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Grafia Nº 2

O porta-retrato no criado-mudo é uma ironia. De mudo, ele não tem nada, e o que a foto retrata é aquele beijo na testa que mexe com o corpo inteiro  e faz a gente se perguntar se o céu é por aqui.

Cê sabe que no meio de tantas, eu escolheria aquela foto para ser aquela a ficar ao lado da cama. Todo o simbolismo de ter sido a primeira, todos os dias à ela relacionada, todo sentimento nela contida.

O cheiro de tinta ainda está no apartamento e a verdade é que sujei sem querer o criado-mudo e por isso ele está do outro lado do quarto, e eu sei que não foi exatamente uma boa ideia chamar aquela amiga nossa para ajudar na mudança, mas olha, crianças são tão bagunceiras quanto, então leve isso como um treinamento intensivo.

É claro que eu lavo a louça, mas só se você secar. E nem vem que varrer a casa é dever seu e isso já tava decidido desde sempre. Claro que as pessoas mudam e nosso amor é prova disso, mas ele não é um argumento válido nessa discussão.

Tá esfriando, o sol já tá sumindo e a gente pode largar as coisas desse jeito e só assistir Netflix? Ainda não dá pra cozinhar então sim, vamos pedir uma pizza. Calafrango, obviamente, porque nessa vida a gente pode sim ter calabresa e frango, amor e dinheiro, preto e branco e todo o intervalo de cores. E olha, enquanto você não estava, comprei suco pra você. Acho é bom que me sobra mais refrigerante.

E depois de uma noite em que dois somos um, teu rosto é a primeira imagem do meu dia. E nossos rostos ali no criado-mudo, mostrando o momento em que tudo começou. Quando eu fui teu primeiro amor e você foi o meu último.

 

 

 

Que linha liga o teu coração ao meu?

Nunca mais choveu depois de você. Isso eu li num texto de um jornal literário há um tempo atrás. Lembro que naquele dia eu não pensava em nós, nem teu nome veio à cabeça. Já era tarde e eu andava sozinho pelas quadras da Asa Sul. A noite estava bonita e eu tinha acabado de assistir “Melancolia” no cinebrasília. O caminho até a plataforma subterrânea foi cheio de pedras no caminho, cheio de poesia incompleta. No fim da estação do metrô, vi um casal de lésbicas que faziam uma filmagem de casal, daquelas coisas bonitinhas que a gente vê no cinema. Parecia mesmo um filme, só tinha nós três. Eu, um casal de garotas e um jornal. Mas, seu moço, isso parece muito poético, tem certeza que foi assim? Sim, sim, foi desse jeito. Sentei encostado num pilar e esperei o trem. As músicas no celular estavam no aleatório. Começou a tocar “Us” da Regina Spektor, aquela música marota que passa no começo de “500 days of summer”. Meu bem, quero muito mais do que 500 dias de nós, sejam eles de verão, de inverno, de alegria… Só não sejam de saudade. Já tivemos o suficiente disso por todo a vida.

Nunca mais choveu depois de você. Foi assim que me senti quando penso que te mandei embora. Que bom que você ignorou o que eu sentia na hora. É inegável que você me entende mais que qualquer um. Todo esse tempo que estivemos distantes, constantemente eu sentia um vazio que só se preenchia nos teus abraços, aqueles que eu te dava em silêncio, quando de repente eu te via nos corredores e já não mais te achava dentro de mim. Foram tempos de trevas, esses.

Nunca mais choveu depois de você. Nunca mais choveu em mim aquela sensação de estar sozinho no mundo. Obrigado por ter ficado por perto mesmo quanto te gritei pra ir pra longe. Corro agora o risco de estar sendo precipitado agora, mas se nunca tentar nunca vou saber. Arrisco dizer: você é o grande amor da minha vida. Certamente um divisor de águas. E mesmo que eu esteja errado, isso não tira mérito nenhum da nossa história.

Da mesma forma que Pandora abriu a caixa, tu me abristes o amor.