Arquivo da tag: foi assim

são tantas reticências…

(…) e daí que hoje passei de frente à tua casa e não é sempre que passo lá e por isso mesmo reparei que mesmo das outras vezes nem notei que aquela casa era a sua, entenda, não é como se de repente eu perdesse a memória; saber eu até sabia, mas conscientemente não tinha ligado uma coisa à outra. É que o subúrbio é tão igual, tão mediano… Mas, diz-me, garota, lembrei de você por conta de um caráter transitório. E como você irá lembrar de mim se nem sabe onde moro? Espero mesmo ter espalhado boas lembranças pelo resto da cidade. É de se admirar que eu desejo que você lembre de mim de vez em quando? Mas, guria, são tantas reticências, tantos espaços em branco. Segue-se essa lógica na memória. Ora lembra de mim, ora se esquece, ora se recorda de nós (e dos nós)…

E só de relembrar, de reviver a lembrança, garota, entendo que ainda sim há tantas, tantas reticências. Veja bem, é de partir o coração fincar o ponto final. No medo que ele trás, colocamos logo três que é pra nada, nem ninguém, ter que ser sozinho. E todos os sonhos, menina, todos os sonhos de menina também interrompidos pelo incômodo de vírgulas, sempre a atrapalhar o caminho…

Caminho esse que já mais se cruza, mesmo que nós já tenhamos descruzado os braços e soltado os nós.

Que linha liga o teu coração ao meu?

Nunca mais choveu depois de você. Isso eu li num texto de um jornal literário há um tempo atrás. Lembro que naquele dia eu não pensava em nós, nem teu nome veio à cabeça. Já era tarde e eu andava sozinho pelas quadras da Asa Sul. A noite estava bonita e eu tinha acabado de assistir “Melancolia” no cinebrasília. O caminho até a plataforma subterrânea foi cheio de pedras no caminho, cheio de poesia incompleta. No fim da estação do metrô, vi um casal de lésbicas que faziam uma filmagem de casal, daquelas coisas bonitinhas que a gente vê no cinema. Parecia mesmo um filme, só tinha nós três. Eu, um casal de garotas e um jornal. Mas, seu moço, isso parece muito poético, tem certeza que foi assim? Sim, sim, foi desse jeito. Sentei encostado num pilar e esperei o trem. As músicas no celular estavam no aleatório. Começou a tocar “Us” da Regina Spektor, aquela música marota que passa no começo de “500 days of summer”. Meu bem, quero muito mais do que 500 dias de nós, sejam eles de verão, de inverno, de alegria… Só não sejam de saudade. Já tivemos o suficiente disso por todo a vida.

Nunca mais choveu depois de você. Foi assim que me senti quando penso que te mandei embora. Que bom que você ignorou o que eu sentia na hora. É inegável que você me entende mais que qualquer um. Todo esse tempo que estivemos distantes, constantemente eu sentia um vazio que só se preenchia nos teus abraços, aqueles que eu te dava em silêncio, quando de repente eu te via nos corredores e já não mais te achava dentro de mim. Foram tempos de trevas, esses.

Nunca mais choveu depois de você. Nunca mais choveu em mim aquela sensação de estar sozinho no mundo. Obrigado por ter ficado por perto mesmo quanto te gritei pra ir pra longe. Corro agora o risco de estar sendo precipitado agora, mas se nunca tentar nunca vou saber. Arrisco dizer: você é o grande amor da minha vida. Certamente um divisor de águas. E mesmo que eu esteja errado, isso não tira mérito nenhum da nossa história.

Da mesma forma que Pandora abriu a caixa, tu me abristes o amor.