A MOça do cavalo bRanco

Moça do cavalo branco,

Não, você não veio à cavalo. Veio de patins e isso sim me surpreendeu. Porque era bobo, inocente, desajeitado. Mas eu não, eu sou reta, exata, organizada. Então me diz: eu te vejo, tu olha pra mim. Meu olhar de superioridade te diminui e tu responde com olhos baixos, quase pidões, pedindo piedade talvez e um pouco de calma, que é pra mostrar que tu vale a pena.

E o que faço? Eu tenho escolha? Não, não tenho, porque escolhi que daria uma chance pra mim mesma outra vez e isso implica dar chance a você também. Mesmo porque todo mundo sabe que só o tempo resolve as coisas do coração e gostar de você seria algo que levaria tempo, até então normal porque a vida é assim e assim sendo eu me conformei.

O conformismo é parte da vida real. Ele que diz que a infância recheada de filmes disneyanos é só um adiamento da inevitável verdade que vem depois. Essa verdade é: não existe tempo hábil na agenda para amar. O trabalho te consome, a família te consome, a rotina te condena. E você sonha trabalhar com o que gosta e ser feliz com isso e por isso mesmo que se diz sonho e não vida.

Mas é sobre você, né. (tenho que lembrar que nem sempre tudo é sobre mim). Todos os livros-músicas-filmes me levaram a crer que você era o maior clichê multiplicado por 2². A paisagem no sexo, o pôr-do-sol sincronizado com o orgasmo e todo o filtro de fotografia que se instala na retina me levaram a crer, menina, que talvez eu tivesse aprendido com os erros do presente e esse era um relacionamento bacana, estável, adulto. Todos esses adjetivos são meus.

Mas daí menina que eu não vi que na verdade eu também estava enganada. Que por meu mundo ser meio acidzentado, eu não vi que seus patins eram cor de rosa. Que seu céu era cor de rosa, que seu iphone não era escolha, era status. Daí eu entendi.

Não, suas bobagens não eram charme, não sua aparente manhosidade com a vida não era escolha, não eu não gostava de você, mas sim, eu tentei e se eu tentei eu quis ficar, mas você também então que não, eu não vim num cavalo branco, e não eu não sou a princesa encantada da Disney, não eu não vou te salvar da chatice dos teus dias mas também aqui estou eu de braços abertos; pra quê? Também não sei, de braços abertos podem vir abraços, facadas nas costas, choradas em ombros, e o que mais puder, mas só o que me veio foi cansaço porque você não se jogou nos meus braços abertos.

Você, menina, foi mimada e me descartou com um brinquedo fora de moda, mas tudo bem, assim é a vida e não te obrigaria a gostar de mim. Fico mesmo chateada porque, bem porque, ora, se eu pude me abrir, penso então que você poderia também. Então eu vejo que no final, sim, é tudo sobre mim sim. E sim, eu repito as palavras porque a vida insiste em repetir os erros e eu insisto e repito em jogar minha culpa pra todos os lados porque não, eu não quero continuar sendo vilã da Disney, vilã barata do agreste, vai ver que por esquecer de cavalos brancos eu agora me contente com burros e éguas que ache por aí.

Pode ser também que por mentir pra mim mesma eu não veja e por não vê eu tropece e por tropeçar eu vivo me apoiando em outro alguém.

Moça do cavalo branco, eu queria me despedir e fazer uma despedida triunfal, mas veja bem, você roubou minhas vírgulas e coesão e coerência e não dá pra se despedir de quem já não se ver no horizonte.

Eu diria “boa sorte” ou “passar bem”. Mas eu não estaria sendo sincera.

De Castro.

Resumo de Toda a História do Universo

Foi necessário o big bang. Toda a matéria do universo se expandindo e criando antimatéria pelo vácuo. Levou bilhões de ano até que a estrela média do nosso sistema solar brilhasse. Depois disso, veio a guerra. A guerra dos mundos. Pedaços de rocha voando pelo espaço sideral e se chocando, formando pequenos conglomerados que continuavam a se chocar, ficando cada vez maiores; cada vez mais destroços iam aparecendo. No auge, houveram 2.137 pequenos planetas rochosos no Sistema Solar. Depois da Grande Guerra, restaram 8. Em um deles, as condições climáticas e randômicas proporcionaram o necessário para a Vida se manifestar. Mas essa ainda era frágil, simples demais. Alguns milhões de anos pela frente, as células se juntaram, num gesto de fraternidade cósmica. Havia seres na água mole, na terra firme e no ar maleável. Todo esse processo demorou cerca de 14 bilhões de ano.

Pulemos algumas centenas de anos de história.

A mais inteligente das criaturas terrestres desenvolveu um sistema de locomoção baseado em troca de papéis coloridos, rodas apoiadas num suporte metálico, grande concentração animal num mesmo lugar, barulho, carbono. A mais inteligente das criaturas humanas não precisa buscar alimentos oriundos da natureza, ela mesma os cria em tubos e câmaras refrigeradas. Ninguém passa fome, o que tem é mais que suficiente para todos. Essa é razão pela qual eles jogam suas comidas na rua, rua essa que eles mesmos construíram, pois seu sistema de transporte depende de um material especial chamado petróleo, petróleo que tapa a terra, que sufoca as plantas e, ironicamente, esburaca.

Faz 14 bilhões de anos desde o big bang.

O que veio a seguir aconteceu em 1 segundo.

A comida espalhada no chão atraiu os pombos. Há tempos atrai os pombos. Já faz tanto tempo, que hoje eles já não exercem com destreza a arte de voar. Preferem andar, balançando as cabeças em passos curtos. O asfalto se desenrola como um tapete a cortar a cidade. Os automóveis desfilam suas carcaças em meio a pedestres impacientes. Ônibus param, ônibus vão. Há comida no meio da pista. Há três pombos a comer em meio aos carros. Um ônibus se aproxima, os pássaros correm. Não há tempo, eles percebem isso e tentam voar. Dois batem as asas rápido o suficiente. O terceiro tem o corpo todo esmagado pela grande roda. O barulho que o esqueleto faz ao quebrar é suficientemente alto para ser ouvido mesmo no trânsito. As penas voam em direção às pessoas, como as cinzas de um corpo jogadas ao vento. A carne se expõe, aberta, remexida, revirada. Não sei dizer se é vermelha por natureza ou pelo banho sangue. Demora um pouco para o cheiro desagradável subir e me nausear. Só o que passa na minha cabeça é o tempo que a natureza gastou para que aquele pombo existisse. E ele voou da vida em um segundo, em meio à fuga. Ninguém reparou nada nisso. Ninguém reparou até que eu não aguentei mais. A mistura do som e da fúria, do odor e da imagem fez com que eu vomitasse.  Minha bile se misturou ao sangue, meu almoço se misturou ao estômago. E logo depois veio o ônibus que eu esperava. O gosto ainda ficou na minha boca. O cadáver ficou no asfalto. Vai embora com a chuva. Vai ser levar para o bueiro, cemitério de bichos.

Por que ninguém reparou na morte que aconteceu? É que foi só mais um pombo, foi a conclusão que cheguei. E daí que quando alguma pessoa morre, é só mais uma a morrer. São 14 bilhões de anos, são mortes demais para lamentar. Sofremos uma por vez. O sentido da vida é lamentar as mortes. Há uma cota a se cumprir. Já que ninguém se dignou a chorar a morte do pombo, eu chorei.

Com lágrimas de lavar tristeza, deixei o ônibus me levar pelo caminho que escolhesse. Já não era mais um alguém, e sim uma pena.

Pena de quem? Pena do quê?

o tempo que levou pra arrumar aquela gaveta

para ouvir com: bandavoou

Encontrei hoje aquele colar com que há tempos me presenteaste. Estava no fundo de uma gaveta, entre coisas perdidas e ignoradas. Sentei-me na cama e o segurei no ar, enquanto tentava decifrar vagarosamente o que sentia. Lembro-me que há tempos atrás, quando quis me livrar da tua presença, mantive o colar. Faltou-me coragem ou bom senso, o fato mesmo é que o guardei na gaveta, e vejo agora que também te deixei lá, lá no fundo, misturados o não-querer com o bem-querer.

Memória é mistério, sendo assim não sei porquê lembro tão bem de tantos passos que demos. Sim, eu lembro. Mas há muito não pensava nisso. Nos vejo sentados no canto do palco. Eu tentando me afastar e você insistindo em aparecer. Agora, penso mesmo que foi falta de vontade minha em te recusar por inteira.

Achei teu colar bonito, eu disse. Você estava diferente, mais responsável e já trabalhava. Disse a mim que sempre passava em frente uma barraca hippie e lá havia comprado o colar. Disse também que me daria um. Especialmente escolheria um para mim. Nós sorrimos mutuamente. Naquele instante, eu te amei.

A promessa veio e ficou. Naquele mesmo palco meu pescoço foi agraciado com o colar de um hippie. Talvez querendo dizer que ainda se importava depois de tanto tempo, tanto silêncio. Era sempre uma lembrança a exclamar sua existência, só há o que há de bom em ti em volta de mim.

Mas o tempo foi cruel com essas lembranças. Não as apagou e nem as glorificou. Simplesmente perderam sua importância no curso do agora. A caixa de pandora de minhas memórias se abre novamente e agora estamos em sala, eu deitado no teu colo, o cafuné transmitindo carinho e trocamos juras de viver dia a dia, lado a lado, fazendo crescer o amor que ali se fazia presente. Naquela época, eu acreditei naquelas promessas, tinha convicção que nunca deixaria de querer-te sempre e a todo instante. Mas tudo passa, meu bem. Eu passei por você, você passou por mim, e ninguém previu a hora da colisão.

Os tempos já são outros, a vida já é outra. Já não há mais teatro, não existem mais amigos em comum. Você se foi. Nós nos fomos. E o que fomos mesmo? E para onde mesmo vão as coisas que se perdem? Para o fundo da gaveta.

Então não me culpe por lembrar de você, tenho outras culpas, eu sei. Culpas grandes, mas não me martirizo nem agora. Perdoei-me e à todos. Mas veja bem, meu bem. Fiquei encantado por ti, como Júpiter você atrai todos a tua volta. E me gira, me roda, me enrola. Envolto em ti, achei abrigo, cheiro e beijo, compreensão e por fim, desespero. Eu correto e você selvagem.

Meu encanto se prendia na sua liberdade. O que eu não entendia antes era que como qualquer outra pessoa, eras só assustada. Ou ainda é. Toda sua autodestruição era fuga, ponto de fuga.  Diz-me garota, tens medo do quê? O que eu não percebia era que somos iguais na essência e diferentes na forma. Por vezes, eu também sou autodestrutivo. Mas num primeiro momento, só fui capaz de enxergar teus erros.

Então garota, admito, não sei bem aonde quero chegar, só queria dizer oi. Ô menina, você é o tipo de pessoa que fica bem em foto 3×4, anda ri, eu gosto eternamente do teu sorriso. Não há motivo para dizer oi agora. Não há. Ficarei então te olhando apenas. Se voltássemos a nos ver depois de todo esse tempo, eu gostaria de ficar em silêncio, talvez te abraçasse, talvez segurasse sua mão, mas não ousaria abrir a boca. Não temos como verbalizar o vazio que ficou para trás.

Anda menina, segue teu caminho. Sempre soubemos que haveria de chegar esse dia em que o olá seria dificílimo de sair. Se não consigo dizer oi, fica então a minha despedida. Despedida de quem pega o bonde andando, despedida apressada, esperando pelo retorno que nem sempre vem. O trem já fez a curva, menina, e até hoje não vi a linha de chegada.

Escreve-se nome no grão de arroz

E logo me ocorreu o porquê alguém gostaria de ter seu nome gravado num grão de arroz. a dúvida me foi tão pertinente que tive que parar meu deslocamento e encarar aquela situação, literalmente.

Era um suporte de madeira com aspecto mofado, era um banner despotado de sol que se jogava do alto do suporte, era uma tigela de arroz e instrumentos de fina espessura, era um homem com fineza de fome e manchas solares.

Era a paisagem suburbana, era o cerrado, e todos no cerrado são calangos. De um jeito ou de outro com peles casca-dura e suando na testa e por baixo de roupas, exalando o cheiro pela cidade e liberando o animalesco pelos poros.

O sol ameaçava despencar sobre a minha cabeça, as axilas iam se banhando e eu ali, embebedado de perplexidade. Quando finalmente sai do meu estado de naturalismo, vi as pessoas indo de lá pra cá, andando em círculos e infinitamente; sempre há algum que vai sempre há alguém que vem. Sem encontrar um ponto fixo, acabamos todos indo parar de definitivo em baixo da terra.

Fosse culpa dessas ideias talvez que acabei superando todos os desconfortos biológicos ( calor, suor, fome, vontade de urinar etc) e tive uma epifania, ali mesmo, no meio do enxame humano.

Era um milagre, a mais pura beleza que habitava nessa terra de areia e pedra. De se emocionar, e meu Deus, juro que ali rolou uma lágrima. A lágrima logo evaporou e dela só sobrou o sal e a emoção catalisadora que a disparou. Enchi meu peito de ar e me preparei para o impacto do primeiro passo. Sai atravessando a multidão que não via, que não podia perceber. Era o olho do furação, e o furação era a vida nos arrastando para todos lados, puxando pela orelha e jogando na tormenta e nessa confusão aquele homem-calango se especializara em escrever em grãos de arroz.

Não, não, eu sei, é verdade, isso de nada é prático. E a beleza estava ali mesmo, na falta de utilidade, no mero efeito placebo que exercia em mim.

Enquanto houver pessoas a escrever nos grãos de arroz, há esperança em toda humanidade, ouso dizer.

Fui pura metáfora: Atravessei a multidão como quem atravessa a barreira da cegueira. E veja bem que poesia: De cego, o homem do arroz não era nada. Tanta boa visão que escrevia com letras minúsculas em matéria orgânica que alimenta os povos.

Coloquei o grão de arroz devidamente nomeado em volta do meu pescoço. Vi minha própria identidade através do vidro em que o arroz repousava.

E quem repousava já era eu. Senti-me a pessoa mais especial do mundo, mesmo sabendo que era só mais um grão de arroz, de areia, de água do mar. E tem problema não. Já tinha a prova que até o ínfimo tem suficiente importância para ser nomeado.

Os Escritores Sempre Se Enganam

Quando nasce um escritor? Seria no sentido literal da palavra, quando ele é expulso do útero de sua mãe e grita o mundo a plenos pulmões? Ou seria o contrário? O escritor nasce quando dá a luz a sua cria, sua criação, cuidadosamente organizada em folhas de madeira de reflorestamento prensadas e impressas com a ordem do caos de palavras que ele encontrou? Afinal, o escritor é cria ou criatura? É uma antítese de dois? Uma aberração contra a ordem natural do universo?

Faço perguntas, mas a verdade é que eu sei a verdade. Sempre considerei essas ponderações de suma importância, embora nunca tenha perdido a noite pensado sobre isso. A verdade foi iluminada na minha cara, me atingindo como uma bala bem no meio dos olhos. Eu me questionei: Como pude não ter visto isso antes? O qual cego pude ser ao fechar os olhos só porque estava escuro?

A catarse veio enquanto eu lia. Era um livro pequeno, sujo, já velho, de título interessante e o mais importante, de segunda (ou terceira) mão. É bem sabido que os livros adquirem a sabedoria daqueles que o leem e sugam a daqueles que o escrevem. Pois bem, assim como a felicidade, a revelação vem de súbito, matando de susto os de coração frágeis. Quando me dei conta, havia resolvido um problema que desde muito me assaltava. Eu finalmente entendi o momento em que um escritor nasce.

É claro que minha experiência deve ser levada em conta, foi só quando percebi o que estava fazendo que o mistério foi resolvido. Vejam bem, abram os olhos e os ouvidos, fechem a boca e escutem: Os escritores sempre se enganam. Nunca veem o mundo com os olhos, mas antes com a mente. Criam situações e coordenam toda a história em suas cabeças de vento. As pessoas deixam de ser o que são e viram personagens cheias de nuances que não passam de farsas. Os lugares admitem novas interpretações e significados. Nem mesmo o voo de uma borboleta passa ileso pelos escritores (ah, eles adoram voos de borboleta, tão efêmeros e etc.)

Então veio o medo. Olhei o espelho e vi aquele moço, tinha os olhos nervosos, tinha a boca querendo mudar de lugar, e tinha um brilho cansado, meio capenga, sem rumo. Era um escritor. Eu finalmente me reconheci como um, e a primeira vista, não gostei muito do que vi.

Além de escritor, eu também tenho a ousadia de colocar as palavras no mundo e esperar que cada um se vire com elas. Pai irresponsável, eu sei. Nem todo escritor tem a coragem (seria burrice?) de infectar o mundo com sua esquizofrenia nervosa. A maioria simplesmente morre de implosão, os outros, como eu, de explosão.

Admito que o principal motivo que leva um escritor a de fato escrever, é a vaidade. Ela embriaga o ego com palmas e afagos. É a que adrenalina atingi os atletas, é o hormônio que sobe à cabeça  no clímax sexual, é pura biologia.

Escrever, afinal de contas, é aceitar o animalesco. Se fantasiar de carnaval e viver quarta feira de cinzas.

A FALTA QUE ELE ME FAZ

 era bem sabido que eu iria ruminar todas as palavras todos aqueles gestos e tudo isso ficaria nítido na minha mente com armazenamento gigantesco digno de computador da NASA. Mas pela primeira vez eu não me impedi de refletir de pensar de revisar. Não é um trabalho agradável mas pensei por outro lado que já que não conseguia evitar eu poderia fazer disso uma forma de superar ou de diminuir a dor.

Sim porque dói. E eu me assusto bastante. Perdi o sono por duas noites simplesmente não consegui dormir. Ficava com os olhinhos no escuro olhando pro teto olhinhos apertados de coração apertado também. E eu pensava por quê meu deus por quê? E eu pensava que existe coisa muito pior nesse mundo mas isso não me acalmava de fato me deixava ainda mais impressionado e quem sabe eufórico de saber que alguém podia me afetar tanto assim.

E nessas horas não posso ficar no ostracismo tenho que me forçar a fazer algo ao invés de ficar sem fazer nada. E sabe o que eu percebi? Que tudo perdeu um pouco de cor um pouco de graça. É tão irônico que um dia eu o tivesse chamado de homem-cinza.  Mas todo mundo sabe que até o cinza tem cinquenta tons. A vida não é preto no branco embora agora me pareça em preto e branco.

É de deixar a vida no mudo. De que adianta conversar se no fim eu quero as coisas do meu jeito? Aí o jeito é esperar e se contentar que ele tá feliz porque meu deus eu nunca supriria a felicidade dele em razão da minha. O jeito é deixar tudo aqui em bits e bytes e não na minha cabeça acho que preciso dela.

É de me deixar feliz e cego. É de resumir o mundo a minha casa. É de ter vontade e faltar ânimo. É de achar que isso não acaba e saber que tudo é efêmero. Essa é a falta que ele me causa. Faltam vírgulas e sobram pontos finais.

grand finale

com dois barcos.

A última impressão é a que fica. É por isso que toda despedida tem que ter festa, bolo e brigadeiro, ou briga, babado e confusão. Um grande evento para comemorar o fim do ensino médio. Um a um os alunos sobem no palco improvisado. Como sempre, o áudio está péssimo, os instrumentos se sobrepõem às vozes e a baderna de uns se mistura com o desânimo da maioria. Tudo é festa, as cores de cada turma estampadas nos rostos, nos braços, nas caras pintadas.

Nessa hora, eu me pergunto o que estou fazendo. Ando de cá pra lá, fico com qual e tal, canto aquela mesma musiquinha de colégio que sempre toca na minha escola (ohh anna júliaaaaa ahhh). Eu me divirto, até. Não sinto o tão comentado fim de que todos comentam até que aquela garota, até então perdida na multidão, chega junto pra se despedir de mim. Ela sabe que em breve eu não terei mais tempo de vê-la com regularidade. Ela chora e eu seguro sua mão. É interessante que nesse momento estava tocando “Por Enquanto” e eu repeti baixinho no ouvido dela: estamos indo de volta pra casa.

Foi nessa hora que senti uma paz imensa, tão grande que sufocou toda a incerteza do futuro. Ela disse que eu conseguiria afinal. Eu acredito nela.

No palco agora, a música gritava nos meus ouvidos “O QUE VOCÊ QUER DE MIM?”. Olhei o rosto dos quase 500 alunos e me perguntava se cada um dele tinha uma resposta pra tal pergunta. O que isso significava pra cada um? E o que significava pra mim? “Ei, pega leve, o que você quer de mim?” Poxa, seu moço, não precisava pegar pesado. Não sei responder, me de um tempo, ok? Não sou de ferro, sou só de carne e osso, erros e acertos.

E tão de repente quanto tudo vem, tudo vai. As fitas ficam caídas no chão, o silêncio invade a quadra antes tomada pelos gritos, os meninos correm para a piscina, o professor tenta impedir e sai correndo no meio da multidão. Derruba uma garota e ela levanta com o sangue escorrendo pelo nariz. O resto dos alunos vão embora de forma rápida. Eu fico pra trás, fico esperando seu moço; ele faz um pedido de casamento no meio do corredor, não há mais ninguém, mas eu sei que não foi pra mim; fico até mal, mas não levo a sério. O portão fecha quando estávamos prestes a passar. Damos a volta para não andar em círculos. E mal estamos livres da escola, ele sai correndo sem se despedir. De novo eu me senti mal, e de novo deixei pra lá.

Fui andar, já era muita noite, e sozinho na Ceilândia, com a mochila nas costas, sai pelo meu caminho. Por alguma estranha coincidência, era aniversário de alguma coisa do PT e eles queimavam fogos de artifício. Eu estava sozinho, e os fogos explodiam para mim. Eu estava sozinho, e não assim que se morre, afinal? É hora de andar com as próprias pernas, fazer valer o caminho percorrido até aquele momento. Chegou o grand finale. Mas só eu estava lá para ver os fogos. Só eu estive lá o tempo todo.

Ouvi dizer que essa sensação passa, e é verdade que já atenuou. A gente se acostuma com qualquer coisa, mas se me perguntar, admito. Eu preferia não ter que me adaptar, eu preferiria me acomodar e aceitar o que vem como lucro. Mas acho que sou muito bom pra isso. Sonhar alto é risco, mas a vista é incrível.

sinto muito blues

E quem… E quem é que sabe de alguma coisa… QUEM É QUE SABE DE ALGUMA COISA NESSE MUNDO? Desculpem o tom amargo da minha voz, desculpem o tremor em minhas mãos, estou nervosa e preciso fumar uns dois cigarros antes de continuar, esperem só uns instantes.

(…)

Meu problema não é a Sofia, mas ah! como eu gostaria que ela fosse meu problema. O problema sou eu mesma. Droga, droga, droga! Parece que dois cigarros não foram suficientes.

Eu tô cansada, tô cansada do meu trabalho que me faz usar salto e terninho, tô cansada de chegar em casa e respirar desaprovação, tô cansada da incerteza da vida e do que a vida em si trás. Me deem um tempo. Eu sinto que vou explodir e nem ao menos estou falando com coerência.

(a gente espera) (…)

Voltei, mas não pra ficar. É que nada fica mesmo, todo carnaval tem seu fim e todo mundo já tá cego de saber disso. Mas não, mesmo assim a gente insiste que com a gente vai ser diferente, que a gente consegue enfrentar o mundo e ser feliz. *pausa para dar uma tragada*. Sabe o que mais me incomoda? É que eu não me importei de dizer adeus. Entrei na sua vida sem bater e fui embora sem fechar a porta. É com grande pesar que digo que não houve pesar e me sinto leve como uma pena.

Não acredita? Mas é isso mesmo. Lá no fundo, bem escondido, eu já sabia que ia ser assim. Que uma hora eu a desistir de tentar e admitir logo que não ia dar certo porque eu não tinha mais saco pra fazer dar certo. Sou uma mulher ocupada, sabem? Claro que não sabem. Vocês são jovens, não sabem de nada. Acham que se vive de amor e esquecem que tem contas a pagar, rotina pra cumprir, e suor pra derramar.

Esse quase-amor de migalhas, com dias espaçados e poucas horas pra aproveitar… isso não é vida não. Essa história de se esconder em quatro paredes e sorrir amarelo quando a tia vem lá da puta-que-pariu perguntar quando virão os “namoradinhos” já me encheu. Simplesmente não quero mais saber.

Tudo bem, eu sei que disse que a tentar, sem medo, que ia fazer de tudo pras coisas darem certo, mas chega uma hora que cansa, entendem? Não? Vocês não sabem de nada mesmo. Eu estou desesperada, ando de um lado pro outro, passo a mão nos cabelos, fumo um cigarro atrás do outro, tremo as mãos e derrubo as chaves. E eu estou desesperada… Já disse isso? Sinto muito.

Sinto muito se você nem se importou muito nosso término, porque nem deu tempo pra se acostumar com essa sensação de segurança que ter outro alguém proporciona.

Sinto muito se por algum momento não fui perfeita aos seus olhos. Eu quero ser a memória mais doce que você tem sobre o que é o amor.

Sinto muito se o que falo é tão desordenado, é que ainda estou uma bagunça e na verdade sempre fui, mas eu me escondi por trás dos meus óculos escuros e da minha cegueira fingida.

Pois na verdade sempre enxerguei muito bem, tão bem que nunca me deixava tentar pra valer a arte de fazer parte de alguém. Eu vejo aqueles furos que me dizem as mil e uma razões pela qual os romances baratos acabam. E meu deus, por que diabos eu sempre quis o sempre e nunca me contentei com o que me fizesse contente?

Foram as histórias que mamãe me contava antes de dormir. “E viveram felizes para sempre” era assim que terminavam. Foram os filmes que insistiram que não existe essa tal felicidade sem perda irreparável. Foram os livros a me deixar pessimista, indo a fundo nas pessoas sem pedir licença. E eu, pessoa frágil e cheia de nóias, me deixei consumir.

Eu sinto muito, sinto muito por mim mesma. Por ter fracassado de novo. Por sentir esse desejo de desistir de tudo que sonhei. Mas eu já estou ficando melhor, já estou melhorando. É que… é só que… eu percebi que estou sempre a pedir desculpas.

Eu sinto pelo muito.

Eu sinto muito por fazer muito de pouco.

Eu sinto muito por sentir.

Eu sinto muito por sentir muito.

Vou pegar meu banquinho e sair pianinho. Não quero aplausos no final. O silêncio me conforta. Eu sei que depois que eu dormir… eu sei que eventualmente… esquece, sei nada não. Mas tá tudo bem. O show já acabou, minha cartela de cigarro também acabou, até minha tristeza acabou. Só sobrou esse estado completo de perplexidade.

Estou perplexa com tantas desculpas que dou para evitar viver. Tá na hora de fechar as cortinas. Tá na hora de dizer adeus e já passou da hora de transferir minha vida futura pra vida presente. Sinto que já estou velha e nem comecei nada ainda. Me deem mais um tempo. Vou embora, vou viver, já que não tenho outra opção.

Sinto muito por não ter entendido antes. Sinto muito por desistir achando que estava perdendo meu tempo quando na verdade eu perdia meu tempo me esquivando de mim mesma.

Hoje, quando eu chegar em casa, vou direto ao espelho pra me receber com graça e de braços abertos.

“Seja bem-vinda”.

PIAninho

Silêncio, silêncio, por favor. Vocês fazem muito barulho. Até quando pensam. Esses óculos escuros aqui? Não é charme não. É que eu sou cega mesmo. Só enxergo com os ouvidos. Por isso, fiquem bem pianinhos aí enquanto eu conto minha história. Vou pegar meu banquinho, esperam um instante.

Vai rolar aquela piadinha, eu sei, mas vou usar essa expressão mesmo assim: eu nunca vi que ela estava ali. Se vi, ignorei. É o seguinte: a tal garota estava de olho naquela minha amiga que estava (e está) comprometida. Então é claro que ninguém gostava da tal Sofia, sempre tentando acabar com o casal 20 da escola.

Sinto muito, expressei-me mal. Do jeito que falei, até parece que a tal Sofia era um personagem sem sal da novela Malhação, aquela pseudo-vilã mimada e afim do macho-alfa. Não, não. Sofia era meio calada e baixava os olhos ao falar com quem gostava. Daquele jeito meio sem-jeito que eu aprendi a gostar.

Sou uma conquistadora barata, sei que mesmo cega, minha cara passa aquela malandragem de safadeza travestida de carinho inocente. Sei que todo meu romantismo cheira a perfume francês, mas o cigarro esconde esse cheiro. Eu solto um pouco da minha alma cada vez que expiro a fumaça. E não resisti aos meus instintos animais quando te senti sua presença, seu cheiro forte que nada combinava com o olhar frágil.

PARÊNTESESsei que baixava os olhos ao falar com quem gostava porque ao fazer isso, a pessoa contrai a garganta e a voz sai escondida da mente que reluta em verbalizarPARARÊNTESES

Ah, Sofia. Nosso romance foi proibido desde a maternidade. Nossas famílias, nossos amigos, nossos desafetos. O casal 20 que tanto brigou por sua culpa não concordava que eu fosse me relacionar logo com você. O único que me entendeu foi aquele meu amigo, cego também, vejam que ironia. O único a ver além do que se vê.

Ora, não dizem que o amor é exercício, não dizem que se aprende a amar? Pois então, quis tentar mais uma vez, dessa vez sem medo. Entrar sem bater na sua vida. Quando resolvi te conquistar, eu tinha deixado pra trás um outro alguém. E foi por falta de tentativa da parte dela, relutando em deixar pra trás um outro alguém. Como vocês podem ver (até eu que sou cega vejo isso) era um ciclo de abandono, de desapego, de largar e recomeçar pra ir embora novamente. Você, Sofia, você estava ali, abandonada e eu, Sofia, eu estava ali abandonada. Dois corações solitários podem andar juntos. Não podem?

Os meus amigos dizem que não sabem mais quem eu sou. Dizem que eu estou cega (!), que isso é só medo de ficar sozinha outra vez. PAUSAPAUSARESPIRAFUNDO. Vai saber, eu não quero saber disso não.

Quero só ficar aqui, enrolando teus cabelos no meus, cantando no seu ouvidinho e te vendo com minha mãos BOBAS, fazendo planos pro futuro, porque afinal, sonhar não faz a ninguém. A gente se esforça, sabe, se esforça pra ter um futuro afinal. Ao invés de esperar o amor vir numa carruagem, fazendo uma entrada triunfal na nossa vida, a gente vai construindo-o aos poucos, quando dá e como dá. E isso é divertido, é mais real e menos roteirizado. É incrível beijar teus lábios e sentir gosto de realidade, gosto do meu esforço e suor que levou àquele momento. Seu também, é claro. Nosso futuro amor é uma via de mão-dupla.

Já perdi meu cão-guia no bilhar. Você sabe que sozinha já não posso mais seguir. Achava que em terra de cego, quem tem olho nunca é visto. Mas ainda bem que nos vimos mutuamente. Meus olhos sem cor já começam a ganhar vida.

500 dias de clichê, 500 curingas num baralho.

Eu tenho certeza que você vai pensar duas vezes antes de acreditar no que conto. E até deve. Eu mesmo não consigo entender como a realidade pôde ser tão clichê. Onde está o diretor a fazer da minha vida luz, câmera, ação? E quem é esse roteirista tão sem criatividade? Fez um retalho de livros, filmes, músicas e acha que não percebo que já li, vi e ouvi tudo isso.

Mas o fato (ou cena) é que, por ironia do destino (ou do roteirista) fui obrigado a me sentar ao lado do motorista na van escolar. Segurava aquela playlist que ganhei de você e ela chamava atenção de todo mundo. Até que inesperadamente o motorista diz pra mim:

– Thiago, você quer colocar o CD pra ouvir?

É preciso uma pausa aqui. Para fins puramente estatísticos, devo dizer que o referido motorista é um sádico. Justamente por minha vida ter virado um filme, mudaram seu personagem, única explicação para tal comportamento inesperado. Mesmo achando estranho, aceitei de bom grado a oferta. Coloquei o CD. Vi-lo sendo engolido pelo rádio e indo parar dentro da van. Prendi a respiração para ouvir as primeiras notas. Elas vieram como uma mão a acariciar o rosto, vieram pra velar meu sono, me colocar pra dormir.

O garoto ao lado desceu e me deixou a vontade para colocar a cabeça para fora da janela e senti o vento bater no rosto, ouvindo a playlist no rádio, acompanhado de estranhos que nada entendiam o que eu sentia, eu não posso deixar de ser clichê e dizer que me senti infinito. Daí que começou a tocar “O Mais Clichê”. Tô falando sério.

Para completar, hoje de manhã eu saia na chuva (veja bem!) e andando na rua encontro um quatro de espadas. Uma carta de baralho.  A playlist tem o nome de joker por causa de um livro sobre cartas e curingas, sobre maldições e destino.

Tem alguém fazendo da minha vida um filme, já disse. Então, vamos lá. Senta aqui pra ver a continuação.

Por favor, menina, não foge não. Vou ser sincero e isso assusta, eu sei. É que eu começo a me apaixonar pela ideia de um dia casar contigo, ter dois filhos, sentar na beira do lago pra ver o pôr-do-sol.  Ter uma vida assim, dessas que ninguém acredita, dessas que a gente só vê em filme. Ser feliz pela tranquilidade de uma vida que acaba em duas horas e meia.

Vamos, vamos! Peguemos uma câmera. Temos que gravar tudo. Ninguém acredita se a gente contar. Vão dizer que o clichê é fantasia. Pois eu digo que preferi viver assim, juntinho, numa vida que já foi tanto imitada pela arte. Todo mundo quer sonhar e só se recusa a ver a beleza da fotografia da vida quem  acha que não é protagonista da própria história.