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corpo de delito

A impotência é a causa de toda morte. Meu coração bate e eu não posso fazer nada, ele vai parar alguma hora. Sou impotente com meu próprio corpo, mente e espírito. E eu não posso fazer nada, porque é esse o princípio da impotência. Um suicida morre, ele não se mata, porque a causa de toda morte é a impotência. A vida está uma merda e não há nada que você possa fazer para mudar, e nem a morte muda isso. Afinal, ninguém sabe o que há do outro lado, nem se há um outro lado. Não temos informação, não temos como obter informação, não temos nada.

Sinto raiva, uma raiva imensa,  de não poder fazer nada, nem por mim ou por alguém. Sempre que tento, tudo foge do controle e todos quebram a cara. Aliás, a busca pelo controle, pelo poder, pelo amor, pela felicidade, é só mentira. Veja bem, não possuímos essas coisas, elas que nos possuem. Essa história de que o amor é cego? É porque o amor embriaga. Essa sensação de felicidade? É a sensação  de achar ter achado o tesouro no fim do arco-íris. A vida é um efeito placedo, afinal.

E quando minha raiva cessa por fim, vem o desespero – o que fazer quando não se pode fazer nada? Ah, isso me atormenta. Essa pergunta inquieta que não cansa de martelar no coração. Senti dor, de verdade. Sua tristeza estava ali, na minha frente, completamente exposta e crua, e eu não podia fazer absolutamente nada. As circunstâncias nunca estão a favor.

Sabe aquela música? Deixa a vida me levar, vida leva eu…                      ?

E existe alguma outra coisa a fazer? Como esquecer? Como esquecer o tormento que não se vai? Se deixar levar parece tão assustador, porque nós aprendemos a nos segurar numa ilusão que levamos a própria vida.

Pelo menos eu acho que finalmente descobri o contrário do amor. É a impotência, porque ela é a causa de toda morte.

A via láctea.