar. Um gentil catalogador de corações, chamado Borra. Por último, o andarilho encontrou a misteriosa Pandora.

A atmosfera do lugar tinha um inconfundível cheiro de café. Andarilho se sentia tão bem naquele lugar, que fez o inimaginável: parou de andar sem rumo. A partir daquele dia, iria morar na terra da poesia furada.

Mas acontece que ali, naquele lugar longe e isolado e mágico, apareceu alguém que também andava em busca do não-sei-o-que que o andarilho buscava. O andarilho foi tentar ajudá-lo, afinal ele já esteve naquela situação.

E aquela sensação de “o que mesmo que se passa” voltou  a acometer o pensamento do andarilho. E ele aprendeu a buscar conselhos naquele lugar. Assim se iniciou a busca de conselhos.

Primeiro, andarilho foi no catalogador de corações. Borra disse para ele ter cuidado,que a essência de seu coração tinha mudado,  e quando andarilho pediu mais explicações, ele disse apenas ” outro desses corações, não!”

A próxima parada foi o Rocky, conselheiro oficial de todos. Mas Rocky disse aquilo que o andarilho não queria ouvir.  E como um garoto mal criado, andarilho fechou os ouvidos.

Não queria falar com o Homem-cinza, pois ele começava a ganhar cores e não havia o porquê interromper esse progresso. A vez de ajuda era do andarilho.

No final, foi Poetisa quem disse o encheu a mente e o coração do atrapalhado andarilho. Ela disse ” Não tenha medo se as coisas estão acontecendo muito rápido. Algumas coisas levem tempo, outras não. Simples assim. Não tenha medo de cair, você não teve medo antes. Talvez você esteja mais perto do que nunca de achar o que sempre quis”

Mashmellow ajudou a cuidar do visitante, então não seria a pessoa ideia para esse conselho em específico.

Não pediu conselhos para Pandora.

E assim o andarilho voltou a andar, buscando. O mais importante é que mesmo assim, ele havia achado seu lugar. E mesmo continuando confuso, ia manter aquele que ali chegou, sem pedir licença.

Na terra da poesia, as alegorias e alegrias fazem de todos os habitantes, um povo que tem esperança, mas não espera. Que chora, mas chora de felicidade também. Que sabe que na ausência de um bom amigo pra aquecer a alma, um café mantêm todos unidos. Sendo assim, brindemos e celebramos esses momentos de puro aroma de alegria.

O Estudo da Matéria dos Corações: Um comunicado.

O coração de cada um é feito de uma matéria única e inigualável. Pouca gente sabe disso. É um daqueles mistérios de vida que as maioria das pessoas desconhece.

Sou especialista na matéria dos corações. Os meus preferidos são os de vidro. Coloridos, cortantes e frágeis. Têm a tendência do recorrente medo do receio. São lindos. Construídos pela natureza e o tempo a partir da areia.

Meu trabalho é catalogar os corações. Não posso misturar o profissional com o pessoal. É um trabalho difícil, eu sei. Venho aqui por que preciso contar o que aconteceu comigo há pouco.

Era um dia tranquilo de trabalho, com alguns corações no conserto e uma fila enorme deles para eu catalogar. Foi aí que eu percebi um material diferente que eu nunca tinha visto antes. Segurava em minhas mãos um coração feito de porcelana pintada a mão. Era lindo. Todo decorado, com linhas finas que formavam um desenho abstrato de grande valor sentimental. Valor sentimental pra quem? Pra mim que não poderia ser.

A dúvida surgiu: Não tinha aonde catalogá-lo. E  outra pergunta ainda mais preocupante: por que aquele coração fazia o meu bater tão descompassadamente? Na minha mão já passaram corações de vários tamanhos, formas, pesos, presenças e sentidos. E eu não havia sentido esse calor gélido na boca do estômago. Eu não sentido o sentido palavras.

Fui a trás da dona do estranho artefato. Eu não havia previsto que sem aquele coração mais frágil que o vento, ela estaria mais debilitada  do que um gato que levou pedradas.

Aproximei-me devagar daquela mulher sem coração. Percebi no seu olhar que eu não poderia, nunca, em hipótese alguma, manter aquele coração comigo.

Nunca havia acontecido antes um caso assim. O normal era as pessoas andarem sem a simples bomba de sangue. Descobri que não sabia tudo sobre esse estranho órgão.

É preciso alertar a todos que tem um coração de porcelana. Cuidado se seu coração quebra mais do que copo de cozinha.

Quanto a mim, continuo aqui. Com um coração peludo. Sabendo que aquela porcelana abri-me o ventrículo e  colocou um pouco de água onde antes só havia borra de café passado.

Xícara de Açúcar pt. II

Parte I e III: Recortes de Poesia

Tem sino na porta do mercado. O som agudo soa pelo ar. Há som agudo dentro mim.

Coisas de comédia–romântica. Primeiro quando pedi a xícara de açúcar. Sinos na porta, na minha cabeça. Comédia–romântica.

Aprendi nos filmes. Não nos pornôs. Com eles aprendi outras coisas. Fiz direitinho. A vizinha gostosa e um pedido inocente. Um sorriso bobo, uma idéia sacana.

Ele se oferece pra pagar o açúcar. Acho fofo. Ele caiu.

De volta. Apartamento. Despedida. Hora de testar.

Ele parece desapontado. Mas está excitado. Dou uma desculpa. “Acho que deixei a xícara no seu apartamento”.

Cara de bobo me excita. Ele não é nada bobo.

Abre o pacote… Do açúcar. Enche a xícara. Me oferece o resto do pacote. Recuso.

Te devoro. Ali, na cozinha. Na sala. No quarto. Na varanda.

Ele dá uma ajeitada no dito-cujo. Tira casaco. Joga na mesa, senta na mesa. Cruza as pernas. Ajeitadinha na saia.

– No que está pensando? – pergunto.

– Ah… Aaa…çúcar?!

Mais uma vez. O dito-cujo.

– Sei de algo mais doce – abro o decote.

Te devoro. Me devora. Boca voraz. Fogo fugaz.

Reconheço, ele tem pegada. A gente se agarra. Vamos longe. Nossos corpos se chocam contra a bancada da cozinha.

O açúcar cai.

Na cozinha, na sala, no quarto, na varanda.

Foi rápido, mas direto. Forte e selvagem. Foi o que eu precisava e queria. A aventura estava concluída. A tarde da vida.

Limpo minha boca. Veste roupa. Mexo no cabelo. Refaz maquiagem.

Fecha decote. Antes de sair:

– Obrigada pelo açúcar.

Sai sem esperar resposta. Sem olhar pra trás.

No corredor. Mordo os lábios. Sorrio.

Banho.

Horas depois. Campainha.

Preguiça. Levanta. Campainha.  – Já vai!

Abre a porta.

Xícara. O cara.

– Você teria uma xícara de açúcar?

Thiago B.