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O poeta está morto

E aí, como cê tá?
Ah, rapaz, não sabes a complexidade do que perguntas. Eu, que sou eu, ainda não cheguei à nenhuma conclusão. Mas ok, vem comigo que te explico no caminho.
Veja bem, vivia em mim um poeta, ele atrasava o aluguel, não lavava a louça, remexia minhas gavetas e rabiscava minhas paredes. Ele me invadia. E eu só olhava, no fundo eu achava aquilo bonito. Era poesia, era não e sim, antítese e harmonia.
Ele, o poeta, foi embora. E como foi difícil a ficha cair, e quando finalmente caiu, caiu também eu, caiu meu mundo, caiu o céu.
É que esse poeta, rapaz, construiu alicerces em mim. Não me pergunte como, honestamente eu não sei.
Só hoje eu posso ver o quão tolo ele era. Fizera-me acreditar que as coisas em comum levavam ao amor. Céus, difícil acreditar o quão ingênuo isso é.
Naquele época, o mundo era tão pequeno, tão miúdo. E por favor, não me entenda mal. Não digo que hoje em dia vivo no maior dos mundos, que meus horizontes se perdem na vista, nada disso. Só que agora sei que existem coisas entre a Europa e a Ásia.
Ah, rapaz. Às vezes me pego com saudade daquela época, porque é claro que tudo era mais fácil. Só que não, não dá pra fechar os olhos e acreditar que a ignorância leva à felicidade.
Vai ver que é por isso que gosto de ti, rapaz. Já não habita mais em mim o poeta. Acabaram-se os amores loucos, desesperados, que vão do céu ao inferno em minutos. O poeta, meu bem, era um adolescente com ejaculação precoce. O homem que sou hoje se permitiu pensar que pode sim estar errado, que estar sozinho na vida pode ser escolha e vai saber. Da vida ninguém sabe nada. Dê boas-vindas ao homem que pergunta, mas não procura respostas.
Ainda que não caiba mais o poeta, não faz mal haver poesia.