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o tempo que levou pra arrumar aquela gaveta

para ouvir com: bandavoou

Encontrei hoje aquele colar com que há tempos me presenteaste. Estava no fundo de uma gaveta, entre coisas perdidas e ignoradas. Sentei-me na cama e o segurei no ar, enquanto tentava decifrar vagarosamente o que sentia. Lembro-me que há tempos atrás, quando quis me livrar da tua presença, mantive o colar. Faltou-me coragem ou bom senso, o fato mesmo é que o guardei na gaveta, e vejo agora que também te deixei lá, lá no fundo, misturados o não-querer com o bem-querer.

Memória é mistério, sendo assim não sei porquê lembro tão bem de tantos passos que demos. Sim, eu lembro. Mas há muito não pensava nisso. Nos vejo sentados no canto do palco. Eu tentando me afastar e você insistindo em aparecer. Agora, penso mesmo que foi falta de vontade minha em te recusar por inteira.

Achei teu colar bonito, eu disse. Você estava diferente, mais responsável e já trabalhava. Disse a mim que sempre passava em frente uma barraca hippie e lá havia comprado o colar. Disse também que me daria um. Especialmente escolheria um para mim. Nós sorrimos mutuamente. Naquele instante, eu te amei.

A promessa veio e ficou. Naquele mesmo palco meu pescoço foi agraciado com o colar de um hippie. Talvez querendo dizer que ainda se importava depois de tanto tempo, tanto silêncio. Era sempre uma lembrança a exclamar sua existência, só há o que há de bom em ti em volta de mim.

Mas o tempo foi cruel com essas lembranças. Não as apagou e nem as glorificou. Simplesmente perderam sua importância no curso do agora. A caixa de pandora de minhas memórias se abre novamente e agora estamos em sala, eu deitado no teu colo, o cafuné transmitindo carinho e trocamos juras de viver dia a dia, lado a lado, fazendo crescer o amor que ali se fazia presente. Naquela época, eu acreditei naquelas promessas, tinha convicção que nunca deixaria de querer-te sempre e a todo instante. Mas tudo passa, meu bem. Eu passei por você, você passou por mim, e ninguém previu a hora da colisão.

Os tempos já são outros, a vida já é outra. Já não há mais teatro, não existem mais amigos em comum. Você se foi. Nós nos fomos. E o que fomos mesmo? E para onde mesmo vão as coisas que se perdem? Para o fundo da gaveta.

Então não me culpe por lembrar de você, tenho outras culpas, eu sei. Culpas grandes, mas não me martirizo nem agora. Perdoei-me e à todos. Mas veja bem, meu bem. Fiquei encantado por ti, como Júpiter você atrai todos a tua volta. E me gira, me roda, me enrola. Envolto em ti, achei abrigo, cheiro e beijo, compreensão e por fim, desespero. Eu correto e você selvagem.

Meu encanto se prendia na sua liberdade. O que eu não entendia antes era que como qualquer outra pessoa, eras só assustada. Ou ainda é. Toda sua autodestruição era fuga, ponto de fuga.  Diz-me garota, tens medo do quê? O que eu não percebia era que somos iguais na essência e diferentes na forma. Por vezes, eu também sou autodestrutivo. Mas num primeiro momento, só fui capaz de enxergar teus erros.

Então garota, admito, não sei bem aonde quero chegar, só queria dizer oi. Ô menina, você é o tipo de pessoa que fica bem em foto 3×4, anda ri, eu gosto eternamente do teu sorriso. Não há motivo para dizer oi agora. Não há. Ficarei então te olhando apenas. Se voltássemos a nos ver depois de todo esse tempo, eu gostaria de ficar em silêncio, talvez te abraçasse, talvez segurasse sua mão, mas não ousaria abrir a boca. Não temos como verbalizar o vazio que ficou para trás.

Anda menina, segue teu caminho. Sempre soubemos que haveria de chegar esse dia em que o olá seria dificílimo de sair. Se não consigo dizer oi, fica então a minha despedida. Despedida de quem pega o bonde andando, despedida apressada, esperando pelo retorno que nem sempre vem. O trem já fez a curva, menina, e até hoje não vi a linha de chegada.

O príncipe de xadrez no lustroso metrô da plebe

Era uma vez – sim, era uma vez – (porque o que era já não é, não é mesmo?)

E daí você pergunta: Mas moço, pra quê começar com era uma vez se você repudia finais felizes? Vamos deixar a resposta pro final (quem acertar ganha prêmio).

Dizem que toda boa história tem que ter um amor sofrido. Mas isso eu não entendo. Sempre me interessei pelas firulas da alma e as profundidades do ser, mas me disseram que era muito fútil e que deveria mesmo investir num grande amor fracassado. Falaram que eles trazem dignidade à essa terna idade. E como eu gosto de ter honra, decidir sofrer de amor. Primeiro passo:

Um cenário clichê.

O metrô nem demora a chegar, mas logo que desci as escadas – por favor, imagine os cortes de câmera e uma fotografia bem vintage – me apaixonei à primeira vista – Ahhhhhh. Aqui vai uma nota mental: Muito cuidado ao imaginar o príncipe encantado desse conto de fadas. Ele não é lá essas coisas. Só estou avisando.

Já sei, você está com dúvida de novo, diz aí. Moço, isso é mesmo um conto de fadas? Vou te responder com outra pergunta: Isso é mesmo vida real? Tempo na tela, tic tac, tic tac.

Daí que o príncipe encantado vai embora de metrô porque eu fiquei contando o tempo ao invés de ir chamá-lo pro baile.

*BOOM*

Eis que surge o bruxo que irá me causar problemas para alcançar o verdadeiro amor. Ele me lança um feitiço e já começa a surtir efeito:

Ora, ora. Que desgosto do meu coração. Por que esse gosto? Por que esse amar?  E por que logo a ele, garoto tão medíocre que usa sempre a MESMA BLUSA XADREZ? Vem o destino e já esfrega na minha cara que ele já encontrou seu amor, sua alma fragmentada. Já é feliz por causa de outro alguém, ao que eu já sofro por causa de outro alguém. E logo vem aquela vontade de dizer, não, não vou tomar o mesmo vagão que você, mas eis que você já embarcou ao meu lado e conhece os meus amigos e me deixa bobo, porque já fui bobo pra começar isso de qualquer maneira. E quando eu começo a ficar feliz – afinal estou alcançando meu objetivo (sofrer de amor) – acontece um plot twist que muda tomo o rumo da minha estória épica.

O bruxo era o príncipe, quer dizer, o príncipe é um sapo, quer dizer, o bruxo e o príncipe são a mesma pessoa.

*BOOM AGAIN*

Logo quando eu estava bem perto de sentir o sofrimento honrado que é sofrer de amor, eu me deparo com a decepção do mais do mesmo.

É difícil sofrer quando as pessoas são só pessoas. Acho que tem gente que se dá tão mal no amor porque ele é muito humano (cheio de buracos e falhas).

E meu conto de fadas termina assim, sem sal, porque eu consegui sofrer por algo tão pequeno quanto eu.

Ainda tô devendo uma resposta, mas desisto de tentar encontrar uma resposta. Se você faz muita questão mesmo disso, vá procurar por si mesmo. Acho que já nem sou mais desse planeta.

Obs: Para sugestões de fins melhores, por favor, me mande um email.

Obs²: A gordinha, imagreceu. A feisoza ficou bonitas. E eu ainda não consegui entender esses heartbreak de adolescentes.