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500 dias de clichê, 500 curingas num baralho.

Eu tenho certeza que você vai pensar duas vezes antes de acreditar no que conto. E até deve. Eu mesmo não consigo entender como a realidade pôde ser tão clichê. Onde está o diretor a fazer da minha vida luz, câmera, ação? E quem é esse roteirista tão sem criatividade? Fez um retalho de livros, filmes, músicas e acha que não percebo que já li, vi e ouvi tudo isso.

Mas o fato (ou cena) é que, por ironia do destino (ou do roteirista) fui obrigado a me sentar ao lado do motorista na van escolar. Segurava aquela playlist que ganhei de você e ela chamava atenção de todo mundo. Até que inesperadamente o motorista diz pra mim:

– Thiago, você quer colocar o CD pra ouvir?

É preciso uma pausa aqui. Para fins puramente estatísticos, devo dizer que o referido motorista é um sádico. Justamente por minha vida ter virado um filme, mudaram seu personagem, única explicação para tal comportamento inesperado. Mesmo achando estranho, aceitei de bom grado a oferta. Coloquei o CD. Vi-lo sendo engolido pelo rádio e indo parar dentro da van. Prendi a respiração para ouvir as primeiras notas. Elas vieram como uma mão a acariciar o rosto, vieram pra velar meu sono, me colocar pra dormir.

O garoto ao lado desceu e me deixou a vontade para colocar a cabeça para fora da janela e senti o vento bater no rosto, ouvindo a playlist no rádio, acompanhado de estranhos que nada entendiam o que eu sentia, eu não posso deixar de ser clichê e dizer que me senti infinito. Daí que começou a tocar “O Mais Clichê”. Tô falando sério.

Para completar, hoje de manhã eu saia na chuva (veja bem!) e andando na rua encontro um quatro de espadas. Uma carta de baralho.  A playlist tem o nome de joker por causa de um livro sobre cartas e curingas, sobre maldições e destino.

Tem alguém fazendo da minha vida um filme, já disse. Então, vamos lá. Senta aqui pra ver a continuação.

Por favor, menina, não foge não. Vou ser sincero e isso assusta, eu sei. É que eu começo a me apaixonar pela ideia de um dia casar contigo, ter dois filhos, sentar na beira do lago pra ver o pôr-do-sol.  Ter uma vida assim, dessas que ninguém acredita, dessas que a gente só vê em filme. Ser feliz pela tranquilidade de uma vida que acaba em duas horas e meia.

Vamos, vamos! Peguemos uma câmera. Temos que gravar tudo. Ninguém acredita se a gente contar. Vão dizer que o clichê é fantasia. Pois eu digo que preferi viver assim, juntinho, numa vida que já foi tanto imitada pela arte. Todo mundo quer sonhar e só se recusa a ver a beleza da fotografia da vida quem  acha que não é protagonista da própria história.