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Grafia Nº 1

O porta-retrato no criado-mudo é uma provocação. De mudo, ele não tem nada, e o que a foto retrata são dois sorrisos desfocados. A luz é pouca, mal se distinguem as duas pessoas que sorriem, a imagem é meio trêmula e a coisa toda é como ver através de um olho míope.

É que não houve preparo para aquela foto. Foi tirada sem querer e sem seriedade. Não é, definidamente, nítida. Eu revelei mesmo assim e a coloquei em um porta-retrato pousado no criado-mudo ao lado do cama que é pra quando acordar, lembrar o que aqui retrata.

Que a felicidade já esteve naquele frame e não me deixa mentir. Que valem a pena os anos que se passaram, e à longo prazo, que a vida vale a pena também.

(a vida é acúmulo de tempos)

– Já somos outros, você me diz com o dedo indicador arriscado pra mim, segurando um copo de cerveja e tragando o cigarro. Você suspira e me pergunto se suas angústias saem com a fumaça saindo da sua boca. Tenho a impressão que seu interior fervilha.

Eu, mais quieto. Você, mais prática. Já somos outros, mas será que os outros sabem disso? Eu deixo esse pensamento escapar alto e você dá os ombros. A noite cai.

Entre um dar e outro de ombros, entre uma tragada ou outra do teu cigarro, entre um sol poente e um sol poeta, eu percebo um medo se aproximar como um cão culposo. Um medo que tuas crises sejam de felicidade e teu normal de angústia ardente.

A foto no criado-mudo não mente. Tudo é eterno até que não é, tudo é passageiro até não ser.

(a vida é um cúmulo)

 

 

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ela

Era tarde. Será que era tarde demais? Tentei não pensar no certo e errado. Independente da hora, eu iria te ligar.

Mal cheguei a discar teu número e já desisti da ideia. Não foi por medo de te acordar ou de ser inconveniente, foi que eu entendi, menina, que não queria ouvir tua voz.

O que eu queria, menina, o que eu queria era teu silêncio. Os olhos de vergonha que ficam nervosos ao se encontrarem com os meus lascivos. O teu cabelo enroscado no braço meu. A foto mental que tirei de ti à meia-luz.

Ligar-te era me contentar com o som da tua voz, eu quis mais, menina. Eu estava no escuro e quis que você fizesse parte da escuridão comigo. Andando pelas ruas, minha vontade era de te fazer presente por todo lado, para que cada esquina tivesse teu cheiro.

Não sei como, mas as nuvens tinham a cor dos teus cabelos. O céu encoberto eram minhas pupilas, tentando enxergar você me dizer que ninguém no mundo podia conhecer ninguém e a gente era unido pela solidão.

Ah, menina. Tanto quis teu silêncio.

Fiquei com tua ausência.

Desperdício

Por favor, vê se apaga a luz ao sair. É que da última vez você a deixou ligada e eu acorde de madrugada com aquela claridade que me ardia os olhos.

E um pouco mais de atenção. Quando eu me levantei, a porta da geladeira estava aberta. E é só você que a ataca durante a noite. Eu nem consigo acreditar que você comeu todo o brigadeiro.

Ainda na cozinha, percebi que a torneira pingava. A torneira pingava e você sequer tinha lavada a louça. É um combinado, lembra? Eu cozinho, e você lava. Não faz cara feia. Somos só nós dois. Dois pratos, quatro talheres, dois copos, dois pesos e uma medida.

É claro que ninguém ligou. Você deixou o telefone fora do gancho. Ninguém deixou recado, mas eu te dou um agora: Quanta displicência! Vou mesmo ter que buscar tua cabeça na lua? Por favor, retorna de onde estiver e retorna minha ligação.

Fui tomar banho e olhe bem. O chuveiro também estava pingando. Só o ralo sabe o quanto de água se perdeu. Parando para pensar, recordo agora que tomamos banho juntos. Ok, cada um tem sua parcela de culpa. De qualquer forma, nada trás de volta a água desperdiçada.

Porque não têm desperdício maior do que nós dois. Moramos juntos, mas de que adianta se só temos presença e nunca estamos presentes? Pois estamos cômodos, no cômodo da sala. Nos acostumamos com essa inércia que nos preenche.

Acorda, meu bem. Me dê água quando eu tiver sede. Me dê carinho quando eu estiver carente. Não desperdice o meu amor. E acima de tudo: me ajude a pagar as contas de água, luz e telefone. Não cabe mais nenhum tipo de dívida na nossa relação.