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Grafia Nº 1

O porta-retrato no criado-mudo é uma provocação. De mudo, ele não tem nada, e o que a foto retrata são dois sorrisos desfocados. A luz é pouca, mal se distinguem as duas pessoas que sorriem, a imagem é meio trêmula e a coisa toda é como ver através de um olho míope.

É que não houve preparo para aquela foto. Foi tirada sem querer e sem seriedade. Não é, definidamente, nítida. Eu revelei mesmo assim e a coloquei em um porta-retrato pousado no criado-mudo ao lado do cama que é pra quando acordar, lembrar o que aqui retrata.

Que a felicidade já esteve naquele frame e não me deixa mentir. Que valem a pena os anos que se passaram, e à longo prazo, que a vida vale a pena também.

(a vida é acúmulo de tempos)

– Já somos outros, você me diz com o dedo indicador arriscado pra mim, segurando um copo de cerveja e tragando o cigarro. Você suspira e me pergunto se suas angústias saem com a fumaça saindo da sua boca. Tenho a impressão que seu interior fervilha.

Eu, mais quieto. Você, mais prática. Já somos outros, mas será que os outros sabem disso? Eu deixo esse pensamento escapar alto e você dá os ombros. A noite cai.

Entre um dar e outro de ombros, entre uma tragada ou outra do teu cigarro, entre um sol poente e um sol poeta, eu percebo um medo se aproximar como um cão culposo. Um medo que tuas crises sejam de felicidade e teu normal de angústia ardente.

A foto no criado-mudo não mente. Tudo é eterno até que não é, tudo é passageiro até não ser.

(a vida é um cúmulo)