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são tantas reticências…

(…) e daí que hoje passei de frente à tua casa e não é sempre que passo lá e por isso mesmo reparei que mesmo das outras vezes nem notei que aquela casa era a sua, entenda, não é como se de repente eu perdesse a memória; saber eu até sabia, mas conscientemente não tinha ligado uma coisa à outra. É que o subúrbio é tão igual, tão mediano… Mas, diz-me, garota, lembrei de você por conta de um caráter transitório. E como você irá lembrar de mim se nem sabe onde moro? Espero mesmo ter espalhado boas lembranças pelo resto da cidade. É de se admirar que eu desejo que você lembre de mim de vez em quando? Mas, guria, são tantas reticências, tantos espaços em branco. Segue-se essa lógica na memória. Ora lembra de mim, ora se esquece, ora se recorda de nós (e dos nós)…

E só de relembrar, de reviver a lembrança, garota, entendo que ainda sim há tantas, tantas reticências. Veja bem, é de partir o coração fincar o ponto final. No medo que ele trás, colocamos logo três que é pra nada, nem ninguém, ter que ser sozinho. E todos os sonhos, menina, todos os sonhos de menina também interrompidos pelo incômodo de vírgulas, sempre a atrapalhar o caminho…

Caminho esse que já mais se cruza, mesmo que nós já tenhamos descruzado os braços e soltado os nós.

ela

Era tarde. Será que era tarde demais? Tentei não pensar no certo e errado. Independente da hora, eu iria te ligar.

Mal cheguei a discar teu número e já desisti da ideia. Não foi por medo de te acordar ou de ser inconveniente, foi que eu entendi, menina, que não queria ouvir tua voz.

O que eu queria, menina, o que eu queria era teu silêncio. Os olhos de vergonha que ficam nervosos ao se encontrarem com os meus lascivos. O teu cabelo enroscado no braço meu. A foto mental que tirei de ti à meia-luz.

Ligar-te era me contentar com o som da tua voz, eu quis mais, menina. Eu estava no escuro e quis que você fizesse parte da escuridão comigo. Andando pelas ruas, minha vontade era de te fazer presente por todo lado, para que cada esquina tivesse teu cheiro.

Não sei como, mas as nuvens tinham a cor dos teus cabelos. O céu encoberto eram minhas pupilas, tentando enxergar você me dizer que ninguém no mundo podia conhecer ninguém e a gente era unido pela solidão.

Ah, menina. Tanto quis teu silêncio.

Fiquei com tua ausência.

Resumo de Toda a História do Universo

Foi necessário o big bang. Toda a matéria do universo se expandindo e criando antimatéria pelo vácuo. Levou bilhões de ano até que a estrela média do nosso sistema solar brilhasse. Depois disso, veio a guerra. A guerra dos mundos. Pedaços de rocha voando pelo espaço sideral e se chocando, formando pequenos conglomerados que continuavam a se chocar, ficando cada vez maiores; cada vez mais destroços iam aparecendo. No auge, houveram 2.137 pequenos planetas rochosos no Sistema Solar. Depois da Grande Guerra, restaram 8. Em um deles, as condições climáticas e randômicas proporcionaram o necessário para a Vida se manifestar. Mas essa ainda era frágil, simples demais. Alguns milhões de anos pela frente, as células se juntaram, num gesto de fraternidade cósmica. Havia seres na água mole, na terra firme e no ar maleável. Todo esse processo demorou cerca de 14 bilhões de ano.

Pulemos algumas centenas de anos de história.

A mais inteligente das criaturas terrestres desenvolveu um sistema de locomoção baseado em troca de papéis coloridos, rodas apoiadas num suporte metálico, grande concentração animal num mesmo lugar, barulho, carbono. A mais inteligente das criaturas humanas não precisa buscar alimentos oriundos da natureza, ela mesma os cria em tubos e câmaras refrigeradas. Ninguém passa fome, o que tem é mais que suficiente para todos. Essa é razão pela qual eles jogam suas comidas na rua, rua essa que eles mesmos construíram, pois seu sistema de transporte depende de um material especial chamado petróleo, petróleo que tapa a terra, que sufoca as plantas e, ironicamente, esburaca.

Faz 14 bilhões de anos desde o big bang.

O que veio a seguir aconteceu em 1 segundo.

A comida espalhada no chão atraiu os pombos. Há tempos atrai os pombos. Já faz tanto tempo, que hoje eles já não exercem com destreza a arte de voar. Preferem andar, balançando as cabeças em passos curtos. O asfalto se desenrola como um tapete a cortar a cidade. Os automóveis desfilam suas carcaças em meio a pedestres impacientes. Ônibus param, ônibus vão. Há comida no meio da pista. Há três pombos a comer em meio aos carros. Um ônibus se aproxima, os pássaros correm. Não há tempo, eles percebem isso e tentam voar. Dois batem as asas rápido o suficiente. O terceiro tem o corpo todo esmagado pela grande roda. O barulho que o esqueleto faz ao quebrar é suficientemente alto para ser ouvido mesmo no trânsito. As penas voam em direção às pessoas, como as cinzas de um corpo jogadas ao vento. A carne se expõe, aberta, remexida, revirada. Não sei dizer se é vermelha por natureza ou pelo banho sangue. Demora um pouco para o cheiro desagradável subir e me nausear. Só o que passa na minha cabeça é o tempo que a natureza gastou para que aquele pombo existisse. E ele voou da vida em um segundo, em meio à fuga. Ninguém reparou nada nisso. Ninguém reparou até que eu não aguentei mais. A mistura do som e da fúria, do odor e da imagem fez com que eu vomitasse.  Minha bile se misturou ao sangue, meu almoço se misturou ao estômago. E logo depois veio o ônibus que eu esperava. O gosto ainda ficou na minha boca. O cadáver ficou no asfalto. Vai embora com a chuva. Vai ser levar para o bueiro, cemitério de bichos.

Por que ninguém reparou na morte que aconteceu? É que foi só mais um pombo, foi a conclusão que cheguei. E daí que quando alguma pessoa morre, é só mais uma a morrer. São 14 bilhões de anos, são mortes demais para lamentar. Sofremos uma por vez. O sentido da vida é lamentar as mortes. Há uma cota a se cumprir. Já que ninguém se dignou a chorar a morte do pombo, eu chorei.

Com lágrimas de lavar tristeza, deixei o ônibus me levar pelo caminho que escolhesse. Já não era mais um alguém, e sim uma pena.

Pena de quem? Pena do quê?

Escreve-se nome no grão de arroz

E logo me ocorreu o porquê alguém gostaria de ter seu nome gravado num grão de arroz. a dúvida me foi tão pertinente que tive que parar meu deslocamento e encarar aquela situação, literalmente.

Era um suporte de madeira com aspecto mofado, era um banner despotado de sol que se jogava do alto do suporte, era uma tigela de arroz e instrumentos de fina espessura, era um homem com fineza de fome e manchas solares.

Era a paisagem suburbana, era o cerrado, e todos no cerrado são calangos. De um jeito ou de outro com peles casca-dura e suando na testa e por baixo de roupas, exalando o cheiro pela cidade e liberando o animalesco pelos poros.

O sol ameaçava despencar sobre a minha cabeça, as axilas iam se banhando e eu ali, embebedado de perplexidade. Quando finalmente sai do meu estado de naturalismo, vi as pessoas indo de lá pra cá, andando em círculos e infinitamente; sempre há algum que vai sempre há alguém que vem. Sem encontrar um ponto fixo, acabamos todos indo parar de definitivo em baixo da terra.

Fosse culpa dessas ideias talvez que acabei superando todos os desconfortos biológicos ( calor, suor, fome, vontade de urinar etc) e tive uma epifania, ali mesmo, no meio do enxame humano.

Era um milagre, a mais pura beleza que habitava nessa terra de areia e pedra. De se emocionar, e meu Deus, juro que ali rolou uma lágrima. A lágrima logo evaporou e dela só sobrou o sal e a emoção catalisadora que a disparou. Enchi meu peito de ar e me preparei para o impacto do primeiro passo. Sai atravessando a multidão que não via, que não podia perceber. Era o olho do furação, e o furação era a vida nos arrastando para todos lados, puxando pela orelha e jogando na tormenta e nessa confusão aquele homem-calango se especializara em escrever em grãos de arroz.

Não, não, eu sei, é verdade, isso de nada é prático. E a beleza estava ali mesmo, na falta de utilidade, no mero efeito placebo que exercia em mim.

Enquanto houver pessoas a escrever nos grãos de arroz, há esperança em toda humanidade, ouso dizer.

Fui pura metáfora: Atravessei a multidão como quem atravessa a barreira da cegueira. E veja bem que poesia: De cego, o homem do arroz não era nada. Tanta boa visão que escrevia com letras minúsculas em matéria orgânica que alimenta os povos.

Coloquei o grão de arroz devidamente nomeado em volta do meu pescoço. Vi minha própria identidade através do vidro em que o arroz repousava.

E quem repousava já era eu. Senti-me a pessoa mais especial do mundo, mesmo sabendo que era só mais um grão de arroz, de areia, de água do mar. E tem problema não. Já tinha a prova que até o ínfimo tem suficiente importância para ser nomeado.

epitáfio

Éramos nós, dois perdidos, gente pequena metida a mexer com poesia, sempre querendo prender a realidade em papéis ou em bytes. Éramos desgraçados, levávamos aquele parasita que se escondia no funda da alma – bem nos confins dela – e ele sempre nos dava aquele soco no estômago quando menos esperávamos.  Éramos fúteis; cobríamos nossos interiores cheios de mazelas e segredos com bobagens da vida moderna, com amores mal-amados e com fumaça de cigarro. Éramos assim, o próprio rosto da dificuldade de se reconstruir depois de tanta automutilação. Éramos a própria face do azedume da vida, da irônica existência, da estranheza de sermos humanos.

E mesmo assim, fomos felizes.

Cansados de vida, pegamos nossas mochilas e de súbito decidimos sair por aí, tentando achar um prédio que leva o nome de um cantor bacana da nossa cidade. Dentro daquelas paredes, subimos escadas em espirais que levaram a lugares escondidos e cheio de antiguidades, andamos como protagonistas de um filme, como quem descobre um tesouro no quintal de casa.

Mas todo carnaval tem seu fim e o nosso tempo passava. A realidade gritava do lado de fora das paredes do venho prédio. Demos adeus e seguimos.

E quem diria que daríamos de cara com uma clareira do tempo, cadeia das horas? Quem podia dizer que no meio de um avião desenhado há 52 anos faríamos nosso ninho? Ficamos sem palavras diante daquele clima que invadiu o ar. Sentamos para contemplar a vã existência universal.  E no meio de tanta epifania, sorrateiramente, como uma onça a atacar a presa, eis que surge a felicidade. Ficamos surpresos, mas a recebemos de braços abertos, a abraçamos e demos tapinhas em suas costas. Felicidade foi tratada como se há muito nos conhecêssemos, como se nossos destinos tivessem sidos traçados na maternidade.

Depois de não-sei-quanto tempo, felicidade nos disse que já era hora de ir. Mas prometeu nos acompanhar para aonde quer que fôssemos, disse que estaria no céu, para ter a certeza de não nos perder de vista. Eu e você, então, fizemos também uma promessa. Um dia haveríamos de escrever sobre esse encontro, porque nossa memória é capaz de esquecer, de decair.

Só escrevo agora, pois encontrei felicidade novamente, mas ela está pálida, está diferente. Veio do acômodo e não plenitude. Assim como você, eu também olho para o céu em busca do que já tivemos. Mas nessa época do ano, as nuvens tomam conta do horizonte e embaçam minha visão. Mas eu sei que em algum lugar, bem acima das nuvens, bem acima das nossas cabeças, bem acima da nossa vã filosofia, o céu da felicidade nos acompanha e nos espera.

Sei que os sábios dizem que felicidade está dentro da gente, mas algo naquele lugar a atrai para perto de gente como nós. Algum dia haveremos de contemplar o mar de Brasília e ver a plenitude que lá se esconde a cuidar de nós.

Descobrimos todas as respostas e perguntas do universo, compreendemos o sentido da vida, definimos felicidade. Foi só por alguns instantes, mas agora já podemos morrer de olhos bem fechados.