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Grafia Nº 1

O porta-retrato no criado-mudo é uma provocação. De mudo, ele não tem nada, e o que a foto retrata são dois sorrisos desfocados. A luz é pouca, mal se distinguem as duas pessoas que sorriem, a imagem é meio trêmula e a coisa toda é como ver através de um olho míope.

É que não houve preparo para aquela foto. Foi tirada sem querer e sem seriedade. Não é, definidamente, nítida. Eu revelei mesmo assim e a coloquei em um porta-retrato pousado no criado-mudo ao lado do cama que é pra quando acordar, lembrar o que aqui retrata.

Que a felicidade já esteve naquele frame e não me deixa mentir. Que valem a pena os anos que se passaram, e à longo prazo, que a vida vale a pena também.

(a vida é acúmulo de tempos)

– Já somos outros, você me diz com o dedo indicador arriscado pra mim, segurando um copo de cerveja e tragando o cigarro. Você suspira e me pergunto se suas angústias saem com a fumaça saindo da sua boca. Tenho a impressão que seu interior fervilha.

Eu, mais quieto. Você, mais prática. Já somos outros, mas será que os outros sabem disso? Eu deixo esse pensamento escapar alto e você dá os ombros. A noite cai.

Entre um dar e outro de ombros, entre uma tragada ou outra do teu cigarro, entre um sol poente e um sol poeta, eu percebo um medo se aproximar como um cão culposo. Um medo que tuas crises sejam de felicidade e teu normal de angústia ardente.

A foto no criado-mudo não mente. Tudo é eterno até que não é, tudo é passageiro até não ser.

(a vida é um cúmulo)

 

 

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epitáfio

Éramos nós, dois perdidos, gente pequena metida a mexer com poesia, sempre querendo prender a realidade em papéis ou em bytes. Éramos desgraçados, levávamos aquele parasita que se escondia no funda da alma – bem nos confins dela – e ele sempre nos dava aquele soco no estômago quando menos esperávamos.  Éramos fúteis; cobríamos nossos interiores cheios de mazelas e segredos com bobagens da vida moderna, com amores mal-amados e com fumaça de cigarro. Éramos assim, o próprio rosto da dificuldade de se reconstruir depois de tanta automutilação. Éramos a própria face do azedume da vida, da irônica existência, da estranheza de sermos humanos.

E mesmo assim, fomos felizes.

Cansados de vida, pegamos nossas mochilas e de súbito decidimos sair por aí, tentando achar um prédio que leva o nome de um cantor bacana da nossa cidade. Dentro daquelas paredes, subimos escadas em espirais que levaram a lugares escondidos e cheio de antiguidades, andamos como protagonistas de um filme, como quem descobre um tesouro no quintal de casa.

Mas todo carnaval tem seu fim e o nosso tempo passava. A realidade gritava do lado de fora das paredes do venho prédio. Demos adeus e seguimos.

E quem diria que daríamos de cara com uma clareira do tempo, cadeia das horas? Quem podia dizer que no meio de um avião desenhado há 52 anos faríamos nosso ninho? Ficamos sem palavras diante daquele clima que invadiu o ar. Sentamos para contemplar a vã existência universal.  E no meio de tanta epifania, sorrateiramente, como uma onça a atacar a presa, eis que surge a felicidade. Ficamos surpresos, mas a recebemos de braços abertos, a abraçamos e demos tapinhas em suas costas. Felicidade foi tratada como se há muito nos conhecêssemos, como se nossos destinos tivessem sidos traçados na maternidade.

Depois de não-sei-quanto tempo, felicidade nos disse que já era hora de ir. Mas prometeu nos acompanhar para aonde quer que fôssemos, disse que estaria no céu, para ter a certeza de não nos perder de vista. Eu e você, então, fizemos também uma promessa. Um dia haveríamos de escrever sobre esse encontro, porque nossa memória é capaz de esquecer, de decair.

Só escrevo agora, pois encontrei felicidade novamente, mas ela está pálida, está diferente. Veio do acômodo e não plenitude. Assim como você, eu também olho para o céu em busca do que já tivemos. Mas nessa época do ano, as nuvens tomam conta do horizonte e embaçam minha visão. Mas eu sei que em algum lugar, bem acima das nuvens, bem acima das nossas cabeças, bem acima da nossa vã filosofia, o céu da felicidade nos acompanha e nos espera.

Sei que os sábios dizem que felicidade está dentro da gente, mas algo naquele lugar a atrai para perto de gente como nós. Algum dia haveremos de contemplar o mar de Brasília e ver a plenitude que lá se esconde a cuidar de nós.

Descobrimos todas as respostas e perguntas do universo, compreendemos o sentido da vida, definimos felicidade. Foi só por alguns instantes, mas agora já podemos morrer de olhos bem fechados.