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PIAninho

Silêncio, silêncio, por favor. Vocês fazem muito barulho. Até quando pensam. Esses óculos escuros aqui? Não é charme não. É que eu sou cega mesmo. Só enxergo com os ouvidos. Por isso, fiquem bem pianinhos aí enquanto eu conto minha história. Vou pegar meu banquinho, esperam um instante.

Vai rolar aquela piadinha, eu sei, mas vou usar essa expressão mesmo assim: eu nunca vi que ela estava ali. Se vi, ignorei. É o seguinte: a tal garota estava de olho naquela minha amiga que estava (e está) comprometida. Então é claro que ninguém gostava da tal Sofia, sempre tentando acabar com o casal 20 da escola.

Sinto muito, expressei-me mal. Do jeito que falei, até parece que a tal Sofia era um personagem sem sal da novela Malhação, aquela pseudo-vilã mimada e afim do macho-alfa. Não, não. Sofia era meio calada e baixava os olhos ao falar com quem gostava. Daquele jeito meio sem-jeito que eu aprendi a gostar.

Sou uma conquistadora barata, sei que mesmo cega, minha cara passa aquela malandragem de safadeza travestida de carinho inocente. Sei que todo meu romantismo cheira a perfume francês, mas o cigarro esconde esse cheiro. Eu solto um pouco da minha alma cada vez que expiro a fumaça. E não resisti aos meus instintos animais quando te senti sua presença, seu cheiro forte que nada combinava com o olhar frágil.

PARÊNTESESsei que baixava os olhos ao falar com quem gostava porque ao fazer isso, a pessoa contrai a garganta e a voz sai escondida da mente que reluta em verbalizarPARARÊNTESES

Ah, Sofia. Nosso romance foi proibido desde a maternidade. Nossas famílias, nossos amigos, nossos desafetos. O casal 20 que tanto brigou por sua culpa não concordava que eu fosse me relacionar logo com você. O único que me entendeu foi aquele meu amigo, cego também, vejam que ironia. O único a ver além do que se vê.

Ora, não dizem que o amor é exercício, não dizem que se aprende a amar? Pois então, quis tentar mais uma vez, dessa vez sem medo. Entrar sem bater na sua vida. Quando resolvi te conquistar, eu tinha deixado pra trás um outro alguém. E foi por falta de tentativa da parte dela, relutando em deixar pra trás um outro alguém. Como vocês podem ver (até eu que sou cega vejo isso) era um ciclo de abandono, de desapego, de largar e recomeçar pra ir embora novamente. Você, Sofia, você estava ali, abandonada e eu, Sofia, eu estava ali abandonada. Dois corações solitários podem andar juntos. Não podem?

Os meus amigos dizem que não sabem mais quem eu sou. Dizem que eu estou cega (!), que isso é só medo de ficar sozinha outra vez. PAUSAPAUSARESPIRAFUNDO. Vai saber, eu não quero saber disso não.

Quero só ficar aqui, enrolando teus cabelos no meus, cantando no seu ouvidinho e te vendo com minha mãos BOBAS, fazendo planos pro futuro, porque afinal, sonhar não faz a ninguém. A gente se esforça, sabe, se esforça pra ter um futuro afinal. Ao invés de esperar o amor vir numa carruagem, fazendo uma entrada triunfal na nossa vida, a gente vai construindo-o aos poucos, quando dá e como dá. E isso é divertido, é mais real e menos roteirizado. É incrível beijar teus lábios e sentir gosto de realidade, gosto do meu esforço e suor que levou àquele momento. Seu também, é claro. Nosso futuro amor é uma via de mão-dupla.

Já perdi meu cão-guia no bilhar. Você sabe que sozinha já não posso mais seguir. Achava que em terra de cego, quem tem olho nunca é visto. Mas ainda bem que nos vimos mutuamente. Meus olhos sem cor já começam a ganhar vida.