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Resumo de Toda a História do Universo

Foi necessário o big bang. Toda a matéria do universo se expandindo e criando antimatéria pelo vácuo. Levou bilhões de ano até que a estrela média do nosso sistema solar brilhasse. Depois disso, veio a guerra. A guerra dos mundos. Pedaços de rocha voando pelo espaço sideral e se chocando, formando pequenos conglomerados que continuavam a se chocar, ficando cada vez maiores; cada vez mais destroços iam aparecendo. No auge, houveram 2.137 pequenos planetas rochosos no Sistema Solar. Depois da Grande Guerra, restaram 8. Em um deles, as condições climáticas e randômicas proporcionaram o necessário para a Vida se manifestar. Mas essa ainda era frágil, simples demais. Alguns milhões de anos pela frente, as células se juntaram, num gesto de fraternidade cósmica. Havia seres na água mole, na terra firme e no ar maleável. Todo esse processo demorou cerca de 14 bilhões de ano.

Pulemos algumas centenas de anos de história.

A mais inteligente das criaturas terrestres desenvolveu um sistema de locomoção baseado em troca de papéis coloridos, rodas apoiadas num suporte metálico, grande concentração animal num mesmo lugar, barulho, carbono. A mais inteligente das criaturas humanas não precisa buscar alimentos oriundos da natureza, ela mesma os cria em tubos e câmaras refrigeradas. Ninguém passa fome, o que tem é mais que suficiente para todos. Essa é razão pela qual eles jogam suas comidas na rua, rua essa que eles mesmos construíram, pois seu sistema de transporte depende de um material especial chamado petróleo, petróleo que tapa a terra, que sufoca as plantas e, ironicamente, esburaca.

Faz 14 bilhões de anos desde o big bang.

O que veio a seguir aconteceu em 1 segundo.

A comida espalhada no chão atraiu os pombos. Há tempos atrai os pombos. Já faz tanto tempo, que hoje eles já não exercem com destreza a arte de voar. Preferem andar, balançando as cabeças em passos curtos. O asfalto se desenrola como um tapete a cortar a cidade. Os automóveis desfilam suas carcaças em meio a pedestres impacientes. Ônibus param, ônibus vão. Há comida no meio da pista. Há três pombos a comer em meio aos carros. Um ônibus se aproxima, os pássaros correm. Não há tempo, eles percebem isso e tentam voar. Dois batem as asas rápido o suficiente. O terceiro tem o corpo todo esmagado pela grande roda. O barulho que o esqueleto faz ao quebrar é suficientemente alto para ser ouvido mesmo no trânsito. As penas voam em direção às pessoas, como as cinzas de um corpo jogadas ao vento. A carne se expõe, aberta, remexida, revirada. Não sei dizer se é vermelha por natureza ou pelo banho sangue. Demora um pouco para o cheiro desagradável subir e me nausear. Só o que passa na minha cabeça é o tempo que a natureza gastou para que aquele pombo existisse. E ele voou da vida em um segundo, em meio à fuga. Ninguém reparou nada nisso. Ninguém reparou até que eu não aguentei mais. A mistura do som e da fúria, do odor e da imagem fez com que eu vomitasse.  Minha bile se misturou ao sangue, meu almoço se misturou ao estômago. E logo depois veio o ônibus que eu esperava. O gosto ainda ficou na minha boca. O cadáver ficou no asfalto. Vai embora com a chuva. Vai ser levar para o bueiro, cemitério de bichos.

Por que ninguém reparou na morte que aconteceu? É que foi só mais um pombo, foi a conclusão que cheguei. E daí que quando alguma pessoa morre, é só mais uma a morrer. São 14 bilhões de anos, são mortes demais para lamentar. Sofremos uma por vez. O sentido da vida é lamentar as mortes. Há uma cota a se cumprir. Já que ninguém se dignou a chorar a morte do pombo, eu chorei.

Com lágrimas de lavar tristeza, deixei o ônibus me levar pelo caminho que escolhesse. Já não era mais um alguém, e sim uma pena.

Pena de quem? Pena do quê?

Lamentável

Um francês toma café em um bairro suburbano. Olha com ódio para a Paris dos turistas que não sabem dos problemas do outro lado da cidade. Até na cidade-luz nem tudo é flores. Alguém é jogado no porta-malas de um carro em uma cidade qualquer. Como é possível caber seu corpo e tanta tensão e tanto terror e tanto medo em um lugar tão pequeno? E pra onde vai sua vida depois do tiro a queima roupa que para seus órgãos? Talvez um cientista em Estolcomo saiba, mas ele está muito preocupado agora. Tenta achar a cura da Aids. E olhem só, ele acaba de conseguir! “Prêmio Nobel, aqui vou eu”. Não importa quantas vidas serão salvas. O que mata não é a Aids. O que mata é estar vivo. Há tantas formas de morrer, e tantas formas de adiar o fatídico fim. No meio das guerras, que ocorre em baixo do nosso nariz, não há fuga e o desespero vira enxofre. Entra pelos pulmões e queima os neurônios. As mãos tremem. As mãos tremem em vários lugares do mundo. O orgasmo faz o resto do mundo explodir. As bombas fazem o resto do mundo explodir. A bala faz o coração explodir. O ódio faz o francês explodir a xícara. E tudo isso acontece ao mesmo tempo.

Nessa pequena bola flutuante do espaço, há tanta vida e tanto conflito entre a vida de seus habitantes, enquanto você lê isso, sabe-se lá o que acontece fora da sua mente. Você ficaria surpreso se alguém começasse a voar por aí? Pois fico surpreso todo dia com a gravidade. Pense, tem uma força no meio desse planeta que puxa tudo para o centro. De alguma forma, essa bola rochosa se move a uma velocidade assustadora no meio do nada.

Feche os olhos. Faça silêncio. Percebe? Tudo se move. Esqueça ET’s. Isso tudo aqui é uma explosão de vida. E de morte. Mas sempre há vida.

E toda vez que você me diz que está com tédio, é uma situação lamentável. A realidade é tão sufocante. Toda vez que você acha que qualquer besteira é o fim do mundo, eu me lamento. Todo dia a morte bate a porta, é natural. Lamentável mesmo é saber que alguém se foi sem nem saber que um dia esteve.