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sinto muito blues

E quem… E quem é que sabe de alguma coisa… QUEM É QUE SABE DE ALGUMA COISA NESSE MUNDO? Desculpem o tom amargo da minha voz, desculpem o tremor em minhas mãos, estou nervosa e preciso fumar uns dois cigarros antes de continuar, esperem só uns instantes.

(…)

Meu problema não é a Sofia, mas ah! como eu gostaria que ela fosse meu problema. O problema sou eu mesma. Droga, droga, droga! Parece que dois cigarros não foram suficientes.

Eu tô cansada, tô cansada do meu trabalho que me faz usar salto e terninho, tô cansada de chegar em casa e respirar desaprovação, tô cansada da incerteza da vida e do que a vida em si trás. Me deem um tempo. Eu sinto que vou explodir e nem ao menos estou falando com coerência.

(a gente espera) (…)

Voltei, mas não pra ficar. É que nada fica mesmo, todo carnaval tem seu fim e todo mundo já tá cego de saber disso. Mas não, mesmo assim a gente insiste que com a gente vai ser diferente, que a gente consegue enfrentar o mundo e ser feliz. *pausa para dar uma tragada*. Sabe o que mais me incomoda? É que eu não me importei de dizer adeus. Entrei na sua vida sem bater e fui embora sem fechar a porta. É com grande pesar que digo que não houve pesar e me sinto leve como uma pena.

Não acredita? Mas é isso mesmo. Lá no fundo, bem escondido, eu já sabia que ia ser assim. Que uma hora eu a desistir de tentar e admitir logo que não ia dar certo porque eu não tinha mais saco pra fazer dar certo. Sou uma mulher ocupada, sabem? Claro que não sabem. Vocês são jovens, não sabem de nada. Acham que se vive de amor e esquecem que tem contas a pagar, rotina pra cumprir, e suor pra derramar.

Esse quase-amor de migalhas, com dias espaçados e poucas horas pra aproveitar… isso não é vida não. Essa história de se esconder em quatro paredes e sorrir amarelo quando a tia vem lá da puta-que-pariu perguntar quando virão os “namoradinhos” já me encheu. Simplesmente não quero mais saber.

Tudo bem, eu sei que disse que a tentar, sem medo, que ia fazer de tudo pras coisas darem certo, mas chega uma hora que cansa, entendem? Não? Vocês não sabem de nada mesmo. Eu estou desesperada, ando de um lado pro outro, passo a mão nos cabelos, fumo um cigarro atrás do outro, tremo as mãos e derrubo as chaves. E eu estou desesperada… Já disse isso? Sinto muito.

Sinto muito se você nem se importou muito nosso término, porque nem deu tempo pra se acostumar com essa sensação de segurança que ter outro alguém proporciona.

Sinto muito se por algum momento não fui perfeita aos seus olhos. Eu quero ser a memória mais doce que você tem sobre o que é o amor.

Sinto muito se o que falo é tão desordenado, é que ainda estou uma bagunça e na verdade sempre fui, mas eu me escondi por trás dos meus óculos escuros e da minha cegueira fingida.

Pois na verdade sempre enxerguei muito bem, tão bem que nunca me deixava tentar pra valer a arte de fazer parte de alguém. Eu vejo aqueles furos que me dizem as mil e uma razões pela qual os romances baratos acabam. E meu deus, por que diabos eu sempre quis o sempre e nunca me contentei com o que me fizesse contente?

Foram as histórias que mamãe me contava antes de dormir. “E viveram felizes para sempre” era assim que terminavam. Foram os filmes que insistiram que não existe essa tal felicidade sem perda irreparável. Foram os livros a me deixar pessimista, indo a fundo nas pessoas sem pedir licença. E eu, pessoa frágil e cheia de nóias, me deixei consumir.

Eu sinto muito, sinto muito por mim mesma. Por ter fracassado de novo. Por sentir esse desejo de desistir de tudo que sonhei. Mas eu já estou ficando melhor, já estou melhorando. É que… é só que… eu percebi que estou sempre a pedir desculpas.

Eu sinto pelo muito.

Eu sinto muito por fazer muito de pouco.

Eu sinto muito por sentir.

Eu sinto muito por sentir muito.

Vou pegar meu banquinho e sair pianinho. Não quero aplausos no final. O silêncio me conforta. Eu sei que depois que eu dormir… eu sei que eventualmente… esquece, sei nada não. Mas tá tudo bem. O show já acabou, minha cartela de cigarro também acabou, até minha tristeza acabou. Só sobrou esse estado completo de perplexidade.

Estou perplexa com tantas desculpas que dou para evitar viver. Tá na hora de fechar as cortinas. Tá na hora de dizer adeus e já passou da hora de transferir minha vida futura pra vida presente. Sinto que já estou velha e nem comecei nada ainda. Me deem mais um tempo. Vou embora, vou viver, já que não tenho outra opção.

Sinto muito por não ter entendido antes. Sinto muito por desistir achando que estava perdendo meu tempo quando na verdade eu perdia meu tempo me esquivando de mim mesma.

Hoje, quando eu chegar em casa, vou direto ao espelho pra me receber com graça e de braços abertos.

“Seja bem-vinda”.