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corpo de delito

A impotência é a causa de toda morte. Meu coração bate e eu não posso fazer nada, ele vai parar alguma hora. Sou impotente com meu próprio corpo, mente e espírito. E eu não posso fazer nada, porque é esse o princípio da impotência. Um suicida morre, ele não se mata, porque a causa de toda morte é a impotência. A vida está uma merda e não há nada que você possa fazer para mudar, e nem a morte muda isso. Afinal, ninguém sabe o que há do outro lado, nem se há um outro lado. Não temos informação, não temos como obter informação, não temos nada.

Sinto raiva, uma raiva imensa,  de não poder fazer nada, nem por mim ou por alguém. Sempre que tento, tudo foge do controle e todos quebram a cara. Aliás, a busca pelo controle, pelo poder, pelo amor, pela felicidade, é só mentira. Veja bem, não possuímos essas coisas, elas que nos possuem. Essa história de que o amor é cego? É porque o amor embriaga. Essa sensação de felicidade? É a sensação  de achar ter achado o tesouro no fim do arco-íris. A vida é um efeito placedo, afinal.

E quando minha raiva cessa por fim, vem o desespero – o que fazer quando não se pode fazer nada? Ah, isso me atormenta. Essa pergunta inquieta que não cansa de martelar no coração. Senti dor, de verdade. Sua tristeza estava ali, na minha frente, completamente exposta e crua, e eu não podia fazer absolutamente nada. As circunstâncias nunca estão a favor.

Sabe aquela música? Deixa a vida me levar, vida leva eu…                      ?

E existe alguma outra coisa a fazer? Como esquecer? Como esquecer o tormento que não se vai? Se deixar levar parece tão assustador, porque nós aprendemos a nos segurar numa ilusão que levamos a própria vida.

Pelo menos eu acho que finalmente descobri o contrário do amor. É a impotência, porque ela é a causa de toda morte.

A via láctea.

Lamentável

Um francês toma café em um bairro suburbano. Olha com ódio para a Paris dos turistas que não sabem dos problemas do outro lado da cidade. Até na cidade-luz nem tudo é flores. Alguém é jogado no porta-malas de um carro em uma cidade qualquer. Como é possível caber seu corpo e tanta tensão e tanto terror e tanto medo em um lugar tão pequeno? E pra onde vai sua vida depois do tiro a queima roupa que para seus órgãos? Talvez um cientista em Estolcomo saiba, mas ele está muito preocupado agora. Tenta achar a cura da Aids. E olhem só, ele acaba de conseguir! “Prêmio Nobel, aqui vou eu”. Não importa quantas vidas serão salvas. O que mata não é a Aids. O que mata é estar vivo. Há tantas formas de morrer, e tantas formas de adiar o fatídico fim. No meio das guerras, que ocorre em baixo do nosso nariz, não há fuga e o desespero vira enxofre. Entra pelos pulmões e queima os neurônios. As mãos tremem. As mãos tremem em vários lugares do mundo. O orgasmo faz o resto do mundo explodir. As bombas fazem o resto do mundo explodir. A bala faz o coração explodir. O ódio faz o francês explodir a xícara. E tudo isso acontece ao mesmo tempo.

Nessa pequena bola flutuante do espaço, há tanta vida e tanto conflito entre a vida de seus habitantes, enquanto você lê isso, sabe-se lá o que acontece fora da sua mente. Você ficaria surpreso se alguém começasse a voar por aí? Pois fico surpreso todo dia com a gravidade. Pense, tem uma força no meio desse planeta que puxa tudo para o centro. De alguma forma, essa bola rochosa se move a uma velocidade assustadora no meio do nada.

Feche os olhos. Faça silêncio. Percebe? Tudo se move. Esqueça ET’s. Isso tudo aqui é uma explosão de vida. E de morte. Mas sempre há vida.

E toda vez que você me diz que está com tédio, é uma situação lamentável. A realidade é tão sufocante. Toda vez que você acha que qualquer besteira é o fim do mundo, eu me lamento. Todo dia a morte bate a porta, é natural. Lamentável mesmo é saber que alguém se foi sem nem saber que um dia esteve.