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Grafia Nº 2

O porta-retrato no criado-mudo é uma ironia. De mudo, ele não tem nada, e o que a foto retrata é aquele beijo na testa que mexe com o corpo inteiro  e faz a gente se perguntar se o céu é por aqui.

Cê sabe que no meio de tantas, eu escolheria aquela foto para ser aquela a ficar ao lado da cama. Todo o simbolismo de ter sido a primeira, todos os dias à ela relacionada, todo sentimento nela contida.

O cheiro de tinta ainda está no apartamento e a verdade é que sujei sem querer o criado-mudo e por isso ele está do outro lado do quarto, e eu sei que não foi exatamente uma boa ideia chamar aquela amiga nossa para ajudar na mudança, mas olha, crianças são tão bagunceiras quanto, então leve isso como um treinamento intensivo.

É claro que eu lavo a louça, mas só se você secar. E nem vem que varrer a casa é dever seu e isso já tava decidido desde sempre. Claro que as pessoas mudam e nosso amor é prova disso, mas ele não é um argumento válido nessa discussão.

Tá esfriando, o sol já tá sumindo e a gente pode largar as coisas desse jeito e só assistir Netflix? Ainda não dá pra cozinhar então sim, vamos pedir uma pizza. Calafrango, obviamente, porque nessa vida a gente pode sim ter calabresa e frango, amor e dinheiro, preto e branco e todo o intervalo de cores. E olha, enquanto você não estava, comprei suco pra você. Acho é bom que me sobra mais refrigerante.

E depois de uma noite em que dois somos um, teu rosto é a primeira imagem do meu dia. E nossos rostos ali no criado-mudo, mostrando o momento em que tudo começou. Quando eu fui teu primeiro amor e você foi o meu último.

 

 

 

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o tempo que levou pra arrumar aquela gaveta

para ouvir com: bandavoou

Encontrei hoje aquele colar com que há tempos me presenteaste. Estava no fundo de uma gaveta, entre coisas perdidas e ignoradas. Sentei-me na cama e o segurei no ar, enquanto tentava decifrar vagarosamente o que sentia. Lembro-me que há tempos atrás, quando quis me livrar da tua presença, mantive o colar. Faltou-me coragem ou bom senso, o fato mesmo é que o guardei na gaveta, e vejo agora que também te deixei lá, lá no fundo, misturados o não-querer com o bem-querer.

Memória é mistério, sendo assim não sei porquê lembro tão bem de tantos passos que demos. Sim, eu lembro. Mas há muito não pensava nisso. Nos vejo sentados no canto do palco. Eu tentando me afastar e você insistindo em aparecer. Agora, penso mesmo que foi falta de vontade minha em te recusar por inteira.

Achei teu colar bonito, eu disse. Você estava diferente, mais responsável e já trabalhava. Disse a mim que sempre passava em frente uma barraca hippie e lá havia comprado o colar. Disse também que me daria um. Especialmente escolheria um para mim. Nós sorrimos mutuamente. Naquele instante, eu te amei.

A promessa veio e ficou. Naquele mesmo palco meu pescoço foi agraciado com o colar de um hippie. Talvez querendo dizer que ainda se importava depois de tanto tempo, tanto silêncio. Era sempre uma lembrança a exclamar sua existência, só há o que há de bom em ti em volta de mim.

Mas o tempo foi cruel com essas lembranças. Não as apagou e nem as glorificou. Simplesmente perderam sua importância no curso do agora. A caixa de pandora de minhas memórias se abre novamente e agora estamos em sala, eu deitado no teu colo, o cafuné transmitindo carinho e trocamos juras de viver dia a dia, lado a lado, fazendo crescer o amor que ali se fazia presente. Naquela época, eu acreditei naquelas promessas, tinha convicção que nunca deixaria de querer-te sempre e a todo instante. Mas tudo passa, meu bem. Eu passei por você, você passou por mim, e ninguém previu a hora da colisão.

Os tempos já são outros, a vida já é outra. Já não há mais teatro, não existem mais amigos em comum. Você se foi. Nós nos fomos. E o que fomos mesmo? E para onde mesmo vão as coisas que se perdem? Para o fundo da gaveta.

Então não me culpe por lembrar de você, tenho outras culpas, eu sei. Culpas grandes, mas não me martirizo nem agora. Perdoei-me e à todos. Mas veja bem, meu bem. Fiquei encantado por ti, como Júpiter você atrai todos a tua volta. E me gira, me roda, me enrola. Envolto em ti, achei abrigo, cheiro e beijo, compreensão e por fim, desespero. Eu correto e você selvagem.

Meu encanto se prendia na sua liberdade. O que eu não entendia antes era que como qualquer outra pessoa, eras só assustada. Ou ainda é. Toda sua autodestruição era fuga, ponto de fuga.  Diz-me garota, tens medo do quê? O que eu não percebia era que somos iguais na essência e diferentes na forma. Por vezes, eu também sou autodestrutivo. Mas num primeiro momento, só fui capaz de enxergar teus erros.

Então garota, admito, não sei bem aonde quero chegar, só queria dizer oi. Ô menina, você é o tipo de pessoa que fica bem em foto 3×4, anda ri, eu gosto eternamente do teu sorriso. Não há motivo para dizer oi agora. Não há. Ficarei então te olhando apenas. Se voltássemos a nos ver depois de todo esse tempo, eu gostaria de ficar em silêncio, talvez te abraçasse, talvez segurasse sua mão, mas não ousaria abrir a boca. Não temos como verbalizar o vazio que ficou para trás.

Anda menina, segue teu caminho. Sempre soubemos que haveria de chegar esse dia em que o olá seria dificílimo de sair. Se não consigo dizer oi, fica então a minha despedida. Despedida de quem pega o bonde andando, despedida apressada, esperando pelo retorno que nem sempre vem. O trem já fez a curva, menina, e até hoje não vi a linha de chegada.

Alguém bate à porta.

Eu nunca disse que era uma boa pessoa. E você nunca se deu ao trabalho de perguntar, veja bem. Já concluiu que eu, cheia de poesia e frustação de dor, era como aquelas pessoas; nem ruim nem mal, que cometem erros e acertos, e vivem por viver porque o único lugar que a vida leva é pra morte.

E até que eu era mesmo assim.

Mas, ah que tormento, veio a tempestade de areia e me levou pra longe de mim. Pisaram no meu castelo como quem esmaga formiga na cozinha. Fui chorar no fogo que é lugar quente. Nem percebi que o que continuava doendo não era eu, não era ela. Era a vontade de mártir que me consumia.

Pois, ah que a verdade seja dita, eu nunca fui uma boa pessoa.

E você, de todos, você sabe que só vivi rodeada de mentiras que rosnam pra mim como cães raivosos. Cães raivosos abandonados num canil, daqueles que ninguém quer cuidar, porque são feios e têm três pernas, porque têm sarnas e bichos mutantes na pele, porque o diabo os criou assim e os jogou nesse mundo cão.

E eu sempre fui vítima, daquelas que sofrem caladas e se acham culpadas se o dia está nublado. Desde os tempos de infância, que tanto exaltam, eu era a vítima. E sim, era por escolha mesmo. Veja, veja! Abre bem teu olho e olha pra mim. É mais fácil morrer do que matar.

Pobre de mim, ah que ilusão, eu sempre fui uma boa pessoa.

Não seria capaz de matar uma mosca, me deixava morrer pelo outros, pois eu nasci pura como a noite cheia de estrelas que iluminam o infinito blue. Porque eu sei como é a dor, e só de pensar em provocá-la em alguém, me dá vontade de arrancar essa fantasia de humana pra ver como eu sou debaixo de toda a sujeira que reluz por fora.

Vejo que de tanto morrer, fui morrendo, morreeeeendo, lentamente. Fui perdendo a sensibilidade. Abandonei-me porque já não aguentava tanta mediocridade.

Certo dia acordei de sonhos inquietos, metamorfoseada em mim. Vivia, mas estava morta. Descobri as vantagens de ser um morto. Eu já não sentia mais que pena, porque a pena é leve e eu sou pesada e incômoda. Mas sentia uma vontade irresistível de te puxar o pé enquanto você dorme, de te assombrar os sonhos, de te deixar infeliz. Não pra que eu possa ser feliz, mas para que eu possa “ser”, pois para um morto, todos os verbos estão no passado.

Não sinto culpa, pois ah, é a vingança. Não há coisa mais linda nessa terra. Não fui eu quem começou a briga. Estou só devolvendo o que você me deu, ou deixou de dar. Não fui eu a começar a briga. Foi você! Foi quem me cuspiu! Foi tua mãe! Foi um vilão de filme mexicano! Foi Deus! Foi o Diabo! Que me importa? Só sei que não fui eu.

Não me interessa quem foi. Não me importa quem fui. Se já houve boa pessoa nesse mundo, que descanse em paz, a sete palmos do chão.